29 Novembro 2025
A fast fashion está entupindo a coleta destinada aos mais vulneráveis, deixando-os sem roupas. Esse é o alerta feito por aqueles envolvidos na coleta e triagem de roupas usadas: o consumo compulsivo associado a esse mercado está enchendo os contêineres de coleta com roupas que não servem para nada. Não aquecem, e, acima de tudo, não são reutilizáveis, já desgastadas mesmo após pouco uso, porque os tecidos são de baixíssima qualidade. É literalmente uma avalanche de vestidinhos, camisetas, jaquetas e calças que não podem ser reutilizados por quem realmente precisa. E, portanto, precisam ser descartados.
A reportagem é de Alessia Arcolaci, publicada por Domani, 26-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
A primeira a denunciar o problema foi a associação La Porticina, em Bolonha, mas essa situação afeta todo o país, de norte a sul. A Cáritas confirma isso, tendo suspendido as coletas em diversos municípios devido a esse excesso de roupas inúteis. "Em nossas comunidades, a necessidade de roupas continua sendo real e cotidiana. Há indivíduos e famílias para quem uma peça de roupa bem conservada pode realmente fazer a diferença", explica o padre Marco Pagniello, diretor da Caritas Italiana. "Se muitas organizações da Caritas estão reduzindo a coleta de roupas, é principalmente para proteger a dignidade das pessoas que atendem, mas também porque o que recebemos, muitas vezes, não pode ser reutilizado. Além disso, não podemos ignorar que uma parte significativa das roupas em circulação provém de uma cadeia de produção que não protege os trabalhadores e o meio ambiente”.
Os dados mostram que 4.000 toneladas de tecidos são largadas nos postos de coleta todos os anos, e apenas 20% desse material é reutilizável ou adequado para reaproveitamento. O Observatório Ipsos relata que dois em cada três italianos jogaram roupas fora no último ano, com uma média de 7,6 peças por pessoa. Essa é uma taxa de reposição que a cadeia das roupas usadas não estava projetada para suportar, especialmente hoje, quando uma quantidade crescente de roupas que podem ser definidas como "descartáveis" acaba nos postos de coleta.
"Nos últimos anos, a combinação entre fast fashion e compras online mudou completamente o ciclo de vida das roupas", explica Silvia Bollani, responsável pelos testes comparativos e pesquisas da Altroconsumo. "Muitos produtos chegam aos centros de coleta após pouquíssimos usos, muitas vezes já deteriorados ou produzidos com materiais de qualidade demasiado baixa para serem reciclados. São roupas que nascem sem valor e acabam não valendo nada também ao final de seu curtíssimo uso." Haveria uma solução. Se a etiqueta dissesse: 'Se você não usar pelo menos cinquenta vezes, não é sustentável'", continua Bollani, "muitos consumidores se conscientizariam da realidade. Hoje, porém, a ideia de que uma peça de roupa vale apenas o seu preço — e, portanto, muito pouco — leva as pessoas a usá-la o mínimo possível e descartá-la rapidamente." A fast fashion, com suas coleções em constante troca, permite sempre encontrar algo novo por apenas alguns euros. "Isso cria uma dinâmica quase compulsiva. A doação deveria ser a etapa final de um objeto que ainda tem algum valor, e não o descarte gratuito do que não vale mais nada", explica Bollani.
O descarte do consumismo
"É paradoxal pensar que uma peça de roupa destinada aos mais frágeis possa vir de um sistema que alimenta justamente essa mesma fragilidade", continua o Padre Marco Pagniello. "A lógica das compras fáceis e do consumo rápido produz roupas que não duram muito e raramente encontram uma segunda vida. É por isso que estamos pedindo uma mudança de olhar. Antes de doar, vamos nos perguntar como compramos, que valor atribuímos às coisas, que responsabilidade estamos dispostos a assumir. Doar sempre significa tentar colocar o outro no centro de nossa atenção. É o estilo que, juntos, mesmo por meio de escolhas como essa, queremos preservar”.
Uma cadeia de produção criada para valorizar itens usados acaba no final gerenciando resíduos. Roupas inutilizáveis são enviados para a recuperação do material ou, em última instância, incinerados em unidades de recuperação energética. Mas, à medida que o material não triado aumenta, cresce também o risco de que o que poderia ter uma segunda vida acabe diretamente nos aterros sanitários.
"Se muito material de baixa qualidade chega, o sistema fica sobrecarregado", acrescenta. Mas como tudo isso é possível quando muitas empresas de moda, diante das preocupações dos consumidores, começaram a se apresentar como sustentáveis? Na verdade, não são. "Grande parte disso é greenwashing", continua Bollani. "A maioria das empresas não cria peças que realmente duram, nem que são recicláveis ao final de sua vida útil. Para identificar o que não é greenwashing, é preciso procurar certificações e selos confiáveis emitidos por entidades terceiras."
A falta de critérios claros para definir o que é sustentável deixa às marcas uma enorme liberdade narrativa. No entanto, existe um sistema regulatório europeu que está avançando, mas não o suficiente.
"Precisamos de regras mais rigorosas sobre durabilidade, rastreabilidade e rotulagem de materiais", afirma Bollani. "E ainda falta o passo final para implementar a responsabilidade estendida do produtor (Epr), que obrigaria as marcas a cobrir os custos de descarte dos produtos que colocam no mercado."
Sem uma profunda revisão das lógicas industriais, tudo isso continuará a descarregar no meio ambiente e nas pessoas um custo que nenhuma peça de roupa de 9,90 euros jamais poderá compensar.
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