“A Única Saída” expõe o capitalismo selvagem e o papel do trabalho na identidade pessoal. Artigo de Christian Stähler Padilha

Cena de "A Única Saída" (2025). Foto: Reprodução/Mubi

24 Fevereiro 2026

“Ao contrário de outras obras de vingança, inclusive as do próprio Park Chan-wook, diretor da chamada Trilogia da Vingança ('Mr. Vingança', 'Oldboy' e 'Lady Vingança'), o protagonista não é um sujeito determinado, nem moralmente coerente em sua violência. Trata-se de um homem inseguro e frequentemente patético, uma imagem inversa àquela sugerida pelo trailer, que aparentava apresentar um serial killer frio, sem qualquer empatia por seus concorrentes”, escreve Christian Stähler Padilha, estudante do quarto semestre de Jornalismo na Unisinos e estagiário do Instituto Humanitas UnisinosIHU.

Eis o artigo.

Lançado no Brasil em 22 de janeiro, “No Other Choice” (“A Única Saída”, título traduzido em português) é mais uma obra sul-coreana que traz consigo diversas lições sociais. Vencedor do International People’s Choice Award e com sessões esgotadas no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2025, o filme, baseado no romance The Axe (1997), escrito pelo autor norte-americano Donald E. Westlake, trata da precarização do trabalho, da desumanização no sistema capitalista em tom de sátira, do desemprego e de seus efeitos sobre a identidade pessoal.

A estrutura narrativa é semelhante à do filme vencedor do OscarParasita”, único longa sul-coreano premiado pela Academia em 2020. Aqui, também acompanhamos uma família, mas, ao contrário da obra de Bong Joon-ho, trata-se de um núcleo inicialmente estável, com boas condições financeiras, cuja solidez é implodida por um acontecimento que passa a motivar tanto a violência quanto a comédia da trama: a demissão do provedor.

Ao contrário de outras obras de vingança, inclusive as do próprio Park Chan-wook, diretor da chamada Trilogia da Vingança (“Mr. Vingança”, “Oldboy” e “Lady Vingança”), o protagonista não é um sujeito determinado, nem moralmente coerente em sua violência. Trata-se de um homem inseguro e frequentemente patético, uma imagem inversa àquela sugerida pelo trailer, que aparentava apresentar um serial killer frio, sem qualquer empatia por seus concorrentes.

O protagonista é Man-su, um gerente veterano e premiado na indústria de papel, que leva uma vida confortável ao lado da esposa, Mi-ri, do enteado adolescente, da filha prodígio do violoncelo e de dois golden retrievers. Após a empresa à qual dedicou toda a sua vida, a Solar Paper, ser adquirida por uma corporação americana, ele é demitido junto com muitos outros funcionários.

Devastado, ele promete a si mesmo que estará empregado em três meses. Com o setor de papel em crise e um mercado de trabalho saturado, passa os treze meses seguintes desempregado, fazendo bicos de baixa remuneração enquanto sua família enfrenta dificuldades financeiras. Com isso, a família é obrigada a reduzir gastos, devolvem os cães aos avós, diminuem o consumo de carne e cancelam assinaturas e as aulas de tênis da esposa.

Ao mesmo tempo, a filha prodígio continua com as aulas de violoncelo, embora a família seja orientada a buscar profissionais ainda mais qualificados para lidar com o talento da menina, o qual se revela estreitamente ligado ao seu bem-estar familiar.

A situação se agrava a ponto de o dinheiro recebido na rescisão já não ser suficiente para sustentar a casa. A execução hipotecária é marcada para três meses. Diante disso, a família decide colocar o imóvel à venda, a casa de infância de Man-su, um de seus maiores motivos de orgulho.

A dinâmica familiar sofreria ainda outra mudança, já que a esposa, Mi-ri, começa a trabalhar como assistente dental, uma situação que perturbaria o esposo ao longo do tempo, fazendo com que ele passe a se enxergar cada vez menor na relação, intensificando futuros ciúmes e frustrações pessoais.

Tentativa de reinserção no mercado fracassada

Após passar por uma entrevista vexatória, marcada por seu nervosismo, Man-su recebe a indicação de um antigo subordinado sobre uma empresa à qual poderia tentar se juntar: a Moon Paper, que havia entrado com força no mercado japonês. Contudo, sua interação com essa empresa termina em humilhação, com o personagem literalmente de joelhos na porta do banheiro, implorando para ser aceito.

