11 Setembro 2024
"'The Next Room Door' não apenas destaca a necessidade de discutir a eutanásia, mas também enfatiza a importância de respeitar as escolhas individuais e de oferecer um suporte adequado para aqueles que enfrentam decisões tão difíceis." O comentário é de Angelo Atalla, médico, possui mestrado em Medicina Interna e doutorado em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, com concentração em Hematologia.
Primeira impressão SEM ver o filme, mas baseado no discurso de Almodóvar após vencer o prêmio e o maravilhoso livro de Irvin Yalom “Uma questão de vida e morte: Amor, perda e o que realmente importa no final”
Para comentar sobre o filme "The Next Room Door" de Pedro Almodóvar, que venceu o Leão de Ouro em Veneza, é importante destacar como ele aborda a eutanásia, um tema delicado e relevante nos dias atuais. Almodóvar, conhecido por sua habilidade em tratar de questões complexas e emocionalmente carregadas, utiliza o filme para explorar o direito das pessoas de decidirem sobre o fim de suas vidas.
A eutanásia é um tópico que suscita debates éticos, morais e legais em todo o mundo. O filme de Almodóvar convida o público a refletir sobre a autonomia individual e o direito de cada um de tomar decisões sobre sua própria vida, especialmente em situações de sofrimento insuportável. Em muitos países, a discussão sobre a legalização da eutanásia está em andamento, e filmes como este ajudam a humanizar e aprofundar o debate, apresentando histórias que revelam a complexidade das emoções e circunstâncias envolvidas.
"The Next Room Door" não apenas destaca a necessidade de discutir a eutanásia, mas também enfatiza a importância de respeitar as escolhas individuais e de oferecer um suporte adequado para aqueles que enfrentam decisões tão difíceis. A obra de Almodóvar, com sua narrativa envolvente e personagens bem desenvolvidos, serve como um poderoso catalisador para o diálogo sobre o direito à morte digna, um tema que continua a ser de grande importância em nossa sociedade.
Em segundo plano, não menos importantes, a questão da longevidade, da capacidade da ciência de prolongar a vida em morte, o custo impagável para as famílias, o sistema de saúde e o estado da manutenção da vida vegetativa. Claro, que há muito a ser discutido e normatizado. A vida de cada um pertence a cada um, e não pode ser disposta por outrem. A eutanásia deve ser um desejo expressado, como o aborto é pela mulher. Não se concebe ser decisão de terceiro, seja conjugue, familiar ou mesmo o estado.
O livro de Yalom, o grande psicanalista de nosso tempo, conta como sua esposa (também médica) decide pela eutanásia para cessar a grade dor causada pelo Mieloma Múltiplo intratável. E somo confrontados com as terríveis questões: “Quanto estamos dispostos a suportar para permanecermos vivos? Como podemos terminar nossos dias da forma mais indolor possível? De que forma podemos deixar este mundo para a próxima geração?”
Imagino que o filme de Walter Salles deva ser maravilhoso e seu tema superimportante, como todos dele, em que se fotografa um país sob ditadura, que está reflorescendo em todo o mundo, mas o júri entendeu que a questão da eutanásia é contemporânea e deve ser discutida, já.
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