23 Fevereiro 2026
A família da vítima espera que o veredicto no crime político mais grave da última década ajude a acabar com a impunidade no país.
A reportagem é de Naiara Galarraga Gortázar, publicada por El País, 22-02-2026.
Na sala de estar da família, tudo evoca Marielle Franco, a vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março de 2018, aos 38 anos, supostamente a mando de dois irmãos com um passado político obscuro, ligados à defesa de grupos paramilitares. Como um memorial, a imagem da política de esquerda que quebrou todos os estereótipos — negra, da favela, ativista de direitos humanos, mãe e lésbica — está pendurada nas paredes em todos os formatos imagináveis. Lá estão seus cachos, seu sorriso e os slogans da vítima do assassinato político mais significativo do Brasil na última década. É o lugar escolhido por sua mãe, a advogada Marinete Silva, e sua irmã, a ministra Anielle Franco, para conversar com o EL PAÍS sobre o iminente julgamento dos supostos mandantes do crime.
É terça-feira de Carnaval. Lá fora, o Rio é um formigueiro de atividade. A cidade vibra durante os dias mais esperados do ano. Um coquetel de música, transgressão, sensualidade e brilho toma conta das ruas.
Por trás de sua bela fachada de festas e fantasia, o Rio de Janeiro esconde um esgoto fétido que o assassinato de Marielle Franco expõe de forma contundente: a metástase do crime organizado dentro das instituições. “O caso Marielle abriu as comportas, e de lá sai o pior que se pode imaginar”, observa Franco, Ministra da Igualdade Racial no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “Representa um ataque à democracia quando mulheres chegam a posições de poder”, enfatiza.
Os irmãos Domingos Brazão e João Francisco Chiquinho Brazão, políticos influentes do Rio de Janeiro — um deputado federal (que já perdeu o cargo) e o outro membro do Tribunal de Contas — irão a julgamento na próxima semana, juntamente com o delegado de polícia Rivaldo Barbosa, que, segundo a promotoria, estava em sua folha de pagamento para garantir que nunca fossem pegos. Eles não contavam com a traição do assassino de aluguel que contrataram. Os irmãos Brazão alegam inocência, afirmando serem vítimas de uma conspiração. Assim como Barbosa, eles afirmam que não há provas contra eles: apenas o depoimento de um assassino.
O julgamento, que será realizado no Supremo Tribunal Federal em Brasília, referente à imunidade parlamentar da família Brazão, marca mais um passo importante no caso, após a condenação, em 2024, dos autores do crime, dois ex-policiais militares. Em 14 de março de 2018, esses dois ex-policiais posicionaram seu carro ao lado do da vereadora e, enquanto ambos os veículos trafegavam pelo centro do Rio, o atirador — um policial conhecido por sua pontaria, um assassino de aluguel, mas sem antecedentes criminais — abriu fogo com um fuzil. Ele a atingiu quatro vezes na cabeça e também matou seu motorista, Anderson Gomes. Apenas a assessora de imprensa sobreviveu.
Desde o início, a família Franco se uniu em torno da família Gomes e, juntos, transformaram seu luto em luta. A viúva de Marielle, a arquiteta Monica Benicio, permanece discreta mesmo após ter conquistado uma cadeira na Câmara Municipal em 2020 pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o mesmo partido de sua esposa.
Um dos irmãos Brazão estava no radar dos investigadores desde o início. Ele era uma figura conhecida, com carreira política e ligações suspeitas com grupos paramilitares — chamados milícias no Brasil — que controlam bairros inteiros, onde se dedicam à especulação imobiliária e à extorsão.
O verdadeiro choque para a família Franco foi descobrir que, segundo a investigação, Barbosa estava entre os mentores do crime. No dia do assassinato, ele era o chefe da Polícia Civil do Rio. “Foi ele quem nos cumprimentou, quem abraçou minha mãe e meu pai, quem nos disse que, para ele, solucionar o caso Marielle era uma questão de honra”, explica o ministro.
A própria vítima o conhecia bem, confiava nele como funcionário público e o considerava uma figura-chave na polícia. A vereadora e ativista costumava procurá-lo para denunciar violações de direitos humanos em favelas como a Maré, onde as irmãs cresceram.
É difícil descrever o desamparo da família diante dessa colossal traição, que descobriram com espanto quando o trio de acusados foi preso em 2024. "Infelizmente, é um retrato cruel do sistema de segurança pública brasileiro, dessas relações criminosas entre as milícias e a polícia", afirma o ministro.
A promotoria acusa o comissário de polícia de participação direta no planejamento do crime enquanto chefiava a unidade de homicídios. Segundo o promotor, ele aconselhou a família Brazão a não matá-la a caminho da prefeitura para minimizar as repercussões. Ele também teria se encarregado de apagar quaisquer vestígios e obstruir a investigação.
