06 Janeiro 2026
"Até mesmo Trump, com suas algazarras truculentas e desaforadas, acabou se conformando ao velho princípio de que a melhor maneira de manipular a opinião pública estadunidense para seus próprios fins é desfraldar um princípio moral", escreve Domenico Quirico, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 04-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Uma pergunta um tanto provocativa: vocês não acham que os Estados Unidos, a nação indispensável, estão começando a se parecer demais com o Estado canalha perfeito? Em vez de conduzir a comunidade das nações à felicidade, especialmente em suas fibrilações trumpianas, o país parece cada vez mais inclinado a se contrapor a ela. Em vez da "cintilante cidade na colina que todos admiram", parece que estamos ouvindo um jingle nacionalista meio tosco: fazemos o que queremos e, se vocês não gostam, paciência, azar de vocês.
Os estadunidenses estão errados em não se perguntarem por que se tornaram impopulares, depois de terem sido, por muito tempo, aclamados pela vitória sobre os nazismos, acumulado louvores muitas vezes gratuitos e vivido de uma renda considerável de admiração e benevolência, mesmo quando cometiam erros. Mas hoje são julgados no âmbito moral como não mais leais, incontroláveis e irresponsáveis. Maduro, sombrio, tirano, corrupto, talvez até ligado ao narcotráfico, entre dois agentes da DEA, enviado como Noriega anos atrás a ser punido por um tribunal (obviamente estadunidense), também pode ser considerado o atalho ambíguo de um bem alcançado por métodos questionáveis. Mas o problema persiste e levanta questões complexas e vitais: o objetivo da operação militar especial em Caracas era punir um vilão ou restaurar a ordem e o silêncio na base de bofetadas no barulhento quintal latino-americano? Ou retomar o controle de um produtor de petróleo? Ou impedir a entrada dos chineses?
Democracia e direitos não se sobrepõem como moldes de interesses bem mais mesquinhos, do negócio nu e cru; pelo contrário, quase sempre divergem. Foi um presidente, Calvin Coolidge, quem presenteou os estadunidenses com palavras comoventes: "Civilização e lucros avançam de mãos dadas".
Talvez eles terão que perceber que existem, no mundo, pluralidades de arcos-íris, enquanto seu prisma prevê apenas dois matizes: o azul do céu estadunidense e o vermelho do inferno para os outros. Milhões de pessoas ao redor do mundo, não satânicos terroristas de deus ou de algum autocrata, se perguntam por que a Força Delta, além de fazer justiça em Caracas e, em breve, em Teerã, não desce como um anjo vingador também no Cairo, em Riad ou em Islamabad para corrigir suas tribulações.
Talvez porque sátrapas, chefes de estado muçulmanos e assassinos principescos daqueles países não atrapalham, mas sim colaborem com os interesses estadunidenses? E têm direito à imunidade até mostrarem sinais de desobediência?
Então têm razão em se sentirem seguros sub specie aeternitatis, apenas os canalhas que guardam a bomba atômica em suas caixas fortes, ou seja, Putin, Xi e o coreano, o Paquistão e a Índia. Uma lição que talvez os aiatolás não tenham tempo de transformar em realidade.
Nada de isolacionismo para se barricar contra a imoralidade de um mundo corrupto ou o imperialismo soft!
Simplesmente mudou o método pelo qual os estadunidenses enfiam suas mãos nos assuntos alheios.
Até certo ponto, o modelo golpe funcionou, inquestionado: do Diem vietnamita a Allende. Os loucos anos vinte: a escola de ditadores no Panamá, os gorilas de óculos Ray-Ban na folha de pagamento da CIA, um telefonema codificado e pronto, Guatemala, Honduras, Indonésia, Camboja, Chile, Irã, mudança de regime realizada! A hidra do comunismo, a obsessão com o efeito dominó, sempre estiveram à espreita. Por acaso vocês se iludem pensando que se possa usar luvas de pelica para lidar com adversários tão desprezíveis? O altruísmo estadunidense: convencido de matar com gentileza, usando bombas e killers tomados por um impulso irrefreável de caridade. Pinochet e seu esperto titereiro, Kissinger, foram os últimos dessa corja de inapresentáveis, o corte entre o antes e o depois. A pantomima não pode ser repetida indefinidamente; funciona enquanto houver adversários fracos. Agora se passou para o modelo que poderíamos chamar de "golpe de baixo". A desculpa da liberdade sempre funciona, mas está-se tomando maior cuidado para evitar demasiadas discrepâncias. Para a transição, é preciso usar pretorianos que não causem alvoroço; é preciso recorrer ao rico reservatório das classes dominantes globalizadas, a alta nobreza global que se autoproclama dona da Terra por ser rica, culta, imune a raízes plebeias arcaicas e, acima de tudo, pronta para colaborar. A seleção é feita a partir das extensas listas de executivos de instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, fundadas, não por acaso, com sábia previsão antes das inúteis e inseguras Nações Unidas.
O imperialismo impõe regras inflexíveis. Adotam-se e inflam-se quando não existem (a propaganda é uma arma de longo alcance) movimentos de protesto contra os regimes desobedientes ou perigosos para os interesses estadunidenses. Apenas esses. E se intervém entre discórdias e grupos rivais para garantir a transição para a democracia. Quem teria a coragem de defender figuras como Saddam Hussein, o mulá Omar, Maduro ou os aiatolás adeptos da forca?
Azar se a caçada a Maduro se assemelhou mais um sequestro de uma gangue mafiosa do que um atalho democrático. Uma coisa de cada vez. No caso do Irã, Trump já anunciou que defenderá (juntamente com Israel?) os manifestantes que protestam contra a alta do custo de vida. A CIA está à obra com seus velhos e queridos métodos, detalhados e explicados em filmes e manuais. Como frequentemente acontece, não perdeu tempo em dar uma olhada na história do Irã. São especialistas práticos, não intelectuais. Os manifestantes, segundo fontes confiáveis (sussurradas de Langley, Virgínia?), estão entoando slogans em meio à confusão, pedindo o retorno do Xá! Uau! Que reviravolta! Em Langley, os inspiradores estão atrasados no repasse: de Mossadeq até hoje, sua guerra pelo controle do Irã e seu petróleo não conhece idade.
Os Estados Unidos são a potência mais intervencionista do mundo, mas os objetivos e métodos dessa política são sempre cuidadosamente ocultados por trás de uma névoa de insuportável retórica e confusão. De Kennedy a Trump, os estadunidenses se envolveram em ações moralmente questionáveis, muitas vezes militarmente frustrantes e quase sempre politicamente ineficazes.
A tendência de invocar princípios grandiosos — a criação da democracia, a luta contra tiranos e terroristas, a segurança nacional, a repressão ao narcotráfico ou ganâncias atômicas não autorizadas — serve para ocultar a avaliação fria dos interesses, não só econômicos ou de poder, mas muitas vezes mesquinhos dos presidentes. Até mesmo Trump, com suas algazarras truculentas e desaforadas, acabou se conformando ao velho princípio de que a melhor maneira de manipular a opinião pública estadunidense para seus próprios fins é desfraldar um princípio moral. Pergunto-me se por acaso ele já leu a advertência de Edmund Burke: "Grandes impérios e intelectos pequenos não se harmonizam".
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