“Aqueles jovens tão cheios de narcisismo que não toleram uma rejeição”. Entrevista com Massimo Recalcati

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28 Novembro 2023

"Desde sempre os homens que odeiam as mulheres são homens que não suportam a liberdade delas A ideologia do patriarcado baseou-se nesse princípio repressivo básico: negar sistematicamente a liberdade das mulheres. Não por acaso Adorno e Horkheimer assimilaram a liberdade das mulheres à liberdade do judeu. Há algo de insuportável, de intolerável em ambos. São o reprimido do Ocidente. Para esta geração específica de homens o problema tornou-se mais complicado, pelo menos num aspecto, porque reconhecer que não se é tudo para o outro é uma ferida narcisista insuportável. Mas não devemos esquecer que no fundo de cada narcisista existe a escuridão da depressão. Não é tanto a inveja que levou Filippo a matar, mas a ruptura de um vínculo que para ele constituía a única salvação possível da escuridão da depressão. Uma ruptura que ocorre em duas etapas: a primeira é aquela em que Giulia declara o fim de seu amor; a segunda, quando está prestes a defender a sua tese de graduação. São duas rupturas irreversíveis infligidas ao ideal do casal simbiótico", diz Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pávia e Verona.

A entrevista é de Maria Novella De Luca, publicada por La Repubblica, 26-11-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Professor, para tentar entender o que pode ter armado a mão do jovem Filippo Turetta, falamos muitas vezes nos últimos dias do “legado do patriarcado”. Ou seria mais correto falar daquela ferida narcísica que muitas vezes você mencionou para descrever o mal-estar dos nossos adolescentes e pós-adolescentes?

O mito do nosso tempo é o do sucesso individual. É um novo imperativo que torna impossível a experiência do fracasso. Quem corre devagar ou quem cai é tirado do páreo. Trata-se de um verdadeiro culto à performance e ao perfeccionismo. Sofrer a rejeição de uma garota significa reconhecer os próprios limites, que não é possível ser tudo ou ter tudo. Significa aceitar uma derrota das próprias aspirações. Por essa razão, às vezes o recurso à violência substitui a dolorosa constatação da própria insuficiência. É uma tendência do nosso tempo: rejeitar o obstáculo, a perda, o fracasso, a dor.

Podemos tentar explicar o que se entende quando falamos do narcisismo desta geração? É realmente o seu mal-estar?

O narcisismo dos filhos é sempre um produto daquele dos pais. Hoje uma das angústias mais difundidas entre os pais é proteger os filhos do risco de fracasso e de queda.

Isso não ajuda os filhos a assumirem a responsabilidade pelas suas palavras e ações. E, sobretudo, a compreender que é justamente através da queda e do fracasso que a vida dos nossos filhos adquire uma forma efetiva. São os adultos os responsáveis ​​por não transmitir aos seus filhos o sentido da lei, ou seja, que não se pode ser tudo, ter tudo, saber tudo, fazer tudo...

Quanto o espelho das redes sociais influencia em empurrá-los para o confronto exasperado e provocando também depressões e frustrações?

O mundo das mídias sociais nos seus aspectos mais patológicos exalta o perfeccionismo e o princípio da performance.

Naquele lugar não há nenhuma possibilidade de experiência da queda e da solidão. Tudo deve parecer perfeito. Até a eventual queda em alguns casos se torna uma forma de arrecadar curtidas... É uma virtualidade narcisista onde tudo deve parecer ideal.

Qual poderia ser o mecanismo que desencadeia na cabeça de um jovem de 22 anos que mata a namorada, melhor nos estudos, mais segura, agarrando-se à própria fragilidade para não ser deixado? A incapacidade desta geração de homens de aceitar a força das mulheres?

Não apenas dos homens de hoje. Desde sempre os homens que odeiam as mulheres são homens que não suportam a liberdade delas A ideologia do patriarcado baseou-se nesse princípio repressivo básico: negar sistematicamente a liberdade das mulheres. Não por acaso Adorno e Horkheimer assimilaram a liberdade das mulheres à liberdade do judeu. Há algo de insuportável, de intolerável em ambos. São o reprimido do Ocidente. Para esta geração específica de homens o problema tornou-se mais complicado, pelo menos num aspecto, porque reconhecer que não se é tudo para o outro é uma ferida narcisista insuportável. Mas não devemos esquecer que no fundo de cada narcisista existe a escuridão da depressão. Não é tanto a inveja que levou Filippo a matar, mas a ruptura de um vínculo que para ele constituía a única salvação possível da escuridão da depressão. Uma ruptura que ocorre em duas etapas: a primeira é aquela em que Giulia declara o fim de seu amor; a segunda, quando está prestes a defender a sua tese de graduação. São duas rupturas irreversíveis infligidas ao ideal do casal simbiótico.

Como os adultos podem se aperceber e prevenir tragédias que nascem da ferida narcisista?

Certamente não terá sucesso introduzir nas escolas uma hora de educação afetiva, sexual ou sentimental... O respeito pelo outro e, em particular, pelas mulheres não é uma matéria específica como a química ou a literatura. Seria como pensar que uma hora de educação cívica por semana é suficiente para formar bons cidadãos. A cultura do respeito pela diferença ocorre antes de tudo nas famílias e na Escola. A família e a Escola são os dois principais educadores com a tarefa de alimentar nas nossas crianças a cultura do respeito pela diferença: o testemunho do lado familiar de que podem existir relações inspiradas no cuidado e no acolhimento e a cultura do lado escolar como antídoto contra a violência.

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