Rosalía e a arte de se abrir: quando a confiança vence o medo. Artigo de Llucià Pou Sabaté

Foto: Iñaki Espejo-Saavedra/Flickr

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01 Novembro 2025

  • A artista catalã reflete sobre a vida interior, a confiança e a transcendência. Suas palavras revelam uma busca que transcende a música: a abertura da alma para o invisível.

  • A artista se define como uma espécie de freira contemporânea. Essa metáfora expressa um modo de vida centrado na paz interior, contemplação e criação.

O artigo é de Llucià Pou Sabaté, padre ordenado do Opus Dei, publicado por Religión Digital, 30-10-2025.

Eis o artigo.

Numa época dominada pela pressa, pela imagem e pela aparência, Rosalía proferiu palavras que soam estranhamente luminosas: “Só Deus pode preencher os espaços se você tiver a predisposição, a atitude e a maneira de se abrir para que isso aconteça” (La Vanguardia, 17-10-2025, citando a entrevista da cantora em podcast).

Nessa frase, tão simples quanto radical, reside uma profunda percepção espiritual. A alma humana foi feita para se abrir, não para se fechar; para confiar, não para controlar. Somente quando criamos espaço dentro de nós mesmos é que algo maior pode surgir, algo que não provém da nossa própria força, mas do Mistério que habita em nós.

Criando espaço interior

“Como artista, existe uma conexão entre o vazio e a divindade”, confessa Rosalía. O “vazio” de que ela fala não é desolação, mas abertura. Vivemos tão cheios de ruído, tarefas e telas que nos esquecemos da possibilidade do silêncio. Mas o silêncio, na tradição mística e em toda vida espiritual autêntica, é o lugar onde Deus fala.

Esvaziar-se, deixar a luz entrar, não fugir do próprio eu interior: isso também é oração, mesmo sem palavras.

Confiança que não teme o fracasso

Outra de suas frases ressoa fortemente: “Existem duas maneiras de ter confiança. Uma se baseia na crença de que você terá sucesso, e a outra em não ter medo do fracasso”.

Essa segunda forma de confiança — mais profunda e libertadora — é muito próxima da fé. Não uma fé cega ou mágica, mas uma fé que aceita a fragilidade e confia que tudo pode ter um significado, mesmo aquilo que não compreendemos. O medo nos aprisiona; a confiança, por outro lado, nos abre para o mistério.

Voltar para casa

Rosalía também fala sobre seu retorno a Barcelona: “É a minha casa. É onde me lembro de onde vim e onde posso ser eu mesma novamente.” A espiritualidade sempre começa com um “retorno ao lar”: um retorno ao essencial, à verdade de quem somos. Nesse retorno interior, nos reconectamos com nossas raízes, com o sagrado que nos sustenta.

Uma espiritualidade da interioridade

A artista se define como “uma espécie de freira contemporânea”. Essa não é uma metáfora vazia: expressa um modo de vida centrado na paz interior, na contemplação e na criação. É uma espiritualidade aberta, sem rótulos, mas de forma alguma superficial.

Talvez esse seja o sinal dos nossos tempos: uma fé mais livre, menos institucionalizada, mas ainda sedenta de transcendência.

Aceite o mistério

“Deus é o único que pode preencher o vazio”, diz-nos a cantora. Aceitar esta afirmação não exige dogmatismo, mas humildade. Significa reconhecer que o coração humano possui uma profundidade que nada material pode satisfazer. E que o verdadeiro sentido da vida não é conquistado, mas sim recebido.

Conclusão: abra-se sem medo.

Talvez seja por isso que as palavras de Rosalía tocam algo profundo que ressoa com o que todos nós sentimos. Elas nos lembram que a alma não foi feita apenas para produzir, mas para receber. Que existe uma compreensão que nasce do silêncio, uma confiança que vence o medo e uma presença — seja ela Deus, Vida ou Mistério — que só pode entrar se abrirmos a porta.

“Deus não está longe: Ele espera o momento em que você abre espaço”.

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