24 Março 2025
Preguiça, covardia, inveja, ciúme, medo, ressentimento... em “As Paixões Perigosas” (Albin Michel), o filósofo Guillaume Le Blanc propõe uma anatomia das paixões tristes do nosso tempo, à luz de uma perspectiva social.
A entrevista é de Pascale Tournier, publicada por La Vie, 14-03-2025. A tradução é do Cepat.
Guillaume Le Blanc, professor de filosofia social e política na Universidade Paris Cité, dedica-se, nos seus aproximadamente 20 livros, a explorar uma filosofia da vida cotidiana. Em Les Passions Dangereuses (As Paixões Perigosas), concentra-se nas paixões que assombram o nosso cotidiano e nos impedem de viver, como a preguiça, a covardia, a mentira, a inveja, o ciúme, o medo, o ódio e o ressentimento. Mas em vez de fornecer uma explicação psicológica e moral, examina-os de um ângulo social e político para melhor nos ajudar a superá-los.
Lendo a sua obra, o momento que atravessamos seria mais propício às paixões tristes.
Nos anos 2000, Alain Ehrenberg diagnosticou o cansaço de ser si mesmo, como o outro lado da afirmação do sujeito, que quando ativado pode levar à depressão. Ainda estávamos num momento da conceitualização da sociedade em que a questão principal era saber como desenvolver as próprias competências, para ser o sujeito da própria existência num regime que valorizava a norma do empreendedorismo. Hoje, caímos na era da tristeza de ser si mesmo. Não ficamos tristes por nós mesmos, é o mundo em que vivemos que nos torna tristes. Estamos presos em padrões mais negativos, dos quais é difícil escapar. Passamos da necessidade de realizar nossas vidas para alguma coisa que se relaciona com a sobrevivência em um ambiente hostil. A irritabilidade, a agressividade, a sensação de invisibilidade são os sintomas marcantes dessa generalização da tristeza.
A causa desta tristeza contemporânea seria o neoliberalismo...
O neoliberalismo é um novo fato social total. Todos os fundamentos da existência que pensávamos serem sólidos tornam-se quebradiços. Todas as formas de proteção, próximas ou distantes, como a família, o trabalho, o Estado, são atacadas. No passado, as provações pelas quais passávamos em nossas vidas eram transcendidas por formas de proteção ou realização. Hoje, estamos nus diante destas provações. E essa nudez diante desses sofrimentos da vida cria a base para todas essas paixões tristes, como a preguiça, a covardia, a inveja, o ciúme...
Deveríamos ler seu ensaio como um pequeno tratado sobre nossos pecados capitais contemporâneos?
Não se trata de escrever um pequeno tratado sobre os grandes vícios, mas de propor uma nova filosofia social das paixões, vendo como, explorando-as, podemos voltar a existir, reinventar-nos. Temos dois grandes modelos de paixões à nossa disposição. O religioso, que remete à paixão de Cristo, um caminho de esperança que vai do sofrimento à ressurreição. A segunda interpretação vem da filosofia da era clássica e especialmente de Descartes. A abordagem faz parte de um registro mais moral: as paixões são uma invasão do corpo sobre a mente, tornando-nos passivos.
E esta diminuição do nosso poder de ser induzido, desta vez segundo as palavras de Spinoza, nos entristece. Tento propor outro modelo, procurando os mecanismos sociais subjacentes a estas paixões, para ver como elas podem ser fruto da construção social, mantendo ao mesmo tempo o quadro de Spinoza, que considero muito importante. Ele propõe uma ética que visa aumentar a nossa potência de ser e, portanto, alcançar mais alegria e a possibilidade de um renascimento que, portanto, se reconecte com o significado religioso da paixão de Cristo.
Por que começar com preguiça?
É a menos visível, a mais insidiosa, numa sociedade que celebra o indivíduo como o sujeito da sua vida. Resulta de uma relação muito conturbada com os sistemas em que estamos inseridos. Seguindo Michel Foucault e Giorgio Agamben, por dispositivos devemos entender todos os artifícios que incorporamos ao cotidiano, como o relógio inteligente, as redes sociais, o celular, e que remodelam nossos modos de ser.
Esses dispositivos, exacerbando o momento presente, a possibilidade do prazer infinitamente ajustável, o apelo constante à distração, empurram-nos para uma espécie de prática frenética, uma forma de adesão, que se assemelha ao controle ou ao vício. O eu virtual ocupa um lugar cada vez mais importante nestes lugares virtuais que nos prometem consumo de diversão imediato. Como, depois de navegar no TikTok e postar essas fotos de sonho no Instagram, voltar a enfrentar a realidade e o cinza das atividades da vida?
