Impostos globais sobre os ricos

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21 Agosto 2024

A primeira rodada de negociações da ONU, iniciada em 26 de abril de 2024, para alcançar os Termos de Referência (TdR) para a primeira Convenção-Quadro sobre Cooperação Tributária Internacional, preparou um projeto de texto a ser discutido em agosto. Foram considerados, entre outros, os impostos sobre a renda, o patrimônio, impostos ambientais e corporativos. A iniciativa, em 2023, foi do Grupo Africano e contou inicialmente com a oposição dos grandes países; mas, finalmente, todos convergiram para as conversas. O ponto de partida foi considerar que os países do mundo perdem milhões de dólares devido à evasão fiscal ou à elisão em “paraísos fiscais”, o que afeta particularmente os países pobres, que ficam sem os recursos necessários para investir no seu desenvolvimento.

A reportagem é de Juan J. Paz-y-Miño Cepeda, publicada em seu blog Historia y Presente, 19-08-2024. A tradução é do Cepat.

Após três semanas de deliberações, no dia 16 de agosto (2024) foi realizada a votação dos Termos de Referência na ONU com um resultado contundente: 110 países a favor, 8 contra e 44 abstenções. Quem votou contra foram: Austrália, Canadá, Estados Unidos, Israel, Japão, Nova Zelândia, Reino Unido e a República da Coreia. Entre os que votaram a favor estão a China e a Rússia; mas entre os que se abstiveram estão os principais países da Europa Ocidental como: Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Dinamarca, Finlândia, França, Grécia, Itália, Noruega, Portugal, Holanda, Suécia e Suíça. Os países latino-americanos presentes votaram a favor dos Termos de Referência, exceto apenas a Argentina, que se absteve, embora seja surpreendente que o Equador também tenha votado a favor.

A abstenção da Argentina explica-se pela posição do seu presidente Javier Milei, que repetidamente apontou que os impostos são um “roubo”, de acordo com a ideologia libertária anarco-capitalista que o guia. No caso do Equador, uma foi a posição externa e outra é o comportamento interno. Desde 2017, os sucessivos governos de Lenín Moreno e dos milionários Guillermo Lasso e Daniel Noboa caracterizam-se por ditar medidas disfarçadas de “incentivos fiscais”, que isentam grupos econômicos poderosos do país do pagamento de impostos ou os reduzem substancialmente. Mais ainda: Moreno é investigado pelo Ministério Público pelo caso INA Papers sobre ligações com uma empresa offshore e o banqueiro Lasso é conhecido mundialmente por sua vinculação aos Pandora Papers, que denunciam relações com mais de 10 empresas offshore e trustes no Panamá, Dakota do Sul e Delaware.

A Receita Federal do Equador (SRI) denuncia a Exportadora Bananera Noboa, de propriedade de parentes do presidente, como devedora firme de uma quantia milionária, que se beneficiaria de uma anistia governamental. De mãos dadas com o modelo empresarial-neoliberal consolidado no Equador, a evasão e a elisão fiscais são realidades permanentes, assim como o perdão, a redução ou a eliminação de impostos para os concentradores de riqueza, bem como as reduções do ISD (imposto sobre saídas de divisas) que de certa forma permitiu que o fluxo de dinheiro para o exterior fosse tributado. Sob as orientações do neoliberalismo nacional e do libertarianismo, a elite empresarial e rica do país tem fortes capacidades para impedir que os impostos cumpram os objetivos sociais que a ONU procura a nível global.

Como se sabe, a América Latina é a região mais desigual do mundo, por isso os impostos diretos sobre a riqueza devem fazer parte das políticas econômicas do Estado, para não apenas redistribuir a riqueza, mas também para ter recursos para tornar eficientes e universais os serviços da educação, da saúde e da previdência social, que constituem a trilogia básica para atender toda a população. A região tem experiência histórica suficiente do desastre social causado pelas medidas neoliberais e especialmente no que diz respeito à “redução” do Estado, um dogma que não fez outra coisa senão deteriorar os serviços públicos e enfraquecer as instituições em geral. Enquanto no Equador se faz propaganda para reduzir ou eliminar impostos com o argumento de que são “muitos”, os estudos de organismos internacionais mostram que o país tem um nível de impostos abaixo da média latino-americana, região que não atinge as médias da OCDE, que é de 34-35% do PIB.

No momento, a aprovação do documento TdR é um passo importante, mas insuficiente. Estabelece os compromissos, focados em: “a. atribuição justa dos direitos fiscais, incluindo a tributação equitativa das empresas multinacionais; b. combater a evasão e a elisão fiscais por parte de pessoas com elevado patrimônio líquido e garantir a sua tributação efetiva nos Estados-Membros competentes; c. perspectivas de cooperação fiscal internacional que contribuam para a consecução do desenvolvimento sustentável nas suas três dimensões, econômica, social e ambiental, de forma equilibrada e integrada; d. assistência administrativa mútua eficaz em questões fiscais, especialmente no que diz respeito à transparência e ao intercâmbio de informações para efeitos fiscais; e. abordar os fluxos financeiros ilícitos relacionados aos impostos, à elisão fiscal, à evasão fiscal e às práticas fiscais prejudiciais; e f. prevenção e resolução eficaz de conflitos fiscais”. O próximo passo é mais difícil: especificar os mecanismos de controle universal da evasão fiscal e criar os impostos sobre os mais ricos.

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