13 Janeiro 2026
"E para além das polêmicas. Porque aqueles que ainda querem reduzir as questões de gênero a uma batalha entre facções — a favor ou contra o mundo trans — mostram não compreender o drama vivido por esses garotos, por essas garotas e por suas famílias. Vamos ouvi-los antes de julgar", escreve Luciano Moia, jornalista italiano, em artigo publicado por Avvenire, 11-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A questão da identidade de gênero na adolescência desafia famílias, instituições, comunidades educacionais e religiosas com uma força que não permite simplificações. É um terreno complexo, permeado por experiências íntimas, percursos clínicos, questionamentos éticos e jurídicos, que exigem um olhar capaz de combinar respeito, escuta e prudência. As palavras do documento final da Assembleia Sinodal da Igreja Italiana, aliás, apontam claramente nessa direção: "As Igrejas locais, superando a atitude discriminatória por vezes difundida nos círculos eclesiais e na sociedade, devem se empenhar para promover o reconhecimento e o acompanhamento das pessoas homoafetivas e transgênero, bem como de seus pais, que já pertencem à comunidade cristã". É com essa atitude, desvinculada de contraposições ideológicas e atenta à concretude das vidas, que pretendemos retomar o debate suscitado pelo caso do rapaz trans de treze anos de La Spezia, cuja certidão de nascimento foi retificada pelo tribunal, reconhecendo o nome social e a identidade de gênero.
Já tratamos do caso no Avvenire e não pretendemos aprofundar os detalhes aqui, dos quais, aliás, muito pouco se sabe. Nenhum de nós leu os relatórios dos especialistas — um vasto conjunto de documentos — que convenceram os juízes a tomar tal decisão. Ninguém acompanhou a longa e certamente atormentada jornada de dois pais que se viram diante de uma situação não apenas delicada, difícil e surpreendente, mas também crucial para o futuro de uma filha que não se reconhece em seu próprio corpo e pede apoio.
Para entender um pouco mais, pedimos a ajuda de duas mães com filhos LGBT+ que aceitaram compartilhar suas histórias. Elas pertencem a duas associações que, ao se depararem com a questão da identidade de gênero, adotam abordagens diferentes, assim como diferentes acabaram sendo os resultados a que chegaram seus filhos. Uma delas trilhou com serenidade o caminho da afirmação de gênero e agora é uma adolescente que vive sua vida com mais serenidade. A outra, após testes e questionamentos cuja natureza dramática é impossível resumir em poucas linhas, decidiu desistir, ou seja, aceitou reconhecer-se em seu sexo biológico. Não se trata de estabelecer quem ganhou e quem perdeu. Não estamos em uma competição esportiva. Nem se trata de decidir quem se saiu bem e quem se saiu mal. Porque, ouvindo as duas mães, com o devido respeito por toda situação familiar complexa, é fácil se convencer de que existe um limite além do qual quem olha de fora não têm o direito de ir.
A mãe, que faz parte da diretoria da associação GenerazioneD, prefere manter o anonimato. Ela não nega que pessoas autenticamente trans existem, mas pede prudência e respeito antes de embarcar em qualquer processo de afirmação de gênero. Ela ressalta, por exemplo, que não existe nenhum teste diagnóstico para determinar a disforia de gênero e que tudo depende da percepção da pessoa. E quão confiável pode ser a percepção de uma menina de 10 ou 12 anos? Como explicar a um pré-adolescente que sente desconforto com seu sexo biológico e gostaria de iniciar a transição, questões complexas como a sexualidade e a fertilidade? Será que realmente pode entender que, para ele e para ela, se a mudança desejada for iniciada, tudo mudaria radicalmente? A mãe da GenerazioneD cita um estudo alemão da primavera passada segundo o qual, com base em uma grande amostra, mais de 90% dos casos de disforia resultam em uma reconciliação com o próprio corpo. Daí o pedido aos especialistas para que não pressionem demais, para que deixem essas crianças crescerem sem intervenções invasivas e para que não validem imediatamente os pedidos dos filhos sem ter buscado ajuda, investigado, entendido e verificado.