Você mostra que se existe uma tecnologia das paixões tristes, também existe uma economia das paixões tristes, principalmente na mentira.
A mentira cristaliza muitas das injunções contraditórias do nosso mundo contemporâneo. Como pai, você pode estar dividido entre as normas sociais que vão em direções diferentes. Trata-se de se realizar tanto como pai quanto no trabalho. Mas como você pode chegar tarde em casa e cuidar dos filhos ao mesmo tempo? A mentira pode ser ativada para resolver esse hiato estruturante. E, de fato, a essência social da mentira reside no fato de o mentiroso ser de alguma forma um “capitalista”. Implementa uma estratégia que vale a pena para ele. Transgredir permite-lhe aumentar os seus prazeres, ter uma melhor apresentação de si mesmo.
Usar os outros como meios para atingir os próprios fins pode maximizar os ganhos. O mentiroso fica assim numa posição demiúrgica, amplia os seus mundos existenciais. Impulsionado pelo ganho que resultará desta mentira, o mentiroso ficará preso numa espiral da qual será difícil escapar. A menos que se trate da causa primeira da mentira, o poder assumido sobre o outro. Entre o mentiroso que sabe a verdade e o “mentido” que não sabe que lhe mentem, acontece um jogo de superioridade. Seria então uma questão de abandonar o poder, de interrompê-lo quando ele passa por nós.
A covardia estaria baseada no fato de não poder mudar de lugar na sociedade...
A covardia não é necessariamente o oposto da coragem. Mas a criação de um estado social em relação a um lugar do qual é difícil escapar. Ou a imposição de um papel social, de um gênero, de um destino... Há um conservadorismo na sociedade a ser honrado que implica que todos os sujeitos permaneçam no seu lugar, especialmente aqueles que se encontram na precariedade, na base da escala. Para reverter a situação, a coragem não pode ser decretada. Mas acredito que sem apoio e sem uma dimensão coletiva, nenhuma vida consegue realmente abandonar o seu lugar. Há uma maldição de viver juntos, como diz Hannah Arendt, mas também uma alegria de viver juntos, que torna possíveis os deslocamentos existenciais.
Você termina pelo ressentimento, tema já explorado pela filósofa Cynthia Fleury. Você escolhe a analogia da ressaca para descrever essa paixão…
A ressaca é uma agitação do mar contra as rochas ou os obstáculos que encontra. Há um ritmo fechado. O ressentimento é um pouco parecido com isso. Não conseguimos exteriorizar a nossa raiva, todos os motivos que nos atormentam. Deparamo-nos com o obstáculo causado pelo aborrecimento persistente. Não temos escolha a não ser repeti-lo incessantemente. Estamos como que numa jaula mental.
De que forma o ressentimento é amplamente explorado pelos políticos e, especialmente, pelos líderes populistas?
Os populistas surfam nesta paixão. Dizem aos que sofrem que existem motivos reais para sofrer. A causa deve ser encontrada perto de nós, abaixo ou acima. Mas eles deixam as pessoas no estágio de uma vingança imaginária. Se procuram manter esse ressentimento, captar essas paixões tristes, não há dúvida de que não sairão da caixa. O seu projeto político visa a conservação. O contrário do ressentimento é a revolução. As coordenadas do nosso mundo em termos de poder têm interesse em que estejamos ressentidos, com medo, para sermos melhor governados.
Como sair dessa espiral?
Acredito na necessidade de produzir contranarrativas, mas é difícil. Às vezes surgem bolhas de entusiasmo, como na época dos Jogos Olímpicos. Mas isto não dura, porque a nossa realidade, fruto das tecnologias e da concentração de capitais, oferece uma visão de mundo na qual devemos erguer muros, ter medo do outro. Diante destas paixões tristes, as condenações morais não são eficazes. Tomemos a mentira, mesmo que não devamos mentir, essa paixão é muito poderosa em termos de ganho e de vida.
Acredito que devemos nos mover em direção à alegria. E, paradoxalmente, a tristeza pode nos levar até lá. Retorno à lição de Spinoza. Quanto mais nos sentimos tristes, mais desejamos a alegria. Aqui encontramos a ideia cristã da ressurreição: é preciso morrer para si mesmo para renascer.