“Vão e matem”

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16 Março 2024

 “É a luta entre o bem e o mal, estamos presos no mesmo lugar e só o mais forte sobreviverá”. O rabino Yishai Tzur leciona na Academia de Treinamento Militar Bnei David de Eli. Ele está sentado na sala de aula da escola, rodeado de livros. Além das janelas, o assentamento de Eli. “Um rapaz que se alista aos 18 anos ainda não se fez questionamentos profundos sobre o que significa ser judeu e servir o exército, sobre por que é necessário fazer parte da Defesa: matar caso contrário eles vão te matar, sobre por que Israel deve seja forte, por que não temos outro lugar para onde ir. Então aqui construímos um vínculo entre Deus e o exército, e assim construímos a sociedade que queremos. Porque temos uma luz para levar ao mundo. Para nós é uma questão de moralidade, que hoje, especialmente nesta guerra, é a luta do bem contra o mal”.

A reportagem é de Francesca Mannocchi, publicada por La Stampa, 13-03-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

A Academia Bnei David foi a primeira escola preparatória militar em Israel. Foi fundado em 1988 em Eli pelos dois rabinos Eli Sadan e Yi'gal Levinstein para encorajar jovens religiosos sionistas a assumirem postos de destaque no exército, num momento em que os militares assinalavam um declínio na motivação dos recrutas. Hoje é uma parte vital do assentamento, que tem mais rabinos por metro quadrado do que qualquer outro na Cisjordânia. Muitos dos professores, administradores e estudantes vivem em Eli, entre as caravanas dos colonos recém-chegados e grandes projetos de construção para a expansão da colônia onde vivem hoje um total de 4.500 pessoas.

Um dos fundadores, o rabino Eli Sadan é uma figura controversa em Israel: é considerado por muitos a figura mais importante e influente da comunidade religiosa sionista dos últimos trinta anos, e é visto pelos mais liberais como um religioso militarizado que forma seus alunos para aumentar o peso do sionismo religioso na política e no exército. É a ele que se deve o impacto que o sionismo religioso tem hoje no exército e o aumento das escolas pré-militares.

Nascido em Budapeste em 1948, Sadan, após se mudar para Israel, serviu na Brigada Paraquedista, estudou por 13 anos em Yeshivat Merkaz Harav e depois fundou a academia. A partir daí, ao longo dos anos, ele difundiu a sua influência. Embora o sionismo religioso, de fato, honrasse o serviço militar, os soldados que apoiavam o sionismo religioso raramente se tornavam oficiais: não só o Exército estava distante dessas posições, como poucos oficiais consideravam os rapazes da yeshiva aptos para subir no exército.

Sadan encontrou a fórmula: um ano preparatório que combinasse o estudo da religião com o treinamento psicológico e físico antes do recrutamento, para ajudar os soldados religiosos a se tornarem oficiais sem perder a identidade, ou seja, considerando o serviço militar como um grande mitzvá (mandamento judaico). “Servir no exército é um dever civil”, disse, “mas também um grande mitzvá da Torá”. No início, há 35 anos, Sadan ofereceu o seu plano a alguns formandos do ensino secundário, aos seus pais e às altas patentes do exército, que concordaram em adiar por um ano o serviço militar obrigatório dos recrutas interessados, ao mesmo tempo que financiavam o programa de estudos.

De todos os alunos da Academia Bnei David geralmente cerca de 500, cerca de 40% tornam-se oficiais ou ingressam em unidades de combate de elite, entre os ex-alunos estão o General Avi Bluth comandante das forças armadas da divisão Judeia-Samaria, ou seja, as forças de ocupação na Cisjordânia, os líderes das brigadas Givati e Efraim no norte do país e o ministro Bezalel Smotrich, muito próximo do rabino Sadan, que também ganhou o Prêmio Israel – a mais alta honraria civil do país – por sua contribuição à educação. Hoje em Israel existem mais de 50 escolas pré-militares, com um total de três mil alunos, de acordo com estudos acadêmicos nos últimos vinte anos o número de oficiais religiosos-sionistas no exército teve um enorme aumento e desde o início da guerra os pedidos de matrícula na escola multiplicaram-se e o peso do sionismo religioso no exército é cada vez mais significativo.

A Academia e a guerra em Gaza

Num vídeo de 2019, o diretor da escola, rabino Eliezer Kashtiel, falando dos palestinos, definiu-os como “geneticamente inferiores” considerando “necessário que fossem escravizados”.

