Assembleia dos bispos dos EUA revela que a Igreja local está sem vida

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18 Novembro 2023

A assembleia deste ano da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos não foi igual a nenhuma outra. Havia muito pouco de interessante nas deliberações do órgão. Em seu conjunto, a reunião demonstrou a condição esclerótica que a hierarquia dos Estados Unidos criou para si mesma. Isso é muito ruim?

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado em National Catholic Reporter, 17-11-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não é todo dia que um ex-general se intromete na política interna da Igreja Católica. Mas, se você precisava de mais alguma confirmação de que existe um grupo dentro da Igreja que está completamente desequilibrado, todas as evidências necessárias vieram em um tuíte esta semana de Michael Flynn, conselheiro de segurança nacional de Donald Trump e antigo teórico conspiracionista, pedindo que o infortunado ex-núncio e arcebispo Carlo Maria Viganò e o bispo deposto Joseph Strickland “DEFENDESSEM SEUS ESPAÇOS!!!”.

O mundo MAGA [“Make America Great Again”, slogan da campanha de Trump] não se contentou em invadir o Capitólio dos Estados Unidos. Ele invadiu o campo do sagrado e contaminou o templo. Aqueles de nós que assinam embaixo da eclesiologia “aí vem todo mundo” de James Joyce entendem que a Igreja Católica inclui uma série de disposições culturais, classes sociais, e atitudes intelectuais e morais. Mas é assustador que a qualidade brutal e desequilibrada da esfera MAGA tenha se tornado pronunciada em uma Igreja que se autodenomina “una, santa, católica e apostólica”. Qualquer que seja a esfera MAGA, ela não é santa, católica ou apostólica. Os protestos de Flynn e afins não são notas da Igreja.

Eu vi Strickland no bar local no domingo à noite. Eu o tenho visto todos os dias no lobby do hotel onde ele está hospedado. Ele foi visto do lado de fora rezando o terço com alguns seguidores na terça-feira.

O que eu não vi? Strickland conversando com um irmão bispo. Ele se isolou do corpo dos bispos. Ele é a antítese ambulante da colegialidade episcopal. Ele se exilou e não tem ninguém para culpar além de si mesmo por seu isolamento.

O isolamento é o oposto da comunhão. O horror da morte é o medo da solidão absoluta, da perda do compromisso. Coloque uma cobra em um túmulo, e os mortos não fugirão. Quando Jesus ressuscitou dos mortos, ele falou com quem se encontrou, caminhou com os discípulos rumo a Emaús, comeu um pedaço de peixe, partiu o pão, relacionou-se. Ele prometeu que, muito embora todos devamos morrer sozinhos, não morreremos na solidão.

E lá estava Strickland, totalmente sozinho.

Os bispos falaram sobre seu reavivamento eucarístico. O núncio, cardeal Christophe Pierre, até ligou esse reavivamento com a adoção contínua da sinodalidade na vida da Igreja.

“O que Jesus faz com os discípulos no caminho de Emaús é precisamente o caminho sinodal em seus elementos essenciais: encontrar, acompanhar, escutar, discernir e alegrar-se com o que o Espírito Santo revela”, disse o cardeal aos bispos em seu discurso.

“Como resultado desse processo, as mentes dos discípulos se iluminaram, seus corações se incendiaram e, então, ao partir o pão, puderam ver o que tinham perdido: Jesus estava vivo e com eles!”

Muitos dos que estavam ouvindo não tinham ouvidos para ouvir. É a principal característica do nosso tempo. Tanto a esquerda quanto a direita se apegam às suas ortodoxias, que têm pouco a ver com o que os católicos entendem por “ortodoxo”.

A nossa fé, a nossa fé ortodoxa, exige que nos envolvamos com este mundo confuso, confiantes na missão de proclamar a fé: “Jesus está vivo e conosco”. O núncio citou São João da Cruz:

“Para chegar ao conhecimento que você não tem, você deve seguir um caminho que não conhece. Para chegar à posse do que você não possui, você deve seguir um caminho em que não possui. Para vir a ser o que você não é, você deve seguir um caminho em que você não é.”

Só aqueles que acham que não têm nada a aprender com Deus, que já possuem a verdade como se fosse um bem privado, que não têm mais nada a aprender com a vida, somente essas pessoas poderiam ficar indiferentes às palavras do núncio. Quantos bispos permaneceram indiferentes?

Há outra palavra para aqueles que não têm nada a aprender, nada a se tornar: mortos.

A Conferência dos Bispos dos Estados Unidos não está morta, mas parece sem vida. O reavivamento eucarístico é discutido como se a Eucaristia fosse um substantivo, e não um verbo.

Quando o bispo Daniel Flores, de Brownsville, Texas, apresentou seu relatório sobre o Sínodo recentemente concluído em Roma, não houve uma única pergunta dos bispos.

Os bispos, sem nenhum debate, adotaram uma nova carta introdutória ao documento Faithful Citizenship[sobre a relação dos cristãos e cristãs com a política], acrescentando mais um texto à lista de documentos que ninguém vai ler. Os bispos votaram esmagadoramente para aprovar um novo rito para a consagração das virgens.

Há um vislumbre de diferença entre estar morto e estar sem vida. Esse vislumbre foi fornecido por Ivonn Rivera, líder comunitária da Diocese de San Jose, Califórnia. Rivera recebeu o prêmio Cardeal Bernardin de Novas Lideranças da Catholic Campaign for Human Development.

Ela falou de forma comovedora sobre seu trabalho como organizadora comunitária, pressionando as autoridades municipais para instalarem calçadas e placas de “Pare” em um bairro pobre, para que as crianças não fossem atropeladas pelos carros enquanto caminhavam para a escola. Rivera também ajudou a iniciar as Misas del barrio para levar a Eucaristia às pessoas afetadas por todas as patologias da pobreza urbana. Ela chorou ao apresentar sua filha.

Na obra de Rivera, o Evangelho é evangelizador, busca a justiça, está vivo. A cerimônia em homenagem a Rivera e seu trabalho foi um raio de esperança.

Houve um tempo em que as assembleias da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos tinham consequências, quando os bispos, como um corpo, se envolviam com a sociedade e a cultura. Ainda pode haver um tempo assim de novo. Esse tempo ainda não está previsto.

Neste emocionante papado do Papa Francisco, a ausência de tal envolvimento é surpreendente, e não no bom sentido.

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