Papa Francisco e a missão de paz. No Vaticano o número 2 do Patriarca de Moscou: o que está acontecendo

O metropolita Antonij de Volokolamsk, presidente do Departamento para as Relações Eclesiásticas Externas do Patriarcado de Moscou, esteve presente nesta quarta-feira na Praça de São Pedro. (Foto: Reprodução | Vatican Media)

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04 Mai 2023

Contudo, algo se move. Depois de resumir aos fiéis o objetivo de sua viagem à Hungria e a necessidade de "criar pontes" para a paz, esta manhã, ao final da audiência geral na Praça São Pedro, o Papa Francisco foi o primeiro a cumprimentar, trocando breves frases e acolhendo-o com afeto o metropolita russo Antonij, 'ministro de Assuntos Estrangeiros' do Patriarcado de Moscou.

Antonij está há alguns dias na Itália e ontem teve uma troca de ideias com o arcebispo Claudio Gugerotti, prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais, entre os membros da delegação que acompanhou o Papa durante sua viagem a Budapeste. Nada vazou até agora, mas sua presença é significativa. No site do Patriarcado, Antonij explicou que conversou com Gugerotti sobre vários assuntos (sem especificar se havia ou não a questão da missão papal) e sem oferecer nenhum outro detalhe.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada por Il Messaggero, 03-05-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Alguns dias atrás a conversa com Hilarion

O encontro no Vaticano ocorre quatro dias depois da conversa em Budapeste entre o Pontífice e o metropolita Hilarion, predecessor de Antonij. Aos fiéis reunidos na Praça São Pedro esta manhã para a audiência, Bergoglio pediu novamente rezar todos os dias pela paz no mundo e pelo fim da guerra. “Eu também vos peço: rezais o rosário pela paz. Maria, Mãe de Jesus e nossa, que nos ajude a construir caminhos de encontro e trilhas de diálogo e nos dê a coragem de percorrê-los sem demora”. Um apelo que se relaciona com o que também foi invocado em Budapeste, durante a missa final da sua viagem, para os povos ucraniano e russo, pouco antes de retornar a Roma e fazer o anúncio de uma missão de paz em curso.

Um anúncio que pegou a todos de surpresa. “Sabe-se que o Vaticano pretende trabalhar para alcançar um acordo de paz, mas cabe a eles dizer o que estão fazendo. Não está muito claro quais são os contatos em andamento entre a diplomacia vaticana e aquelas russa e ucraniana. Para nós, toda iniciativa em favor da paz é positiva, o importante é que se alcance uma paz justa”, comentou esta manhã o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, no Agorà, a respeito das palavras que o Papa Francisco confiou aos jornalistas no voo. “Não tínhamos nenhuma informação, mas sabia-se que o Vaticano estava trabalhando para encontrar soluções positivas”, acrescentou Tajani.

O enigma da missão diplomática

De fato, a missão diplomática anunciada pelo Papa para deter a guerra pareceu encalhar antes mesmo de ver a luz. "O presidente Zelensky não autorizou nenhuma discussão desse tipo em nome da Ucrânia". O gabinete presidencial tinha confiado à CNN a seguinte mensagem: “Se as conversações estão em curso, estão acontecendo sem o nosso conhecimento e sem a nossa bênção. Não temos conhecimento." Pouco depois, o porta-voz Dmitry Peskov também informou do Kremlin que Moscou não tinha conhecimento de nenhuma iniciativa: "Não, não sabemos de nada".

E assim se manifestou também Maria Zakharaova, porta-voz da diplomacia russa: "Até o momento, o lado russo não recebeu do Vaticano propostas ou planos específicos para uma solução pacífica para a crise ucraniana. Não temos nada desse tipo. Não temos detalhes sobre a iniciativa do Papa Francisco recentemente mencionada pela mídia ocidental”.

Em poucas horas, o projeto papal de deter as armas transformou-se em um enigma geopolítico, fazendo com que as chancelarias dos países envolvidos quebrassem a cabeça para entender seus contornos e fundamentações. Contudo, as palavras do Papa dificilmente poderiam ser mal interpretadas. “Uma missão está em andamento, mas ainda não é pública. Veremos... Quando for pública, falarei a respeito", explicou ele no voo de volta Budapeste-Roma. É uma pena, porém, que ninguém naquele momento (nem mesmo na sua comitiva) soubesse disso, pelo menos segundo os rumores, enquanto não faltaram reações em cadeia dos beligerantes

A surpresa também pegou o Metropolita Hilarion que em seu site oficial, sentindo-se envolvido, se precaveu. “Apareceram na imprensa insinuações segundo as quais teria me encontrado com o Papa Francisco para lhe dar informações para chegar a alguns acordos secretos ou para outros fins políticos. Respondo aos interessados: não houve nada sobre as relações bilaterais entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Russa. Nenhuma questão política foi discutida. O encontro foi de natureza pessoal entre dois velhos amigos”.

Hilarion ilustrava depois a relação de longa data, de natureza ecumênica, que mantém com a comitiva da Santa Sé e com o próprio Papa, com quem se encontrou várias vezes no passado. Na missa de encerramento de sua visita a Budapeste, no domingo, o Papa havia pedido aos húngaros que rezassem pelo povo russo e pelo " martirizado povo ucraniano", colocando-os praticamente no mesmo plano, como fez em outras ocasiões, visto que o sofrimento e a dor das mães que perdem os filhos em combate devem ser vistos com os olhos da piedade e da misericórdia. Além disso, o Papa Francisco repetiu - talvez pela décima vez - que está pronto para fazer o que for necessário para facilitar o diálogo, para tentar atar os fios, para recomeçar a ter esperança. Nas suas palavras referiu-se a uma “missão diplomática” e não tanto a um plano de paz, algo bem diferente e que em situações semelhantes já foi posto em prática pelos seus antecessores.

No Vaticano, explicam que o que Francisco está imaginando é provavelmente uma iniciativa já experimentada por João Paulo II para evitar que em 2003 eclodisse um conflito que estava destinado a revolver para sempre a vida do Oriente Médio. Wojtyla fez uma última tentativa ao enviar o cardeal Roger Etchegaray a Bagdá para falar com Saddam e o cardeal Pio Laghi a Washington. A missão de Laghi foi praticamente impedida, ele foi obrigado a passar horas de espera inútil. Etchegaray, no entanto, se encontrou com Saddam.

O então núncio apostólico em Bagdá, cardeal Fernando Filoni, recorda que Saddam estava “disposto a negociar, mas sem humilhações, que podiam pedir e eles discutiriam. Saddam aprovou assim uma lei contra as armas de destruição em massa em 48 horas, por meio do Conselho dos Sábios das Tribos e efetivamente baniu essas armas (que, aliás, ele não possuía). Como se vê, iniciativas foram tomadas, mas a ideia de guerra prevaleceu sobre tudo”. Para Kiev e Moscou, talvez poderiam ser encarregados os dois principais especialistas em política externa, o cardeal Parolin e o arcebispo Gallagher, ou mesmo monsenhor Claudio Gugerotti, que conhece bem tanto o russo como o ucraniano, embora no momento tudo ainda seja demasiado fluido para fazer previsões (mesmo para o Vaticano).

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