25 Fevereiro 2025
Com Francisco gravemente doente no hospital, “há uma perturbação na Igreja, também porque o Papa argentino é uma voz de paz em um mundo dilacerado pelos conflitos”. As pessoas “precisam que ele volte logo: sua empatia é uma referência espiritual e psicológica neste mundo em crise”.
Renunciar ao pontificado? “É possível, mas não acredito que ele renuncie, Bergoglio quer continuar sua missão enquanto tiver forças”.
Palavras do irmão Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose e da fraternidade monástica Casa della Madia em Albiano d'Ivrea, onde vive atualmente.
A entrevista é de Domenico Agasso, publicada por La Stampa, 23-02-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
O Papa não está fora de perigo: que implicações essa situação tem para a Igreja?
A Igreja está particularmente transtornada. O Pontífice está doente, e com uma idade tão avançada, 88 anos, há perigos e consequente apreensão, teme-se a possibilidade de seu fim em um momento de grande incerteza política para o Ocidente. Isso gera inquietação, porque Francisco é visto não apenas em sua função religiosa, mas também como um homem sábio que, em um contexto de conflitos, poderia oferecer uma palavra de distensão e reconciliação.
E as pessoas?
Além da preocupação dos católicos, também percebi entre muitas pessoas distantes da Igreja a esperança de que sua voz volte logo a ressoar neste momento delicado para o mundo. As pessoas precisam do Papa Francisco. Sinto isso claramente. Ao viajar para palestras em diferentes cidades, percebi esse sentimento não apenas nos círculos eclesiais, mas também fora deles. Há uma grande exigência de sua presença e de sua palavra neste momento de confusão e dificuldade política em nível planetário. Há confiança em sua capacidade de oferecer uma palavra de paz cheia de autoridade em um momento em que as tensões entre as nações poderiam desembocar em novos conflitos. E há também um aspecto mais psicológico e espiritual.
Qual?
Para as pessoas, sua empatia é preciosa e esclarecedora. Seus gestos, suas brincadeiras, seu conforto, seu encorajamento. Ele precisa voltar logo.
Na coletiva de atualização sobre o estado de saúde na Policlínica Gemelli, Sergio Alfieri, chefe da equipe médica que trata Francisco, e Luigi Carbone, o médico do Vaticano que é a pessoa de contato do Papa, explicaram os detalhes de exames, terapias e riscos.
Foi um sinal extraordinário de transparência. Francisco sempre disse que não quer lendas ou falsidades ao redor da doença e da morte de um papa. Ele se considera um homem como todos os outros, um filho de Adão, tão mortal quanto qualquer outro. É também por isso que ele especificou que os ritos de seu enterro sejam os mesmos de um cristão simples, sem triunfalismos, ao contrário do que aconteceu com seus antecessores.
O debate sobre a possível renúncia do papado se reabriu. O que pensa a respeito?
A renúncia só seria possível se a doença viesse a se prolongar por muito tempo e tornasse seu ministério impossível. Mas se Francisco recuperar suas forças, não renunciará. Ele quer continuar até o fim, levar adiante a sua ação incisiva para a Igreja e as reformas que iniciou.
Há uma atmosfera pré-conclave nos Palácios do Vaticano?
Sim, isso sempre acontece quando a vida de um Papa está em perigo. Considerando a idade de Francisco, muitos estão começando a especular, mas no momento não parece haver nada de concreto.
O ponto crucial do futuro: o Jubileu e os inúmeros compromissos ainda poderiam complicar a recuperação total do Bispo de Roma?
Não acredito, também porque os eventos do Jubileu já estão consolidados e não necessariamente exigem sempre a sua presença física. O compromisso mais relevante e exigente é, em vez disso, a comemoração do Concílio de Niceia, com a viagem à Turquia que está sendo programada, e o encontro com as Igrejas Ortodoxas.
O Papa escreveu recentemente o prefácio de seu livro “Fraternità”.
Ele me enviou o prefácio sem que eu pedisse, um sinal público de afeto e confiança em mim. Durante uma audiência, algum tempo atrás, ele me disse que me daria sinais concretos e públicos, para que todos entendessem o sentido desses sentimentos, indo além do que havia acontecido em minha saída forçada de Bose. Ele reconheceu que minha história continha elementos de injustiça.
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