Itália: terra de missão? Artigo de Severino Dianich

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03 Dezembro 2024

"Jesus nunca hesitou em se perguntar: 'Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?' (Lc 18,8). Em vez disso, o que é exigido de nós em nosso tempo é um retorno corajoso à mais austera radicalidade da fé e uma imitação renovada de Cristo sem descontos", escreve Severino Dianich, teólogo italiano, em artigo publicado por Vita Pastorale, 02-12-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

É um fato bem conhecido que hoje a evangelização, mas também o cuidado pastoral normal, não estão passando por um período de grandes sucessos. Nada comparável à maravilhosa expansão da fé no tempo dos apóstolos. Nem à do início da Idade Média ou à evangelização das Américas, embora os métodos daquela época não sejam apenas impraticáveis hoje, mas também difíceis de justificar. Tampouco à grande temporada missionária que foi o século XIX, apesar de algumas contaminações com as conquistas coloniais. Devemos, no entanto, acrescentar que estamos tão condicionados pela tradição milenar de uma Europa totalmente cristã que até mesmo a consciência de que em todo lugar somos território de missão, é escassa aqui entre nós. Não é assim na França, onde, já na década de 1940, lançava-se o dramático questionamento “France terre de mission?”, e mais de sete mil batismos de adultos foram celebrados na Páscoa deste ano. Uma bagatela, certamente, mas um sinal significativo.

O fato é que o trabalho pastoral aqui é cada vez mais trabalhoso e, muitas vezes, sujeito a não poucas frustrações.

Estamos vivendo um processo de mudança que, em outros países, está mais avançado, enquanto nós estamos operando em um vau, no qual avançamos lentamente, com o dever de não abandonar as velhas práticas sacramentais até que elas se extingam, e com a dificuldade de inventar novas formas de nos aproximarmos das pessoas, adequadas a uma situação em que o que está em crise não é, na realidade, a prática religiosa, mas a fé. É mais do que compreensível que disso derive um grande sentimento de frustração. E, não raro, a tentação de cruzar os braços e, depois, fazer exatamente isso.

Essa não é uma experiência, por si só, estranha à vida do crente. Longe disso. Jesus nunca hesitou em se perguntar: “Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lc 18,8). Em vez disso, o que é exigido de nós em nosso tempo é um retorno corajoso à mais austera radicalidade da fé e uma imitação renovada de Cristo sem descontos. A missão de Jesus, dele primeiro, terminou em um fracasso retumbante: condenado à morte como criminoso, uma sentença executada com o castigo dos escravos, a crucificação. A ressurreição não nos permite esquecer seus antecedentes: o Cristo ressuscitado ostenta suas chagas para que as testemunhas não as esqueçam. Na tradição iconográfica do juízo, o Cristo juiz chama os salvos e expulsa os condenados com suas mãos visivelmente marcadas pelas feridas. A fé na glória do Ressuscitado também nunca induziu os crentes a não meditarem continuamente sobre a paixão de Jesus.

A experiência do fracasso o acompanha ao longo de toda a sua missão. No início, em Nazaré, querem jogá-lo do penhasco porque ele ousou mencionar, anunciando a dimensão universal de sua missão, que o profeta Eliseu já havia curado um oficial do exército da odiada potência da Síria.

No caminho da Galileia para Jerusalém, em uma aldeia samaritana, batem-lhe a porta na cara. Ao final de seu belíssimo e sublime discurso sobre o pão da vida, as pessoas vão embora, atordoadas e decepcionadas, e ele pergunta, desanimado, a seus amigos mais fiéis: “Vocês também querem ir embora?” Enquanto ele está predizendo sua condenação e morte, os filhos de Zebedeu e a mãe discutem sobre sua futura carreira no Reino do qual Jesus falava continuamente. Ele cura os doentes, mas, aparentemente lendo a história dos dez leprosos, muitas vezes nem sequer recebe um agradecimento! Nicodemos o agracia com uma bela conversa noturna, mas depois não fala mais com ele pessoalmente, embora - isso lhe deve ser reconhecido - o defenda no sinédrio e, após sua morte, providencie seu honroso enterro. Ele também teria a alegria de ver as crianças celebrando-o e gritando seu Aleluia! agitando galhos arrancados das árvores, e as pessoas acompanhando-o em uma ruidosa e alegre procissão enquanto entrava na cidade santa.

Mas foi apenas um momento. Pouco depois, ele se vê sozinho, abandonado até mesmo por seus mais fiéis. Disseram-lhe que seu fã mais entusiasmado, o bom Simão, a quem ele considerava uma rocha, a ponto de lhe dar o nome de Pedro, havia se disfarçado vergonhosamente como alguém que nem mesmo sabia quem ele era. Se não fossem as mulheres e sua mãe, com exceção de João, ele teria morrido na cruz na mais vergonhosa solidão. Na cruz, a consciência de mais esse aspecto dramático de sua vida atinge o ápice naquele grito, a palavra mais obscuramente misteriosa de todas as que ele pronunciou ao longo da vida: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mt 27,46).

Ressurreição e glória, tudo virá depois.

É o suficiente para meditarmos em suas palavras em vez de nos lamentar: “Não há discípulo maior do que seu mestre”. E, em uma situação dolorosa, redescobrir a alegria da fé. São Paulo é o mestre insuperável disso: “Sinto prazer nas minhas fraquezas [...] porque quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12,10). Deve-se lembrar também que o Apóstolo é capaz de se alegrar até mesmo nas situações mais paradoxais: “Alguns pregam Cristo [...] por inveja e porfia, com intenções injustas, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda” (Fp 1,15-18).

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