05 Julho 2025
"Não é de agora que os poderes econômicos de envergadura global – mas privados – não encontram uma esfera pública capaz de regulá-los: nem os Estados, que, aliás, frequentemente estão a seu reboque, e nem mesmo as organizações internacionais, cada vez mais fracas diante da liquidação progressiva das democracias em favor de um modelo empresarial/decisionista que prescinde alegremente de parlamentos e constituições.", escreve a filósofa italiana Roberta De Monticelli, professora da Universidade San Raffaele, de Milão, em artigo publicado por Il Manifesto, 03-07-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Todos os dias acordamos com a lista dos massacrados pelo chumbo das IDF na multidão dos famintos, atraídos para lá de propósito para dizimá-los, em Gaza. E dos novos mortos ou deslocados da Cisjordânia. Agências confiáveis calculam no mínimo o dobro dos registrados.
Que constitui oficialmente até o momento o número do genocídio de Gaza. O aspirante a autocrata que agora está no governo dos Estados Unidos lança uma guerra de agressão contra o Irã sem consultar o Congresso (contra a Constituição de seu país), e desperta no secretário da OTAN (europeu) elogios tão excessivos e servis que induzem até mesmo seu destinatário ao sarcasmo; depois, dita à população restante de Gaza, extenuada, as condições de sua morte, que chama de "seu futuro", enquanto Israel rompe a trégua e retoma os ataques com força total. E então, novamente, a trégua é acenada como um ultimato no deserto de ruínas.
Enquanto isso, os chefes de governo europeus aprovam os 800 bilhões em gastos com rearmamento e 5% do PIB de cada país, e essa corrida de nações para o rearmamento, mas com fundos europeus comuns, a chamam de "defesa comum". Toda lembrança residual de empenhos ecológicos é apagada, enquanto a guerra russo-ucraniana continua a dizimar jovens recrutados à força e civis, e a envenenar talvez para sempre, física e moralmente, todo o flanco norte oriental da Europa. Onde até mesmo a mínima menção ao desastre na natureza seria hoje de mau gosto. E, no entanto, hoje o Mediterrâneo está fervendo a 5 graus acima da média sazonal, matando até os mexilhões, e o 0 térmico a 5.000 ameaça o colapso do que resta das geleiras alpinas.
Mas o autocrata EUA não acredita nisso e, há tempo (2019), vem se retirando de todos os acordos sobre a redução de armas nucleares e de políticas ambientais, enquanto o sorriso da Presidente da Comissão Europeia o abençoa e os governos europeus o imitam. É nesse contexto que me deparo com uma frase de efeito – mas uma daquelas que surtem efeito. Também porque responde a uma pergunta sucinta, ainda que ampla: "O que é esta nossa civilização moderna?" – Resposta: "É a razão que enlouqueceu, enlouqueceu pela economia".
Uma resposta que há cerca de vinte anos, em seus últimos meses de vida, Tiziano Terzani deu a seu filho Folco, convocado para registrar um diálogo entre pai e filho, dirigido à geração do filho e às seguintes. O livro em que encontrei esse diálogo, depois publicado postumamente com o título "La fine e il mio inizio", é "Tiziano Terzani contro la guerra", publicado na série "I Precursori della Decrescita" (Terra Nuova), dirigida por Serge Latouche, que também escreveu o prefácio. A autora é Gloria Germani, que estuda Terzani e suas fontes há vinte anos, e, de fato, esse livro é uma biografia das reviravoltas de uma vida aventurosa, construída como uma trama de textos desse pequeno Heródoto contemporâneo – um grande viajante, às vezes mais esclarecedor do que muitos contemporâneos Sólons ou Platões, ou melhor, do que os muitos Górgias do niilismo contemporâneo, de que falam Costantino Esposito ("The New Nihilism", University of Notre Dame Press, 2024) e Franca D’Agostini ("Il nichilismo è ancora con noi", “La lettura”, 15/6).
Que a razão tenha enlouquecido não é apenas uma piada indefinida. Aponta para um paradoxo no qual estamos imersos agora, e do qual Terzani foi profeta. O paradoxo é aquele também descrito por Nick Land em um livro apocalíptico, cujas ideias antidemocráticas e anti-igualitárias parecem ter se espalhado como um vírus naquela galáxia de sites e fóruns que desempenhou um papel decisivo na eleição de Donald Trump à Casa Branca. Cujo título, "Illuminismo oscuro" (2021), mostra precisamente o que é a razão enlouquecida, e o expressa com outro oximoro. "Iluminismo" por causa da hipertecnologia que molda nossas vidas e nossas guerras, "obscuro" porque professa a abolição de todos aqueles vínculos éticos e jurídicos ligados ao exercício do poder político que constituíam a luz do Iluminismo.
Esse é literalmente o enlouquecimento da razão prática, e é uma postura tecnicamente niilista porque são vínculos de razão prática também aqueles da lógica, sem a qual com as palavras não se pode sequer fazer um discurso sensato, mas apenas usá-las como armas. Se a nossa razão enlouquece, com que razão podemos afirmá-lo? Mas a razão enlouqueceu, "pela economia", explica Terzani.
E que sentido tem isso? Bem, não é de agora que os poderes econômicos de envergadura global – mas privados – não encontram uma esfera pública capaz de regulá-los: nem os Estados, que, aliás, frequentemente estão a seu reboque, e nem mesmo as organizações internacionais, cada vez mais fracas diante da liquidação progressiva das democracias em favor de um modelo empresarial/decisionista que prescinde alegremente de parlamentos e constituições. Não é por acaso que o mais fervoroso pensador do claro Iluminismo, em todos os sentidos, que é hoje Luigi Ferrajoli, vê precisamente na reconstrução de poderes públicos globais à altura daqueles privados uma cura para essa loucura e uma barreira ao colapso do senso comum moral.
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