30 Outubro 2024
"É um filme de adeuses que vão e voltam, em que a morte, mesmo quando consumada, jamais é definitiva", escreve Lucia Santaella, professora, em comentário publicado no Facebook, 27-10-2024.
Eis o comentário.
Acabo de chegar de “O quarto ao lado”. Quando a Eutanásia se torna tema de jornal, é preciso ir para Almodóvar. Valéry dizia ser possível sintetizar uma tese, mas impossível sintetizar um poema. Esse filme de Almodóvar é um poema intraduzível, fugidio às palavras, a quaisquer paráfrases, porque vai descendo com a leveza da neve cor de rosa, esgueirando-se e escorregando até atingir o mais profundo e pungente da nossa sensibilidade.
As cores fortes de Almodóvar estão lá, mas em contrapontos com cenários tanto urbanos quanto naturais que transcendem os mais perfeitos imaginários da beleza. A cada diálogo soam as vozes da mais pura poesia. Todo o dicionário de adjetivos é pobre para qualificar a arte das atrizes, escolhidas por dedos de ouro. O ritmo dos planos e cortes é musical, em uma cadência à la quintetos de Mendelssohn.
É um filme sobre o limiar humano mais agudo em que não se pode mais reconhecer onde está a vida e onde está a morte. Cruzam-se, sobrepõem-se entre aproximações e distanciamentos. É um filme de adeuses que vão e voltam, em que a morte, mesmo quando consumada, jamais é definitiva. É um convite ao silêncio de ser e de existir, um raro encontro imponderável entre o vazio e o pleno. A cada filme de Almodóvar, juramos que seria improvável que esse grande artista pudesse ir além de si, ultrapassar-se. Mas ele o faz. A maturidade está lhe valendo o esplendor a que só chegam aqueles que nascem para ser eternos.
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