Nessa experiência, Man-su percebe que precisará de outras estratégias para voltar ao mercado de trabalho em uma corrida contra o tempo e que simplesmente melhorar o currículo não o colocaria em vantagem em um setor em retração. Inicialmente, ele passa a mirar o gerente Seon-chul, que havia participado de sua humilhação, com a intenção de eliminá-lo e tomar sua vaga. No entanto, quando está prestes a agir, percebe que, mesmo com a vaga perfeita aberta, não haveria garantia de ocupá-la, já que outros concorrentes mais qualificados também disputariam a posição.

Como solução, resolve publicar um anúncio falso de emprego em uma revista do setor de papel, a mesma que o premiara como Homem do Ano. Desse modo, consegue identificar alvos com potencial semelhante ou superior ao seu, os quais poderiam ter mais chances do que ele em uma concorrência direta.

Impacto do trabalho na identidade pessoal

Com os currículos em mãos, Man-su começa a planejar seus movimentos e ir atrás de pessoas com mais qualificações do que ele. Um dos alvos é Goo Beom-mo, um desempregado alcoólatra, mentalmente instável e com uma relação perturbada com a esposa, que se torna um dos principais focos cômicos do filme.

Após descobrir o endereço do rival por meio da empresa falsa, Man-su passa a espionar Beom-mo, levando consigo uma pistola norte-coreana da coleção de seu pai. Nesse meio-tempo, descobre que a esposa da vítima estava traindo o marido e resolve voltar em outro momento, quando Beom-mo estivesse em casa, passando a seguir o desempregado de modo cada vez mais insano e paranoico, obcecado com a ideia de retornar ao mercado de trabalho.

Em outro momento, em uma das cenas que ilustram bem o quanto o apego à indústria do trabalho pode ser fatal para a saúde mental, Beom-mo passa a teorizar os possíveis meios por meio dos quais a empresa poderia tê-lo contatado. Ele pega o celular no meio de uma trilha, enquanto conversava com sua esposa — momento em que Man-su o seguia —, verifica que não há notificações e sai correndo para casa, temendo ter perdido alguma carta ou mensagem – indicando como o trabalho se confunde com sua própria identidade e sanidade, atrasando os planos de Man-su.

Enquanto a esposa tenta acompanhá-lo, Man-su sofre uma picada de cobra e acaba sendo ajudado por A-ra, esposa de Beom-mo, que se mostra insatisfeita no casamento.

Mais para frente, durante mais uma rotina de observação no local, o protagonista nota que, mais uma vez, Beom-mo estava sendo traído e não se encontrava presente em sua casa. Ao notar a ausência de seu alvo, sai do local com o carro, mas percebe o retorno do rival enquanto ia embora. Desesperado, tenta impedir, de todas as formas, que Beom-mo presencie o adultério. A cena é, no mínimo, curiosa, pois o próprio protagonista demonstra, ao longo do filme, comportamentos marcados por ciúmes e suspeitas de traição por parte de Mi-ri e do dentista a quem ela auxilia.

Ao estacionar, Man-su pega o telefone e liga para Beom-mo, avisando que ele, finalmente, teria uma entrevista no mesmo dia, mas que, se não saísse naquele instante de casa, o encontro não seria possível, buscando apressar sua primeira vítima. Entusiasmado com a notícia, Beom-mo desliga o aparelho e sobe para se vestir e sair. Contudo, acaba flagrando a esposa em traição.

Por mais cômica que a cena possa parecer, assim como outras envolvendo o casal problemático, Man-su ainda demonstra aqui um resquício de humanidade. Trata-se de um traço que vai se dissolvendo ao longo dos acontecimentos, em paralelo ao agravamento de sua dor de dente, que funciona como um símbolo de seu desconforto interno e de sua deterioração moral.

Primeira vítima

Emocionalmente abalado, Beom-mo tem sua casa finalmente invadida por Man-su. Buscando algum conforto no volume alto da música, os dois se encontram, enfim, cara a cara. Beom-mo, porém, suspeita que Man-su seja o amante de sua esposa, o que introduz, mais uma vez, um alívio cômico à cena.

