Cardeal Pironio. Um novo beato para a Argentina

Dom Eduardo Francisco Pironio (Fonte: Reprodução/Youtube)

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10 Novembro 2023

Atribui-se a Pironio um milagre relativo à doença de uma criança de apenas um ano e meio: o pequeno Juan Manuel foi curado depois que seus pais rezaram por intercessão do cardeal.

A reportagem é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 09-11-2023. A tradução é do Cepat.

A Argentina contará com um novo beato, o cardeal e Venerável Servo de Deus, Eduardo Francisco Pironio (1920-1998), graças a um milagre que foi certificado pelo Dicastério para as Causas dos Santos e aprovado pelo Papa Francisco, de acordo com o que foi anunciado nesta quarta-feira pela assessoria de imprensa da Santa Sé.

Atribui-se a ele o milagre realizado na Argentina relativo à doença de uma criança de apenas um ano e meio, Juan Manuel, curada em dezembro de 2006, depois que seus pais rezaram durante vários dias ao cardeal Pironio após lerem um panfleto com seu testamento espiritual divulgado pelo pároco.

A criança tinha sido envenenada ao inalar acidentalmente purpurina – substância com metais que às vezes é usada para decorar objetos – de um recipiente. O menino, com graves problemas respiratórios, foi internado com urgência e ficou vários dias em coma até ser finalmente curado sem que os médicos pudessem dar explicações científicas sobre a recuperação e nem os médicos do Vaticano que estudaram o caso para verificar o milagre.

A vida do cardeal

Nascido na localidade de 9 de Julio, província de Buenos Aires, em 1920, o cardeal Pironio foi ordenado sacerdote em 1943. Em 1964 foi ordenado bispo e nomeado bispo auxiliar de La Plata e assim participou de várias sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965), que produziu muitas mudanças na Igreja. Foi também bispo de Mar del Plata (1972-1975) e reitor do Seminário Villa Devoto de Buenos Aires e decano da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica da Argentina.

Sua carreira foi caracterizada pela participação ativa nas conferências do Episcopado Latino-Americano realizadas em Medellín (Colômbia, 1968), Puebla (México, 1979) e Santo Domingo (República Dominicana, 1992). Mas também no CELAM, Conselho Episcopal Latino-Americano, do qual foi secretário geral e depois presidente (1972-1974).

Mas também passou parte da sua carreira em Roma, para onde foi convocado pelo Papa Paulo VI em 1975. Na Argentina, vivia-se uma situação de extrema tensão devido à atuação dos grupos paramilitares dos Três A's (Aliança Anticomunista Argentina) durante o governo de Isabelita Perón e seu ministro de Bem-Estar Social José Lopez Rega, de direita. E Pironio aparentemente não era uma pessoa bem-quista pela Tríplice A.

Em 1976, Paulo VI criou-o cardeal e em 1976 nomeou-o prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica do Vaticano. João Paulo II nomeou-o em 1984 presidente do Pontifício Conselho para os Leigos.

Além disso, o cardeal Pironio, e poucos sabem disso, é responsável pela criação da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), um evento global que acontece a cada dois ou três anos e reúne jovens católicos de todo o mundo e o Papa. A tal ponto que Vatican News, a agência de notícias do Vaticano, ao dar a notícia nesta quarta-feira, intitulou o seu artigo sobre Pironio da seguinte forma: “O cardeal argentino que promoveu e arquitetou a JMJ será beatificado”. A última JMJ realizou-se em Lisboa no mês de agosto passado.

Existem hoje 16 beatos argentinos, 9 dos quais foram proclamados pelo Papa Francisco. Entre eles, além de Pironio, estão o mapuche Ceferino Namuncurá e o bispo Enrique Angelelli, assassinado pela ditadura argentina em um planejado “acidente” de carro em 1976.

O beato cardeal morreu no Vaticano em 1998 de câncer de próstata. Os seus restos mortais foram transladados para o Santuário de Nossa Senhora de Luján, na Argentina, onde foi batizado e recebeu a ordenação episcopal e onde, segundo fontes do Vaticano, acontecerá a cerimônia de beatificação ainda antes do final deste ano.

Em 2006, durante o pontificado de Bento XVI, foi declarado “Servo de Deus” pela Igreja, o que permitiu iniciar o processo de canonização que envolve outras três etapas: Venerável, Beato e Santo. Os dois últimos exigem a demonstração de um milagre realizado pela pessoa em questão.

O beato Pironio e a Teologia da Libertação

Boa parte da Igreja considera os filósofos argentinos Enrique Dussel – falecido há poucos dias – e Juan Carlos Scannone – falecido em 2019 – os pais da Filosofia da Libertação.

Foi Scannone quem, ao distinguir quatro correntes dentro da Teologia da Libertação que surgiu entre os anos 1960-1970, atribuiu uma ao próprio Pironio “baseada na experiência pastoral”. Esta corrente “buscava a unidade do povo, embora não do ponto de vista político, mas espiritual e eclesial, buscava a libertação, mas não a partir da luta de classes ou do enfrentamento ideológico”, explicou ao Página/12 a teóloga argentina Emilce Cuda, atual secretária de Estado da Pontifícia Comissão para a América Latina da Santa Sé.

Outra corrente famosa da Teologia da Libertação foi a do peruano Gustavo Gutiérrez, amplamente difundida na América Latina na década de 1970 e “baseada sobretudo na experiência histórica”, segundo Scannone.

A corrente teológica atribuída a Pironio “não era menos defensora dos oprimidos, dos pobres e dos trabalhadores do que as outras três”, sublinhou Cuda. “Poucos sabem que Pironio, defensor dessa parte do povo que são os pobres, foi o inspirador da Jornada Mundial da Juventude”, lembrou a teóloga, acrescentando que foi também “um extraordinário secretário e posteriormente presidente do CELAM. Durante a sua gestão [como secretário-geral] foi realizada a Conferência de Medellín, que foi uma tentativa de colocar em prática os ensinamentos do Concílio Vaticano II adaptados à América Latina. De fato, Medellín preparou uma série de documentos muito importantes sobre a paz, sobre a justiça, que traduziram os ensinamentos do Concílio Vaticano II para a realidade latino-americana”.

“O cardeal Pironio foi um homem de grande espiritualidade e um grande amigo de Paulo VI”, concluiu.

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