Beirute, o patriarca dos maronitas: “O Hezbollah apoia Gaza, mas o faz às custas do Líbano”. Entrevista com Béchara Butros Raï

Foto: Anistia Internacional

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09 Julho 2024

“Para ter paz, são necessários os dois Estados”. Um golpe para Israel e seus aliados, o outro para os xiitas do Hezbollah. Béchara Boutros Raï, 84 anos, educado pelos jesuítas, é Patriarca dos Maronitas do Líbano desde 2011 e Cardeal da Santa Igreja Romana desde 2012. Ele nos encontra em sua residência de verão em Dimane, nas montanhas a cerca de cem quilômetros ao norte de Beirute, com vista para o Vale da Kadisha, onde se refugiaram os seguidores de São Maron, perseguidos pelos turcos. “O Hezbollah quer sustentar Gaza às custas do Líbano”.

A entrevista é de Alessandro Mantovani, publicada por il Fatto Quotidiano, 08-07-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O senhor tem pedido repetidamente, assim como o Papa, "dois povos e dois Estados" para acabar com a guerra na Faixa de Gaza e dar estabilidade ao Oriente Médio.

Não podemos renunciar ao apelo pelos "dois Estados" se quisermos pôr fim à tragédia palestina. As Nações Unidas têm dito isso desde a Resolução 181 de 1947: Israel criou o seu Estado e os árabes deveriam ter feito o mesmo. Temos de voltar para aquele ponto: para haver paz, são necessários os dois Estados.

Quem fornece armas a Israel não quer a paz?

O Ocidente deve parar de fazer isso se realmente quer a paz, inclusive para Israel. Faço um apelo à Europa: é preciso pôr um fim a essas guerras que duram há 76 anos. Israel não vive em paz e os palestinos também não. É preciso parar de armar uns e os outros, escolher a virtude em vez dos negócios.

Também continua a troca de tiros no sul do Líbano entre Israel e o Hezbollah. Em palavras, ninguém quer a guerra total, mas o incidente está bem próximo. Será que Beirute, em grave crise econômica e política, pode suportar outra guerra sem que voltem a explodir as tensões entre as suas componentes étnico-religiosas?

A decisão pela guerra não foi tomada pelo governo libanês. Hoje, apenas um decide, mas o Líbano não quer guerra, como repetiu o primeiro-ministro Najib Miqati. Estamos com as costas contra a parede, somente o Hezbollah decide e não tem o direito de fazê-lo. Qual é a relação entre Gaza e o Líbano? Onde estão os países árabes? Eles também não querem a guerra.

Os libaneses estão divididos, há aqueles que acham que não se pode abandonar os palestinos e uma parte dos cristãos está aliada ao Hezbollah...

É uma escolha deles, mas eu estou falando do Líbano oficial, de todo o Líbano. Não temos interesse na guerra, nossa cultura é a paz, o nosso é o Evangelho da paz. O heroísmo não é travar guerras, é manter a paz. Enquanto o Hezbollah quer sustentar Gaza às custas do Líbano.

Mas o Hezbollah desfruta de grande consenso e soube construir alianças. Desde o final de 2022, o Líbano não consegue eleger um presidente, as instituições estão paralisadas e é necessário um acordo parlamentar. É possível fazer isso contra o Hezbollah?

Não há presidente porque a democracia libanesa às vezes deixa a minoria decidir. Nabih Berri (o presidente do Parlamento, xiita do Amal, aliado do Hezbollah, ndr) diz que é preciso fazer um acordo, pediu para abrir o diálogo, mas as Forças Libanesas (o principal partido cristão maronita) não querem o confronto, só gostariam de eleger um presidente, como preconiza a Constituição. O Hezbollah decidiu que o único candidato deve ser Suleiman Frangieh, que é uma boa pessoa (outro maronita, líder do Marada: o presidente deve ser maronita de acordo com o Pacto Nacional que governa o Líbano desde 1943, ndr). Mas não pode impor isso, todo maronita tem o direito de ser presidente.

Uma minoria de libaneses ostenta grande riqueza e a maioria está cada vez mais pobre.

A sua Igreja faz muitas coisas, mas será que os cristãos mais ricos e os seus partidos fazem o suficiente?

É verdade, há grandes desigualdades. A classe média costumava ser de 80%, mas não é mais. Algumas pessoas ricas ajudam, sempre as mesmas; outras não. Além disso, há as organizações humanitárias e a Igreja. Mas grande parte do povo se sustenta graças aos libaneses na diáspora (pelo menos 20 milhões contra 5,5 no país, ndr), e aqui ao redor há aldeias geminadas com aquelas da Austrália e do Canadá. Tenta-se evitar que as pessoas morram nas ruas, mas, a longo prazo, não dá para garantir, a emigração cresce e esvazia o país. Sem um presidente, corremos o risco de ficar à deriva.

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