O fato de os assassinos estarem cumprindo longas penas de prisão e de os supostos mentores do crime estarem prestes a ser julgados é excepcional. Porque, apesar de todas as suas repercussões, o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro foi apenas mais um exemplo. Nas últimas duas décadas, a violência política deixou um rastro de 700 mortos no Brasil, incluindo políticos e ativistas, segundo um estudo recente da Universidade de São Paulo e do Centro Brasileiro de Análises e Planejamento (Cebrap). Muitas dessas mortes permanecem impunes e esquecidas.
Chiquinho Brazão conheceu Marielle Franco quando cumpria seu quarto mandato como vereador e ela foi eleita vereadora em 2016, após anos como assessora na Prefeitura. A acusação alega que os irmãos decidiram eliminá-la devido à sua firme oposição aos planos do então vereador de legalizar títulos de propriedade para expandir o território controlado e explorado por grupos paramilitares.
Para a Ministra Franco, o crime está enraizado, acima de tudo, em séculos de racismo, classismo e sexismo. “Não importa o quão longe cheguemos, não importa o que conquistemos, não importa qual desculpa usem: há algo que nossa sociedade aceitou passivamente durante anos, e isso é que os corpos negros são descartáveis, rejeitados, desumanizados”, afirma. Marielle Franco surgiu como um relâmpago em um espaço monopolizado por políticos brancos veteranos que faziam o que bem entendiam.
O ministro recorda com pesar a conclusão a que, segundo o resumo, chegaram os acusados ao orquestrar o crime. "Disseram que era mais fácil assassinar Mari [como é conhecida na família] do que um homem branco com guarda-costas. Isso é muito revelador."
Mas a previsão da família Brazão falhou espetacularmente, porque o assassinato daquela vereadora novata, praticamente desconhecida fora do Rio, atingiu um ponto sensível em um momento político muito particular. Marielle Franco, que personificava tudo o que os reacionários detestavam, rapidamente se tornou um símbolo poderoso que conseguiu unir a esquerda brasileira, abalada pela prisão de Lula e enfrentando a ascensão do movimento de Bolsonaro e da extrema-direita.
Nos anos seguintes, os progressistas clamavam: Quem matou Marielle? Quem ordenou seu assassinato? Investigadores da Defensoria Pública, do Ministério Público e da Polícia Civil desvendaram o mistério graças a uma denúncia anônima que identificou o homem que puxou o gatilho, Ronnie Lessa, que, como poucos, personifica a relação tóxica entre as forças de segurança e o submundo do Rio de Janeiro. Após cinco anos na prisão, o pistoleiro decidiu falar. Confessou o plano em troca da redução pela metade de sua pena de quase seis décadas.
A família de Marielle, que nunca deixou de exigir justiça, está satisfeita por políticos que acumularam tanto poder, ocupando importantes cargos públicos, finalmente estarem sendo responsabilizados após tantos anos de impunidade. Mas a ministra se sente desconfortável com a ideia de que isso signifique que a justiça foi feita para sua irmã assassinada. "Justiça seria feita se Marielle estivesse viva", responde ela. Sua mãe também não acredita que o julgamento da próxima semana trará um desfecho para o caso. "Ainda não, porque ainda temos o julgamento com júri aqui no Rio para o homem que a vigiava e é acusado de se desfazer da arma."
Dona Marinete, como todos a conhecem, é uma advogada aposentada e a matriarca desta família combativa que tem a política em seu DNA há gerações. "Eu sempre achei que chegaríamos a quem ordenou isso, porque certamente não foi uma questão pessoal, não foi matar alguém aleatoriamente. Havia alguém por trás disso", diz ela.
Ambas enfatizam as enormes dificuldades enfrentadas por mulheres como elas — mulheres negras criadas em favelas — e o imenso esforço por trás de cada vitória. É por isso que criaram o Instituto Marielle Franco e falam com orgulho de uma nova geração que, inspirada pela vereadora, abraçou sua causa e a defende nas instituições e nas ruas.
Anielle, que era professora de inglês na época do crime, após uma carreira no handebol, aceitou o convite de Lula para se tornar ministra. Nesse cargo, ela garantiu a renovação das bolsas de estudo universitárias para estudantes de origem desfavorecida e assegurou a concessão de títulos de propriedade para mais terras quilombolas — aquelas pertencentes a ex-escravos — que nunca haviam sido legalizadas. Filiada ao Partido dos Trabalhadores, a decisão da ministra sobre se candidatará às próximas eleições em outubro depende de uma conversa com o presidente Lula.
Pessoalmente, ela aguarda outro julgamento: o de Silvio Almeida, filósofo e intelectual de destaque no movimento negro brasileiro, que chefiava o Ministério dos Direitos Humanos. Lula o exonerou em 2024, quando surgiram denúncias de assédio sexual contra diversas mulheres, incluindo Anielle, sua colega de gabinete. “O fato de a Polícia Federal tê-lo indiciado formalmente é uma grande vitória que recebeu pouca atenção”, afirma. “Estou aguardando os próximos acontecimentos, mas tenho certeza de que nem este nem nenhum outro caso de assédio deve ficar impune”, declara Anielle.
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