16 Janeiro 2025
"De acordo com o secretário da OTAN, é preciso garantir que a Ucrânia possa prolongar a guerra a fim de prevalecer sobre seu adversário. Portanto, a paz justa e duradoura deve se basear na 'vitória' da Ucrânia. Além disso, Zelensky apresentou ao Conselho de Segurança da ONU sua 'fórmula de paz' de dez pontos para pôr um fim à guerra, que pressupõe a derrota total do inimigo e sua punição", escreve Domenico Gallo, juiz italiano e ex-presidente da Suprema Corte da Itália, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 15-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
“Estamos aqui hoje para garantir que a Ucrânia tenha o que precisa em termos de equipamento e treinamento para prolongar a batalha e prevalecer”. Foi o que disse o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, ao chegar à base de Ramstein em 9 de janeiro para a última reunião do Grupo de Contato para a Defesa da Ucrânia. Ele foi ecoado na mesma noite por Giorgia Meloni que, ao receber Zelensky em Roma, reiterou: “o apoio total que a Itália garante e continuará a garantir à legítima defesa da Ucrânia e do povo ucraniano, para colocar Kiev nas melhores condições possíveis para construir uma paz justa e duradoura”.
No dia seguinte, o líder ucraniano se reuniu com o presidente da República Mattarella no Quirinale, que confirmou a ele “a determinação da Itália em manter o apoio pleno, inalterado e constante à Ucrânia contra a agressão da Federação Russa”. Por sua vez, Zelensky, após a reunião com Mattarella, expressou “agradecimentos pelo firme apoio da Itália à Ucrânia e por sua posição clara e de princípio sobre a paz justa e duradoura”. Seria interessante entender em que consiste a “paz justa e duradoura” à qual os governos ucraniano e italiano aspiram juntamente com as lideranças da UE e da OTAN.
De acordo com o secretário da OTAN, é preciso garantir que a Ucrânia possa prolongar a guerra a fim de prevalecer sobre seu adversário. Portanto, a paz justa e duradoura deve se basear na “vitória” da Ucrânia. Além disso, Zelensky apresentou ao Conselho de Segurança da ONU sua “fórmula de paz” de dez pontos para pôr um fim à guerra, que pressupõe a derrota total do inimigo e sua punição. No que consiste a vitória nos foi explicado pelo Parlamento Europeu em uma Resolução de 16 de fevereiro de 2023, na qual “enfatiza que o principal objetivo da Ucrânia é vencer a guerra contra a Rússia, entendida como a capacidade da Ucrânia de expulsar todas as forças russas e seus associados e aliados de seu território reconhecido em nível internacional”. A fórmula da “paz justa e duradoura”, que agora é usada por pudor no lugar do imperativo da “vitória”, não introduz nenhum elemento de novidade em relação à diretriz política de derrotar a Rússia manu militari.
No centenário de sua morte, esquecemos completamente a lição de sabedoria de Giacomo Matteotti que, em 1915, desafiando os furores bélicos que inflamavam a Europa, escreveu: “Não desejamos nem queremos a vitória de ninguém, seja qual for das duas grandes agremiações que viesse a vencer, haverá um povo derrotado que preparará sua vingança para amanhã e, portanto, novas guerras, e haverá vencedores que dominarão cidades e campos de nacionalidade diferente com a desculpa da civilização superior, com a desculpa da fronteira a ser cercada”.
Ao acolher Zelensky e confirmar seu apoio inabalável ao governo ucraniano, o presidente da República declarou: “Fazemos isso em nome do respeito às regras de convivência internacional, contra a pretensão de impor a vontade de outro país, de outro Estado, com as armas”. É o mantra do “mundo baseado nas regras” que anima a vontade política dos países que estão armando a Ucrânia. A interpretação autêntica dessas regras nos é fornecida pela nação líder do Ocidente, os EUA.
Em 9 de janeiro, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei chamado Illegitimate Court Counteraction Act, que condena “nos termos mais duros possíveis” o pedido de prisão do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e do ex-ministro da Defesa Gallant pelos crimes cometidos em Gaza e impõe sanções pessoais a todos os membros do Tribunal Penal Internacional.
Em outras palavras, os princípios sagrados, as regras do direito internacional para o Ocidente são apenas um pretexto, a ser usado, quando convém, para mascarar a face não apresentável do único direito que reconhecemos: o direito da força. Essa é a regra à qual devemos nos opor se quisermos sair do caos que governa as relações internacionais e abrir um caminho para a paz. É por isso que é importante derrotar de partido único da guerra confrontando-o na questão prática que tem o mais alto valor simbólico: o fornecimento adicional de armas à Ucrânia “para prolongar a batalha”.
Por esse motivo, um grupo de personalidades da sociedade civil apresentou uma petição ao Senado, tendo como primeiro signatário o bispo Giovanni Ricchiuti, presidente da Pax Christi, almejando uma mobilização popular contra a aprovação do decreto sobre as armas, para fazer emergir a vontade de paz do povo italiano, desautorizando aqueles políticos, italianos e europeus, que nunca se cansam de guerras (para aderir clique aqui.)