Enquanto os dois interagem, a esposa de Beom-mo retorna para casa mais cedo do que o habitual. Ao notar a variação incomum no som da música, decide verificar o que está acontecendo. Nesse momento, depara-se com Man-su apontando uma arma para o marido.

Tendo noção da gravidade da situação, escolhe, diante de todos os objetos possíveis que poderiam neutralizar Man-su, o prêmio PulpMan do Ano, o mesmo do qual o protagonista se orgulha.

Durante a interação entre ambos, que ocorre enquanto sua esposa escuta a conversa, o protagonista passa a dar conselhos sobre como lidar com aquela situação. Ele sugere que Beom-mo ouça mais sua esposa, como quando ela propôs a criação de um café musical, uma ideia que Man-su havia escutado escondido na mata. Também menciona a possibilidade de vender a casa, algo que ele próprio se recusa a fazer, ou até mesmo mudar de área. Beom-mo, porém, afirma ser um engenheiro especialista e se recusa a migrar para outro setor, justificando sua resistência pelas dores constantes nas costas. Curiosamente, sua esposa concorda com praticamente todas as sugestões dadas por Man-su.

Aqui, é possível relacionar a cena ao fenômeno que economistas chamam de mismatch ocupacional, quando há um desencaixe entre a formação do profissional e as vagas disponíveis no mercado. No Brasil, os chamados “sobre-educados” somam cerca de 5,4 milhões de pessoas com ensino superior completo que não conseguem trabalho compatível com sua qualificação, segundo levantamento da consultoria IDados, divulgado pela Central dos Sindicatos Brasileiros em janeiro de 2023. [1].

Ao mesmo tempo, na Coreia do Sul, algo parecido ocorre. Apesar de o país ter uma população altamente escolarizada, o mercado não consegue absorver todos os graduados, o que engloba áreas como a engenharia, campo de atuação de Beom-mo. Segundo estudos do Banco da Coreia, cerca de 30% dos trabalhadores sul-coreanos estão em empregos para os quais são superqualificados. [2].

Retornando à cena, após o embate entre Man-su, Beom-mo e sua parceira, o protagonista perde sua arma e tenta fugir. Contudo, em meio ao confronto, a esposa assassina Beom-mo e afirma, em suas últimas palavras a ele, que o verdadeiro problema nunca foi o desemprego, mas a forma como ele lidava com tudo isso, o que reflete, mais uma vez, o papel do trabalho na identidade pessoal em um cenário trágico.

Segunda vítima

Após escapar da morte, Man-su parte para seu segundo concorrente, Si-jo, um vendedor de sapatos e pai de uma jovem filha. Diferentemente da vítima anterior, cuja instabilidade emocional e alcoolismo serviam como elemento cômico e dramático ao mesmo tempo, Si-jo, por sua vez, é retratado como um homem comum, que amava muito seu trabalho e era dedicado à família, assim como o próprio Man-su antes de sua demissão.

Como em outras ocasiões, o protagonista estabelece uma relação com sua futura vítima antes de agir. Ele escuta suas histórias e suas paixões e reconhece, nele, o mesmo orgulho profissional que um dia definira sua própria identidade. Ainda assim, decide seguir com o plano. Ao simular uma falha em seu carro em uma estrada isolada, induz Si-jo a parar para ajudá-lo, uma vez que Man-su havia visto em seu currículo que ele era reparador de máquinas. Nesse momento, pouco antes da chegada de Si-jo, Man-su repete para si mesmo que “não há outra escolha” – frase recorrente ao longo do filme e que remete à fala de um dos corporativistas americanos responsáveis pela aquisição de sua antiga companhia.

O gesto de solidariedade torna-se justamente o fator que permite a execução do rival. Man-su, ainda receoso, tampa os olhos de Si-jo antes de atirar, o que reforça o vínculo que havia estabelecido após escutar sua história.

Desconfiança familiar

Após o assassinato, Man-su tenta se livrar do corpo, mas falha até mesmo em sua execução prática de violência. Incapaz de desmembrar o cadáver, opta por enterrá-lo no próprio jardim de sua casa, o mesmo espaço que simbolizava sua estabilidade, sua conquista e sua identidade como provedor.

O mesmo lar, que antes representava segurança e pertencimento, passa a ser sustentado, literalmente, pela morte de outro trabalhador.

