“Um homem livre, manso, mas firme, que a Igreja não compreendeu”. Entrevista com Enzo Bianchi

Foto: Monsenhor Luigi Bettazzi | Reprodução

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18 Julho 2023

Na última noite, no castelo episcopal de Albiano, na Serra di Ivrea, D. Bettazzi foi velado pelo bispo de Biella, D. Farinella e por Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose. Durante a noite chegou também o atual bispo de Ivrea, D. Edoardo Cerrato.

A entrevista é de Paolo Griseri, publicada por La Stampa, 17-07-2023.

Eis a entrevista.

Bianchi, como foram as últimas horas de Bettazzi?

Dom Bettazzi morreu serenamente. Podemos dizer que sua forma de morrer foi a última mensagem de paz de sua vida. Foi a epifania de um homem que sempre foi de paz, sem rancores e sem nostalgias, seguro da sua mensagem.

Quais foram suas últimas palavras?

Ele não falava mais. Mas entendia. Ele assentiu quando o bispo de Biella leu as bem-aventuranças. Escutou com atenção quando li para ele as orações dos moribundos. Ele estava lúcido e consciente de que seu destino estava se cumprindo.

Qual é a sua herança espiritual?

É a herança do Concílio Vaticano do qual participou. A escolha dos pobres, o empenho pela paz, claro. Mas acima de tudo a liberdade do debate na Igreja.

Mensagem difícil de aplicar…

Deixe-me ser claro: nenhum dos pontífices jamais questionou os ensinamentos do Concílio. Digamos que João Paulo II e em parte Bento XVI apresentaram interpretações restritivas daquela mensagem. Não tanto sobre os temas da pobreza e da paz (basta pensar no que João Paulo II fez pela paz no Golfo) quanto à questão da liberdade do debate na Igreja.

Bettazzi pagou por sua ideia de liberdade na Igreja?

Certamente. Pagou porque seus méritos não foram reconhecidos dentro da Igreja.

Quem não os reconheceu?

Bem, há uma burocracia em Roma que segura até as mensagens que vêm dos Papas. Acontece também hoje com Francisco. Veremos agora se o sínodo que se abre em outubro superará esse problema.

O que se criticava de Bettazzi?

Imagino a sua franqueza, a sua liberdade de pensamento nem sempre alinhada com aquela dos bispos italianos. É impressionante que um homem que viveu uma vida cristã, um homem manso, mas firme, certamente não um herege revolucionário, que vivia na pobreza em um castelo em ruínas na diocese de Ivrea, tenha sofrido essa marginalização.

Qual era a sua relação com a Comunidade Bose?

Ele nos incentivou desde o início. E não era fácil. Em meados dos anos 1960, quando não tínhamos nenhuma aprovação do bispo de Biella que nos excluía, ele vinha nos visitar e conversar conosco.

E nos anos mais recentes, os da crise da Comunidade?

Ele sempre procurou com empenho uma reconciliação. Posso dizer que foi, juntamente com o Cardeal Martini, o bispo mais próximo de nós. E mesmo durante os dois anos de meu exílio em Turim ele vinha almoçar em minha casa. Ele sempre foi uma grande ajuda para a nossa comunidade.

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