29 Novembro 2025
A Procuradoria de Milão continua sua investigação sobre atiradores italianos "de fim de semana" que, entre 1993 e 1995, estavam dispostos a pagar preços exorbitantes por um safari em Sarajevo, sitiada por tropas sérvias.
A reportagem é de Sabato Angieri e Rocco Vanzana, publicada por Il manifesto, 26-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
As presas nas quais atirar? Crianças (as mais caras, de acordo com a tabela de preços), mulheres e homens. Os idosos eram cortesia; podiam ser mortos de graça.
Para descobrir a identidade dos responsáveis por essa macabra rede de caça, Adriano Sofri comparecerá perante o procurador Alessandro Gobbis na manhã de sexta-feira, acompanhado de seu advogado Nicola Brigida e do ex-magistrado Guido Salvini. Os investigadores convocaram o ex-líder do Lotta Continua para buscar mais algum indício sobre os acontecimentos de Sarajevo, cidade onde ele residiu por um longo período durante a fase mais dramática do cerco. Os promotores esperam que o jornalista — que prefere não comentar — possa ter conhecimento de alguns detalhes úteis, parte dos quais já foram relatados no Il Foglio de 12 de novembro. "Todos em Sarajevo tinham ouvido falar daqueles turistas da caça ao homem: embora houvesse uma distância mortal entre as posições dos sitiantes e a cidade sitiada, as notícias se espalhavam. Dizia-se que aqueles estrangeiros - não voluntários 'ideológicos', 'irmãos ortodoxos' e similares, mas abastados esportistas da caça aos animais humanos - eram em sua maioria suíços, franceses e austríacos. Mas também se falava de italianos (especialmente do Vêneto), embora ninguém quisesse acreditar", escreveu Sofri no jornal fundado por Giuliano Ferrara.
Essa reconstrução foi posteriormente confirmada integralmente e publicamente por Michael Giffoni, um diplomata que fazia parte da delegação italiana na Bósnia-Herzegovina.
A história dos safáris da morte — com partida de Trieste — acabou no centro das investigações da promotoria de Milão após uma denúncia apresentada pelo escritor Ezio Gavazzeni em janeiro passado. A denúncia tem origem em um documentário de 2022, "Sarajevo Safari", do diretor esloveno Miran Zupanic. Foi com base nos depoimentos coletados para a realização do filme que o escritor Gavazzeni iniciou sua investigação, localizando alguns dos protagonistas da época e arquivando informações úteis para a denúncia. "O que descobri com uma fonte na Bósnia-Herzegovina é que a inteligência bósnia alertou a sede local do Sismi no final de 1993 sobre a presença de pelo menos cinco italianos que estavam nas colinas ao redor da cidade, acompanhados para atirar em civis", consta na denúncia de Gavazzeni. "A presença dos nossos serviços de inteligência no local era justificada pela presença da missão das Nações Unidas chamada Unprofor, da qual fazíamos parte também nós, como País, com nossas tropas e equipamentos. Foi com esse escritório que minha fonte, Edin Subasic, que fazia parte da inteligência bósnia, se comunicou e tratou, e de quem recebeu a resposta de não só ter encontrado os italianos, identificados, mas também a organização que os levava nos teatros de guerra na Bósnia: a logística e as cadeias de indivíduos que facilitavam esse tráfico, por dinheiro." Matar é um hobby de rico, "cínico" e "psicopata", do qual nossos serviços secretos têm conhecimento e intervêm para truncar. Apenas poucos podem se permitir, como um italiano "proprietário de uma clínica particular de Milão especializada em estética". Esse é o único detalhe, ainda a ser verificado, de que Subasic ouviu falar durante seus anos de serviço. Uma pista para começar a elaborar uma possível identificação.
Mas a declaração do autor é apenas a mais recente de uma longa série de evidências. A ex-prefeita de Sarajevo, Benjamina Karic, já havia apresentado uma denúncia ao gabinete do procurador da Bósnia-Herzegovina em 2022. Afinal, os elementos para buscar justiça já estão disponíveis há tempo. Basta procurá-los, como fez Gavazzeni. Em maio de 2007, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, em Haia, ouve o depoimento do ex-bombeiro estadunidense John Jordan, voluntário na cidade sitiada. O bombeiro testemunha durante o julgamento do comandante do Exército sérvio-bósnio, Ratko Mladic. Ele é um homem treinado, conhece bem uma zona de guerra e sabe reconhecer um "atirador turista": "O fato de vestirem uma combinação de roupas civis e militares, mas, acima de tudo, a arma. Qualquer um pode ir a uma loja de artigos militares usados e se vestir como o exército de qualquer outro. Mas os moradores locais carregavam determinadas armas, e quando um sujeito aparece com uma arma que parece mais adequada para caçar javalis na Floresta Negra do que para combate urbano nos Bálcãs, quando se vê como maneja a arma e se percebe que é um novato, obviamente se percebe que é um novato na forma como se move entre os escombros. Vocês sabem, se anda como um pato, grasna como um pato, é um pato."
Agora, a promotoria de Milão pretende esclarecer a situação, porém, mais de 30 anos depois, parece uma empreitada complexa. Esclarecer a situação seria de qualquer forma importante para dar um desfecho a essa história, especialmente para descobrir se os eventuais autores continuaram a viver como se nada tivesse acontecido ou se a "caça" continuou em outro lugar.
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