Ao mesmo tempo, sua família começa a perceber mudanças em seu comportamento. Seu enteado, já afetado pela deterioração do ambiente familiar, passa a cometer pequenos crimes ao lado de um amigo, como o roubo de celulares. Ambos são levados pela polícia, mas Man-su e Mi-ri descobrem que o pai do amigo utilizava o próprio estabelecimento para encontros extraconjugais e passam a chantageá-lo, forçando-o a assumir que o próprio filho era o único responsável pelo crime, livrando Si-one de maiores consequências.

Ainda assim, o episódio deixa marcas profundas. O enteado passa a desconfiar do padrasto e chega a testemunhá-lo tentando desmembrar o corpo de Si-jo com uma motosserra, uma cena que ele jamais conseguiria compreender plenamente. A esposa de Man-su, por sua vez, também começa a perceber sinais de que algo estava profundamente errado, visto que Man-su dizia estar indo para entrevistas, mas voltava para casa machucado, como no episódio da picada de cobra, e cada vez mais distante, o que também reforçava suas suspeitas de traição.

Aceitação de suas ações

O ponto mais simbólico de sua transformação ocorre durante sua interação com Seon-chul, o gerente cuja humilhação havia marcado profundamente sua queda. Após embriagá-lo, Man-su volta a sentir a forte dor de dente que o acompanhava desde o início do filme – um incômodo que ele sempre ignorou, como se reconhecer a dor fosse também reconhecer sua própria fragilidade.

Nesse momento, ele toma uma decisão extrema e arranca o próprio dente com as mãos. A cena é desconfortável, não apenas pela violência física, mas pelo que ela representa. É como se, ao eliminar a dor, Man-su estivesse também eliminando tudo aquilo que ainda o prendia a uma versão anterior de si mesmo, uma aceitação de que, realmente, para ele não havia outra escolha.

Logo em seguida, ele assassina Seon-chul, sufocando-o e encenando sua morte como um acidente. Não há mais hesitação, não há mais conflito visível. O homem que antes demonstrava dúvida agora age com frieza. Durante o momento da execução de Seon-chul, Mi-ri liga para Man-su por chamada de vídeo. Momentos antes, ela havia descoberto o corpo de Si-jo no jardim.

Durante a ligação, ele diz que não pode ligar a câmera, mas tenta acalmá-la ao afirmar que estava visitando um amigo da Moon Paper. Já suspeitando das outras ações do marido, Mi-ri diz que, seja lá o que ele esteja fazendo, ele não deveria carregar aquele fardo sozinho.

É nesse ponto que a frase que dá nome ao filme em inglês, “No Other Choice”, deixa de soar como um desabafo e passa a funcionar como uma convicção. Mais do que uma justificativa, ela revela o momento em que Man-su passa a aceitar plenamente o caminho que escolheu seguir.

Final feliz?

Com a morte de seus concorrentes, Man-su finalmente consegue o emprego na Moon Paper. Sua família mantém a casa. Os cachorros retornam. Sua filha talentosa volta a tocar violoncelo.

Externamente, a ordem foi restaurada. Mas o filme deixa claro que essa restauração é ilusória.

Na cena final, Man-su é mostrado trabalhando sozinho em uma fábrica altamente automatizada, cercado por máquinas que operam quase sem intervenção humana. O ambiente não precisa de luzes acesas e é desprovido de qualquer traço de pertencimento, uma situação que contrasta com seu antigo cargo de gerência. Antes, ele precisava alertar seus funcionários para colocarem seus capacetes e repreender aqueles que fumavam do lado externo da empresa. Agora, já não é mais possível.

Em uma das cenas mais simbólicas do filme, ele bate no rolo com uma vareta ao mesmo tempo em que um braço robótico faz o mesmo movimento. Ou seja, seu trabalho foi praticamente substituído. Sua função já não era mais cuidar de pessoas, mas de máquinas que sequer precisam de supervisão constante.

Portanto, o homem que destruiu outros trabalhadores para recuperar seu lugar descobre, tarde demais, que o próprio sistema já não precisa mais dele.

Referências

[1] Sobre-educados: Brasil tem 5,4 milhões de formados trabalhando fora da área. Acesse aqui.

[2] O lado obscuro da Coreia do Sul, descrita como 'modelo' a ser seguido pelo Brasil. Acesse aqui

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