18 Março 2025
Antes de sair de sua casa em Druzkivka, Nina Koshuk verifica se tudo está em ordem. Ela fechou as janelas e também desligou o gás. Perto da porta da frente estão duas mochilas, dois envelopes plásticos e uma cesta de piquenique com seu gato dentro. Nina e seu filho Mika, 11 anos, saem de casa, levando uma mochila cada um, ela tranca a porta e coloca a chave no bolso. Depois, vai embora, provavelmente para sempre.
A reportagem é de Francesca Mannocchi, publicada por La Stampa, 17-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Aquela de Nina e Mika é a primeira das evacuações que a associação humanitária East Sos Ukraine organizou dois dias atrás. Quatro mães e seus filhos foram retirados das áreas próximas às linhas de frente, para serem transferidos para o centro de deslocados em Pavlograd.
Nina está sozinha, como as outras. Algumas têm maridos no front de batalha, outras não têm mais. As crianças, especialmente os meninos, acabam se tornando adultos muito rapidamente. É Mika quem a tranquiliza quando a vê chorar ao lançar seu último olhar para a janela da casa: “Não tem problema, mamãe, se não voltarmos. Encontraremos outra casa”, e ele também lhe diz que tudo ficará bem no centro para evacuados, “mesmo que seja um dormitório, mamãe, não é desconfortável, e também conheceremos outras pessoas, pelo menos não estaremos sozinhos”.
E é assim, porque é isso que a guerra faz, torna próximo o indispensável. Pode-se ver isso especialmente entre as crianças, que foram privadas do direito de brincar e do direito à educação nos últimos anos, e logo que veem outra criança, se juntam. Só que, diferentemente de outras partes do mundo onde as crianças estão seguras, na guerra elas se juntam por outras experiências comuns. Não para jogar futebol ou videogames. Mas: quantos amigos você perdeu? Como vocês se avisavam quando havia um bombardeio? Para qual país seus amigos fugiram? Qual foi o bombardeio mais assustador que você já viu?
São crianças que sabem onde se esconder quando soa uma sirene, sabem que, se não houver abrigo, devem ficar no corredor junto às paredes e sabem como tranquilizar suas mães.
Nina não quer sair do país, não quer ir para a Polônia, como fizeram muitas de suas conhecidas, mas está assustada pelas evacuações constantes. Agora Pavlograd, “mas sabe-se lá por quanto tempo ficará seguro”.
Se estivesse sozinha, diz ela, teria ficado em casa. É apenas por Mika que ela está indo embora. Porque ela precisa salvar a vida dele e porque sabe o que aconteceu com milhares de crianças nos territórios ocupados. Desapareceram na Rússia e nunca mais voltaram.
As autoridades ucranianas estimam que cerca de 20.000 crianças foram levadas à força dos territórios ocupados para a Rússia desde o início da invasão em larga escala em fevereiro de 2022; muitos milhares ainda estão desaparecidos. Dmytro Lubinets, comissário ucraniano para os direitos humanos, no entanto, diz que é impossível saber os números reais: “A Ucrânia não sabe quantas crianças foram realmente afetadas por essas deportações. De uma população de cerca de um milhão e meio de crianças que vivem sob ocupação desde 2014, quantas foram deportadas para a Rússia? Somente a liberação desses territórios nos permitirá saber”.
E esse é apenas um dos motivos pelos quais o retorno seguro à Ucrânia das crianças sequestradas pelos russos é uma das condições de Kiev nas negociações.
Em dezembro, o Laboratório de Pesquisa Humanitária da Escola de Saúde Pública de Yale publicou um relatório detalhando as provas do sistema russo de deportação e naturalização forçada, reeducação, entrega e adoção de crianças ucranianas. De acordo com o relatório, após a transferência forçada das crianças, a Rússia as coloca em instalações institucionais, registra-as em pelo menos três bancos de dados federais de adoção e facilita sua colocação em famílias russas.
Os pesquisadores do Laboratório de Pesquisa Humanitária de Yale, uma organização que usa informações de código aberto para documentar as crises humanitárias em todo o mundo, cruzaram diversas fontes: imagens de satélite, mídias verificadas, bancos de dados de colocação de crianças na Rússia, documentos e comunicações do governo russo, e conseguiram identificar 314 crianças ucranianas transferidas dos territórios ocupados por meio de adoções ou colocações forçadas, atos que constituem graves violações do direito internacional. Esse relatório se baseia no anterior, publicado em fevereiro de 2023, que descreveu o esforço russo para realizar a deportação sistemática de crianças ucranianas.
O primeiro relatório relevava que mais de 6.000 crianças com idade entre quatro meses e 17 anos haviam sido transportadas para 43 campos e instalações administrados pela Rússia desde o início da invasão em larga escala do país pela Rússia em fevereiro de 2022. As crianças transferidas foram submetidas a uma reeducação política e, em alguns casos, foram impedidas de retornar à Ucrânia.
O relatório de fevereiro de 2023 foi quase imediatamente seguido pelo anúncio do Promotor do TPI Karim Khan de que a Câmara de Pré-Julgamento do Tribunal Penal Internacional havia aprovado mandados de prisão contra o Presidente russo Vladimir Putin e contra a Comissária Presidencial para os Direitos das Crianças Maria Lvova-Belova, os primeiros mandados emitidos como parte da investigação do TPI sobre a situação na Ucrânia.
O relatório de dezembro do Laboratório de Pesquisa Humanitária acrescenta provas de que a Federação Russa utilizou a adoção e colocação forçada sistemática, intencional e generalizada de crianças da Ucrânia. As provas podem levar a outras acusações contra Putin, Lvova-Belova e outros funcionários envolvidos no amplo programa de realocação forçada por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
O estudo identifica e relata as experiências de 314 crianças ucranianas submetidas ao programa russo de tutela, adoção e colocação, e descreve sua transferência das regiões ocupadas de Donetsk e Luhansk para localidades intermediárias na Rússia antes de serem colocadas sob os cuidados de cidadãos russos ou colocadas em instituições e listadas em bancos de dados de adoção russos. Das 314 crianças ucranianas deportadas, 148 foram listadas nos bancos de dados de adoção russos, sendo 42 já adotadas, colocadas sob tutela ou designadas a tutores legais russos. Outras 166 foram colocadas com famílias russas.
A investigação também mostra que aviões de transporte militar com a bandeira da Federação Russa transportaram grupos de crianças da Ucrânia e descreve como os bancos de dados controlados pela Federação Russa ofuscaram as identidades das crianças ucranianas, incluindo sua nacionalidade, para facilitar sua adoção por famílias russas e expõe os obstáculos colocados para o retorno das crianças para casa. Das cerca de mil crianças oficialmente repatriadas, muitas retornaram à Ucrânia por meio de contatos dentro das famílias.
Quando chegam ao centro de deslocados de Pavlograd, é hora do almoço. As mães descarregam suas bagagens e as crianças correm para o parque ao lado do refeitório. Mika, nas duas horas de viagem, já se tornou amigo de Ilhor, que tem quatorze anos, perdeu um amigo e encheu os bolsos da jaqueta com o maior número possível de brinquedos e livros antes de sair de casa. Sua mãe, Valentina, lhe disse que havia pouco espaço no ônibus para os evacuados e que ela teria de dividir com outros em fuga como eles. Ilhor, assim como Mika, é filho único e, enquanto conversa com seu novo amigo sobre como viveram na guerra e o que gostariam de fazer no futuro, nunca mencionam seus pais. Talvez a saudade seja grande demais e é melhor não os evocar. Talvez seja uma forma humana e natural de exorcizar o medo de que eles não retornem do front.