28 Março 2025
Ariel Muzicant é o presidente do Congresso Judaico Europeu, que reúne 42 comunidades de toda a Europa. Nascido em Israel, em Haifa, na década de 1950, ele se mudou para Viena ainda criança, onde se tornou médico e, durante décadas, ocupou cargos de liderança na comunidade judaica da Áustria. Há poucos dias, discursou no Knesset, o parlamento israelense, onde reiterou sua oposição à Conferência pelo Combate ao Antissemitismo, que será iniciada hoje à noite em Jerusalém. Vários políticos de extrema-direita foram convidados para o evento organizado pelo Ministério da Diáspora: entre eles, Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen; Jordan Bardella, presidente do Reagrupamento Nacional; Hermann Tertsch, da Vox e vice-presidente do grupo europeus dos Patriotas; e Charlie Weimers, deputado do Parlamento Europeu dos Democratas Suecos.
A entrevista é de Luca Monticelli, publicada por La Stampa, 26-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Muzicant recusou o convite para a conferência de dois dias em Jerusalém e, nesta entrevista, reitera suas críticas: “Os partidos de extrema direita vão a Israel com o intuito de limpar sua imagem, não estão interessados em realmente combater o antissemitismo”.
Essa conferência, acrescenta, é “uma perda de tempo e trai os valores do povo judeu”.
Eis a entrevista.
O senhor usou uma imagem muito forte para descrever a maneira como essa conferência foi organizada, ou seja, que o convite à extrema direita foi uma punhalada nas costas para o judaísmo europeu. Pode explicar essa acusação?
É preciso fazer uma premissa. O problema é que Amichai Chikli, o Ministro da Diáspora, não se coordenou com as comunidades locais. Há uma grande diferença entre a Itália e a França. Na Itália, as comunidades judaicas trabalham e conversam com o governo, mesmo que ele seja de direita, enquanto na França é diferente. Mas também na Suécia e na Espanha as comunidades se recusam a ter contatos com os extremistas de direita. E o que o ministro israelense Chikli faz? Convida esses políticos de extrema direita a Jerusalém para um encontro sobre antissemitismo. Nesse sentido, ele deu uma punhalada nas costas das comunidades locais.
Alguns observadores chegaram a dizer que isso poderia causar um maior recrudescimento do antissemitismo.
Não, isso não acontecerá, não acho que haja esse perigo. Acredito que a conferência será puramente usada por esses partidos para obter uma aprovação formal, para dizer que 'eles estão bem' porque estiveram em Israel. Mas para fins de luta contra o antissemitismo, tanto na Espanha quanto na França, a presença deles é totalmente inútil.
Por que é inútil?
Esses partidos não estarão interessados em combater o antissemitismo. É uma conferência inútil, um desperdício de dinheiro e tempo, e só serve para que esses políticos voltem para casa e digam ‘não somos antissemitas, fomos até convidados pelos israelenses’.
O senhor foi convidado e se recusou a ir à conferência?
Exatamente. Como Bernard-Henri Lévy; como o rabino-chefe britânico Ephraim Mirvis; como o presidente da Liga Antidifamação Jonathan Greenblatt e muitos outros que cancelaram sua participação.
Bernard-Henry Lèvi escreveu em nosso jornal que esse fórum sobre o antissemitismo se tornou a Internacional da Direita e que isso trai a alma de Israel. Concorda?
Não apenas de Israel, mas trai os valores do povo judeu, da democracia, dos direitos humanos, da liberdade de imprensa e da democracia liberal.
Na França, na Alemanha e na Grã-Bretanha, as comunidades judaicas se expuseram para criticar abertamente a escolha do governo israelense. É a primeira vez, desde 7 de outubro, que o mundo da diáspora critica Israel com tanta veemência?
Não criticamos o governo, criticamos o ministro Chikli. Não estamos criticando Israel, mas um membro do governo israelense, e não é a primeira vez. Já fizemos isso com os ministros Ben Gvir e Smotrich quando eles fizeram declarações racistas.
Os partidos de direita israelenses continuam a não ter contato com a Afd alemã e com o Áustria Freedom Party, porque eles ainda estão muito ligados a movimentos neonazistas. Pensa que esse tabu poderá ser quebrado no futuro?
Espero realmente que não.
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