O outro fundador da Academia, o rabino Yi'gal Levinstein, declarou no ano passado que os palestinos devem “sentir-se ameaçados antes mesmo de agir”. Apoiando a necessidade de continuar a construir assentamentos e expandir os existentes, disse “eles vão parar se construímos um novo assentamento após cada ataque terrorista e se suas famílias forem exiladas em Gaza."

Não tinha havido o massacre de 7 de outubro, a guerra em curso não tinha começado. Hoje, que as aulas preparam os soldados que irão combatê-la, o rabino Yishai Tzur tem as ideias muito claras: “Gaza é um símbolo para nós. Nos meus sonhos, todos os palestinos deveriam ir embora, ficaria muito feliz com isso, mas acho que eles não o farão". Ele aprendeu com os textos que Gaza “sempre foi um lugar difícil para os judeus, e essa – diz ele – é apenas a continuação de uma guerra que já dura alguns milhares de anos, que hoje é também uma guerra na qual Israel não deve discutir nem internamente nem com os seus aliados".

“Se começássemos a discutir se os nossos métodos são justos ou não, pararíamos. As coisas no exército, porém, devem ser muito claras. Existem mocinhos e bandidos. Se você é um dos mocinhos, você vence. Se, em vez disso, começarmos a nos questionar sobre tudo, sobre os civis, sobre a pobre gente de Gaza, sobre o que o mundo irá pensar, ficaremos paralisados e teremos de cuidar de dois milhões de pessoas. Em vez disso, temos que seguir em frente e vencer".

O ministro da Defesa, Yoav Gallant, visitou a academia na semana passada. Quinze ex- estudantes morreram em Gaza, e Gallant foi até Eli discutir com os jovens “a importância de equilibrar o serviço militar com as obrigações religiosas", diz uma nota de sua assessoria de imprensa.

Os estudantes da academia religiosa sionista, disse, são a prova de que “é possível manter uma arma em uma mão e um livro (de estudos judaicos) na outra". Disse a eles que Israel caçará o Hamas "em todo lado, em todo Israel e em todo o Médio Oriente" e que a guerra em Gaza é ao mesmo tempo o início e o fim de uma era, uma viagem que "nos guiará nos próximos anos e a maneira como viveremos no Oriente Médio." Lembrou aos estudantes que o estudo e a luta são dois âmbitos que garantem o futuro do Estado de Israel, e que em ambos há a garantia da sua proteção: “Penso que a fé e o estudo da Torá são um dos fundamentos mais importantes do povo de Israel, e quando vejo isso acontecer junto com semelhantes excelências no campo de batalha, quero dizer-lhe que, como ministro, estou orgulhoso de que existam soldados como vocês nas FDI".

O rabino Yishai Tzur afirma que a guerra em Gaza, o número de vítimas civis, as críticas que circulam em torno da crise humanitária em curso na Faixa, não geraram novas perguntas nos seus estudantes. Nenhum questionamento. Para ele, e é isso que ensina aos alunos da Academia que irão para o front, não é preciso se perguntar sobre o destino dos civis, nem muito sobre o direito internacional. “Quando os estadunidenses derrotaram os japoneses, fizeram algo novo”, diz, evocando a Segunda Guerra Mundial, a bomba atômica, Hiroshima e Nagasaki. "Durante a guerra, coisas terríveis acontecem. É difícil para nós bombardear, matar, saber que podem morrer fome. Mas o que vejo é que Israel está assumindo o controle e temos que seguir em frente”.

A influência do sionismo religioso nas forças armadas tem muito a ver com o destino de Gaza. Na retirada da Faixa em 2005, os militares evitaram enviar tropas de soldados sionistas religiosos porque consideraram que provavelmente teriam se recusado a remover os assentamentos judaicos. E não há dúvida de que a retirada foi uma razão importante para a radicalização de uma parte do movimento dos colonos, ao qual se reportam os estudantes de escolas de preparação militar como a de Eli.

Já na guerra de 2008-2009 em Gaza, circulavam entre as tropas panfletos rabínicos nos quais se dizia que "nem um milímetro" de terra deveria ser cedido e que a batalha por vezes exigia crueldade para com o inimigo. Foi assim também na guerra de Gaza em 2014, quando numa ordem para a brigada Givati, uma unidade de infantaria de elite, o coronel Ofer Winter escreveu: “A história escolheu-nos para liderar a luta contra o terrorista inimigo de Gaza que amaldiçoa, difama e abomina o Deus de Israel", uma carta que, conforme relatado por uma matéria da Reuters, se concluía com uma citação bíblica que promete proteção divina aos guerreiros de Israel no campo de batalha.

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