02 Março 2026
"Enquanto o Ocidente especulava sobre um morno outono do regime, era sempre ele que tinha o comando, ordenava repressões implacáveis a cada retorno da revolta. Ele sabia que uma teocracia é irreformável porque é construída sobre uma verdade monolítica. Com as bombas muitas vezes se liberta o diabo, não a democracia, a mudança de regime, a revolução. Por enquanto, temos, talvez, a morte de um homem."
O artigo é de Domenico Quirico, jornalista italiano, publicado por La Stampa, 01-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O epílogo dos tiranos nunca é uma obra-prima de refinamento retórico e cênico. Macbeth é uma invenção maravilhosa de Shakespeare; a realidade é feita de sórdidos flashes do noticiário policial à la Gaddafi ou à la Ceausescu. E sim, vamos nos resignar. O horror do fim é um enigma que cada um carrega dentro de si e arrasta sozinho em sua morte. Teremos que imaginar os últimos, possíveis instantes, do Líder Supremo sob as bombas israelenses-estadunidenses. Faltarão as frases famosas, as maldições póstumas, os apelos por vingança, e até — por que não? — os arrependimentos, o humaníssimo medo, o choro. Circulam rumores de que Khamenei já morreu ontem. Ele matou até o fim, e seu fim será violento de qualquer maneira.
Então, sequência final do remake de Khomeini, mas sem carisma e com bombas atômicas de mentira? Talvez. Enquanto pessoas anônimas morrem no Irã sob as bombas da democracia e da enésima Nova Ordem Internacional de Netanyahu e parceiro estadunidense, com a indecência de espectadores, invocamos as provas da morte da única vítima que nos interessa, para pôr a palavra fim e voltar a divagar sobre geopolíticas. Dizem que o medo de desaparecer se tornara uma obsessão para Ali Khamenei; ele vinha alimentando ideias fóbicas, desatinos delirantes, e sentia a presença próxima de seus oponentes. Ele se debatia no Palácio entre crises depressivas e reações assassinas, ordenando massacres cada vez maiores como se fossem sacrifícios divinatórios à eternidade do Poder.
Talvez ele estivesse ciente, após quase quarenta anos de domínio teocrático e pragmático, de que seu Estado tirânico estava podre até a medula. Esse xiismo carnívoro, canonicamente disfarçado de punição para apóstatas, certamente não era um espetáculo limpo. Até mesmo seus verdadeiros apoiadores, os guardiões da revolução, aguardavam o último suspiro do idoso, talvez já não mais venerado, para arranjar novos equilíbrios, sempre totalitários, mas mais espertos, mórbidos e víscidos. Em suma, o ambiente sofria com tensões horizontais e verticais, figuras eminentes brigavam entre si, pressões de baixo minavam as antigas hierarquias. Surgiam por todo lado figuras sem qualidade.
Talvez bastasse esperar. A agressão "preventiva", por outro lado, consolidará e otimizará os cálculos de novos lobbies perversos, sem criar falhas em um cenário de antemão escrito com Comitês, lideranças colegiadas, poliarquias sem líderes únicos, sucessões fixadas até o quarto estágio de assassinato seletivo. Portanto, cuidado ao hipotecar futuros radiantes, uma especialidade das desmioladas espertocracias ocidentais. A tirania teocrática é o instrumento de poder mais férreo já inventado porque garante margens ilimitadas de violência por serem sagradas, por serem desencadeadas contra pecadores e não banais dissidentes.
Espalha mensagens divinas; se algo se revelar falso, o mentiroso seria deus. É improvável que os herdeiros, com ou sem abaya e turbante, não alimentem essas utilíssimas brasas para seu próprio proveito. É curioso que sempre exista uma agenda dinástica nos plúmbeos e falimentares refrãos das ditaduras orientais. Bashar al-Assad, na Síria, apoiado justamente pelo Irã, sucedeu seu pai, Afez. Khamenei também trabalhava numa sucessão interna, com seu filho Mojtaba, promovido a aiatolá em 2022. Era o administrador do império industrial e comercial do Líder Supremo e dos Guardiões da Revolução. Treinamento perfeito para depois pregar um santo terror e aviltar a Deus, misturando-o com negócios mesquinhos.
Quem sabe se as bombas o extirparão junto com seu pai? Uma guerra havia posto em órbita a carreira de Khamenei, e uma guerra a destruiu. Na década de 1960, era um dos propagandistas de Khomeini e de sua lunática revolta carismática e apocalíptica contra o modernismo corrupto e sem grandes sutilezas do Xá. Preso diversas vezes pela Savak, ele não figurava, contudo, nos primeiros escalões do novo, original poder que o Grande Aiatolá havia imposto por referendo à República Islâmica: em uma estrutura semiótica divina sem precedentes, o presidente é eleito por sufrágio universal, mas submetido ao Líder supremo, que responde por suas decisões apenas perante o Todo-Poderoso.
Em suma, ele era um executor subalterno e entusiasta, que ficava ali para servir de anteparo junto com os notáveis de vestes pretas. Também porque, na nomenklatura da primeira revolução islâmica da história, Khamenei não desfrutava de um status religioso adequado. Resumindo: para os arrogantes grandes aiatolás, ele era pouco mais que um pároco de interior de segunda categoria. Foi a invasão de Saddam que o tirou da sombra do aglomerado político, tornando-o um protagonista. Como vice-ministro da Defesa estreitou laços com a Guarda Revolucionária, heróis da épica defesa contra o invasor nos pântanos de Basra e executores da brutal repressão interna, facínoras com tendência a massacres.
Esse é o verdadeiro poder que está chegando: porque são eles que será preciso erradicar não só dos quartéis, mas também dos ministérios, das companhias petrolíferas, das indústrias militares e nucleares, da rede de contrabando milionária, com sua história paralela que acompanha aquela da casta dos aiatolás, mas nem sempre coincide, que têm famílias, contas no banco e até convicções a defender. Um atentado o privou parcialmente do uso do braço direito, tornando-o quase um mártir. Sua nomeação para liderar as orações em Teerã o levou à presidência.
Mas a escolha de Khomeini como seu sucessor foi uma segunda opção. O esquema constitucional tinha um vício de origem: ninguém podia reivindicar o título de "marja" como ele, referência suprema ao qual os outros ciumentos aiatolás se curvariam. Era, portanto, necessário confiar na lealdade canina, na qual Khamenei não tinha rivais. Ele substituiu a fragilidade dogmática pela ferocidade do poder e pelo projeto do crescente xiita do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico, com o Hezbollah, Bashar al-Assad, as milícias iraquianas e os Houthis iemenitas.
O rancor contra o Ocidente e sua "colônia" israelense, com seu incivilizado costume de criar empecilhos, bastava para formar cortadores de cabeças. É por isso que a sucessão de decorativos presidentes eleitos era secundária: radicais como Ahmadinejad ou moderados como Rouhani, ideólogos como o carniceiro Raissi ou pragmáticos como o atual Pazeshkian. Enquanto o Ocidente especulava sobre um morno outono do regime, era sempre ele que tinha o comando, ordenava repressões implacáveis a cada retorno da revolta. Ele sabia que uma teocracia é irreformável porque é construída sobre uma verdade monolítica. Com as bombas muitas vezes se liberta o diabo, não a democracia, a mudança de regime, a revolução. Por enquanto, temos, talvez, a morte de um homem.
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