12 Junho 2025
O ano que vem, ano eleitoral, será difícil para a imprensa. A previsão é da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) com base em dados recolhidos no ano passado, quando eleitores e eleitoras foram às urnas para eleger prefeitos/as e vereadores/as. De maio a outubro de 2024, durante a campanha, ocorreram 38,9% dos ataques perpetrados contra profissionais da mídia.
A reportagem é de Edelberto Behs, jornalista.
O Relatório da Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil em 2024, lançado no dia 20 de maio, registrou 144 casos de agressão verbal, simbólica ou física ao longo do ano, uma média de um ataque a cada dois dias e meio. Comparado a 2023, quando foram anotados 181 casos, houve uma queda de 20,4% nos casos de violência contra jornalistas e veículos de mídia no país. Nenhum profissional foi morto em 2024.
“A redução nos números não pode ser usada para minimizar a gravidade da situação. A liberdade de imprensa está sob ataque constante, e proteger o jornalismo é proteger a democracia”, admoestou a presidenta da Fenaj, Samira de Castro.
Por mais paradoxal que possa parecer, políticos aparecem em primeiro lugar entre os agressores de jornalistas e à liberdade de imprensa. Em 2024, foram 48 episódios – agressões físicas e verbais, tentativas de intimidação, ofensas em atos públicos de campanha, tentativas de censura a matérias e assédio judicial - representando um terço de todos os ataques perpetrados no ano. Desses políticos, a maioria é de direita e extrema direita (mais de 40%).
Aos políticos devem ser acrescentados, como agressores, os apoiadores diretos e servidores públicos ou órgãos como Prefeitura e Governo de Estado. A soma alcança, então, 68 casos, ou 47,2% do total. Policiais civis e militares aparecem com nove ocorrências, o mesmo número de casos envolvendo dirigentes, atletas e torcedores de clubes de futebol.
“Discursos de ódio – aponta o relatório – são pontes entre o pensamento e a ação. Assim, o que começa com ataques nas redes sociais, desinformação e ameaças, tende a transbordar para o campo das agressões físicas. Ambos os tipos de agressão – física ou virtual – são condenáveis e têm efeitos deletérios para as vítimas e para a democracia do país.”
Em 2024 ocorreram 30 casos de agressões físicas e 27 ameaças diretas, apresentando queda em relação a 2023 (com 40 casos). Também o assédio judicial, que consiste no uso abusivo de mecanismos jurídicos com a intenção de silenciar a imprensa e o trabalho de jornalistas, teve uma pequena queda numérica, de 25 casos em 2023 para 23 em 2024.
A prática que, proporcionalmente, mais cresceu no ano que passou – de 5 para 11, ou 15,9% dos casos registrados – foi o recurso à censura. Também a descredibilização da imprensa aumentou em termos relativos, de 7 casos em 2023 para 9 em 2024, “o que demonstra uma crescente hostilidade simbólica e política ao trabalho da mídia, ainda o reflexo da institucionalização dessa prática pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).”
Embora não tenha ocorrido óbito de jornalista no ano passado, foram documentados, no entanto, casos de tentativa de homicídio e ameaças de morte (seis registros) e ataques misóginos (sete registros), “elementos que ampliam o escopo da violência não apenas como repressão política ou institucional, mas também como violência de gênero e atentado direto à vida”.
Por região, o Sudeste apresentou o maior número de casos, 38, ou 26,3% do total, seguido pelo Nordeste, com 36 casos. Juntas, as duas regiões responderam por 51% dos casos totais. A região Sul registrou 31 casos em 2024 (contra 30 no ano anterior), com o Paraná ficando com o maior número de notificações.
“Só com uma imprensa livre e segura, na qual os profissionais possam exercer suas funções com salários dignos e condições de trabalho, será possível garantir os direitos humanos, a liberdade de imprensa, a democracia e a soberania no país”, destacam Samira de Castro e o secretário de Saúde e Segurança da Fenaj, Norian Segatto.
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