A palavra de ordem para dois pais que lidam com a incongruência de gênero de seu filho deveria ser uma só: prudência. Naturalmente, faz questão de enfatizar, oferecer máxima compreensão e total proximidade pelas dificuldades a que são chamados os dois pais em um mundo científico como este em que estamos imersos, onde, segundo ela, a pressão pela afirmação de gênero é prevalente.
É difícil encontrar psicólogos, ou mesmo endocrinologistas ou pediatras, dispostos a desacelerar a corrida em direção à transição com o objetivo de enxergar as coisas com clareza. É por isso que, segundo os pais que participam do GenerazioneD, a pressão do contágio social é tão forte. Em vez disso, seria necessário encontrar profissionais dispostos a aprofundar pelo tempo que for necessário, sem negar de antemão que a desistência pode ser uma opção real e concreta. Muitas vezes, ela aponta, existem outras problemáticas que precisam ser trazidas à tona em meio ao desconforto. Mas é um empenho que exige muita dedicação. Como o que ela e o marido assumiram para ajudar a filha a entender o que estava acontecendo. Anos complexos, silêncios e incompreensões, com todo o mundo exterior — ela lembra — dizendo que você está errando. No entanto, eles estavam convencidos do contrário e agora dizem estar satisfeitos por não terem cedido às pressões. Agora, aos 19 anos, sua filha resolveu suas questões de identidade, está na universidade e mostra ser mais adulta e madura. A transição ficou para trás.
Para Giovanna, mãe de Chanel e membro da associação Con-Te-stare de Pádua, a situação foi diferente. Para ela e o marido, a descoberta da incongruência de gênero do filho foi quase natural, pois desde pequeno ele demonstrava interesse por brinquedos e roupas de meninas. Uma clara preferência, cores e símbolos bem definidos de uma identidade de gênero diferente do seu sexo biológico, que se manteve inalterada nos anos seguintes e que, no verão entre o ensino fundamental e o ensino médio, culminou em uma revelação que era, ao mesmo tempo, esperada e temida. Uma declaração que, embora não tenha surpreendido, confrontou os pais com a necessidade de compreender, aprofundar e buscar ajudas para acompanhar o filho da maneira mais adequada. Uma busca que culminou com o encontro com Roberta Rosin, psicóloga e psicoterapeuta com vasta experiência no universo trans e membro do Conselho Diretor do ONIG (Observatório Nacional de Identidade de Gênero).
Rosin propiciou uma contribuição determinante para ajudar Chanel a encontrar clareza em si mesma e, ao mesmo tempo, para acompanhar seus pais na busca de uma nova compreensão sobre uma possibilidade, aquela do percurso de afirmação de gênero (transição de gênero), um caminho sobre o qual quase nenhum pai nasce com competências adequadas. Um percurso aparentemente linear, mas que, como relata a mãe, Giovanna, não poupou Chanel de momentos amargos, tanto na relação com os colegas de escola quanto com a comunidade paroquial da Diocese de Pádua, onde a família reside. Em palavras, muitas expressões de proximidade e solidariedade, mas, na realidade, uma tomada de distância que muitas vezes deixou a família numa condição de solidão.
Mesmo assim, os pais perseveraram, nunca deixando de dar apoio e incentivo a Chanel, especialmente nos últimos meses, enquanto ela atravessa os anos da adolescência com uma identidade trans da qual, dia após dia, se diz convicta. Quando conversamos com Giovanna sobre o risco de que a convicção de Chanel possa ser influenciada por aquele contágio social frequentemente citado como causa de tantas supostas variações de gênero, ela nega veementemente: "Não se pode suportar tudo o que Chanel suportou nos últimos anos, e sobre o qual muitas vezes se calou, se a identidade trans for motivada unicamente pelo desejo de seguir uma tendência ou imitar algum influenciador. Independentemente do que se costuma dizer, o estigma contra os garotos trans ainda é tão forte que só pode ser aceito se estivermos diante de uma necessidade real e profunda."
Histórias diferentes, desfechos diferentes, a mesma preocupação e o mesmo empenho dos pais em garantir um futuro de serenidade para seus filhos, para além do dilema da transição ou da desistência. E para além das polêmicas. Porque aqueles que ainda querem reduzir as questões de gênero a uma batalha entre facções — a favor ou contra o mundo trans — mostram não compreender o drama vivido por esses garotos, por essas garotas e por suas famílias. Vamos ouvi-los antes de julgar.
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