“Devemos sair da lei do silêncio sobre os abusos espirituais”. Entrevista com Yves Hamant

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23 Março 2023

As duas investigações históricas recentes sobre os irmãos Thomas e Marie-Dominique Philippe permitiram revelar os mecanismos do abuso espiritual que precedem os abusos sexuais. Há dez anos, Yves Hamant investiga e denuncia esse fenômeno nas comunidades religiosas.

Especialista em civilização russa, soviética e pós-soviética, Yves Hamant foi adido cultural da Embaixada da França na URSS e professor da Universidade de Nanterre. Seu compromisso com os cristãos da URSS valeu-lhe várias vezes ser recebido por João Paulo II e conquistar a amizade do cardeal Lustiger. Ele é conhecido por suas ligações com Alexander Solzhenitsyn e devemos a ele uma biografia do padre Alexander Men, padre da Igreja Ortodoxa Russa assassinado em 1990.

Yves Hamant foi o convidado por videoconferência da assembleia geral do grupo Apoio a Pessoas Abusadas por Padres da Igreja Católica (SAPEC) que aconteceu no dia 16 de março de 2023 em Lausanne.

A entrevista é de Maurice Page, publicada por Cath.ch, 19-03-2023. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como você se interessou por essa questão do abuso espiritual?

Um membro da minha família estava envolvido na Associação Points-Coeur fundada por Thierry de Roucy (demitido do estado clerical em 2018, nota do editor). Foi uma experiência dolorosa, cujas sequelas fui descobrindo. Senti então o dever de fazer alguma coisa. Uma coisa leva à outra, fui recebendo outros testemunhos e em 2013, com um grupo de somente algumas pessoas, lançamos o “Apelo de Lourdes” à Conferência dos Bispos da França (CEF). Em 2015, a CEF montou uma célula para as derivas sectárias com a qual mantemos contato. Concentrei-me nos abusos espirituais nas comunidades, embora também possam existir no nível individual.

Como avalia o progresso feito desde então?

As recentes revelações, em particular sobre os irmãos Philippe, significam que começamos a admitir que isso existe e a mensurá-lo. Mas a consciência ainda me parece insuficiente tanto no clero como na comunidade dos fiéis.

Abuso de consciência, abuso espiritual, influência, deriva sectária... vários termos são usados. Pode nos esclarecer um pouco as coisas?

O termo abuso espiritual se impôs por analogia com o termo abuso sexual. No entanto, quando se trata de abuso sexual, imediatamente entendemos que é algo errado. O abuso espiritual, pelo contrário, é uma realidade complexa que às vezes é bastante difícil de entender. A fonte psicológica do abuso é a influência que também pode ser encontrada fora de um contexto religioso.

Os abusos espirituais seriam mais difundidos e mais frequentes do que os abusos sexuais?

É difícil mensurar, mas várias fontes do Vaticano e da CEF confirmam esse sentimento. Frequentemente, como no caso dos abusos sexuais, as vítimas não se manifestam senão muito tempo depois. Elas têm vergonha de terem sido enganadas, mas, acima de tudo, precisam romper os laços pessoais e afetivos que possam ter se formado com a comunidade.

Como caracterizar a influência?

É o confisco total da própria vontade, a privação da liberdade pessoal e a captura da relação pessoal com Deus. É este último aspecto que distingue a influência em um contexto religioso. E isso é o mais prejudicial. As vítimas muitas vezes experimentam a maior dificuldade para se reconectar com Deus.

O fenômeno é progressivo. Ele joga com a sedução, depois com a graça e a desgraça. Os abusadores sabem como identificar suas presas e usar suas falhas e aspirações. É um jogo de gato e rato. Os jovens que se envolvem nestas comunidades têm uma grande sede de ideais, querem comprometer-se a serviço de Deus com toda a generosidade da sua pessoa.

Como identificar a influência?

Para quem vem de fora é muito difícil. Os “gurus” mostram uma dupla face. Detectar sua perversidade é difícil, quando não impossível. O exemplo recente de Jean Vanier demonstra-o perfeitamente. Muita gente não acreditou e defendeu de boa fé, até que prevaleceu a evidência dos fatos. Ou como disse a filósofa Hannah Arendt: “As pessoas se recusam a acreditar que tudo é possível”. Visto de fora, o caso Santier, em que um padre consegue que seus penitentes se desnudem completamente diante do Santíssimo Sacramento, parece uma aberração total.

Podemos enumerar alguns critérios de discernimento?

Em 2014, a Irmã Chantal-Marie Sorlin havia estabelecido para o escritório de derivas sectárias da Conferência dos Religiosos e Religiosas da França (CORREF) uma grade para identificar derivas sectárias dentro das instituições da Igreja. A lista que ela fez continua sendo uma excelente referência. Além do abuso de consciência ou do culto do fundador, evoca também a relação com a pobreza, a gestão fraudulenta de doações, a exploração da força de trabalho dos membros, a colocação em perigo da saúde, etc.

Como as autoridades da Igreja podem reagir para prevenir e punir?

Uma das primeiras medidas seria reforçar as visitas canônicas. Muitas vezes são espetáculos onde colocamos os pratos pequenos dentro dos grandes para agradar os visitantes, onde as respostas às suas perguntas são preparadas e repetidas. E onde os visitantes se contentam com palavras de encorajamento muito genéricas.

Uma verdadeira investigação canônica requer condições rigorosas. Ela deve poder ocorrer sem aviso prévio, possibilitar o encontro de todos os membros da comunidade por um período de tempo suficiente, se possível em um local neutro, ser conduzida por pessoas especificamente formadas e que não vêm de comunidades disfuncionais. Deve-se tomar cuidado para garantir a independência dos investigadores, a fim de evitar possíveis conflitos de lealdade ou interesse.

Outra lacuna é a falta de entrevistas com pessoas que deixaram a comunidade e as famílias dos membros, sabendo que algumas famílias preferem não falar do que correr o risco de se isolarem dos seus. Não acredito em células de escuta montadas pelas próprias comunidades.

E as sanções?

Na maioria das vezes vemos medidas paliativas. Recentemente, fiquei chocado ao saber que um padre envolvido em casos de abusos sexuais em um internato na década de 1990 poderia agora se tornar o número 2 da sua comunidade. Creio que falta vontade para punir os abusos.

Em alguns casos, a autoridade eclesial chegou ao ponto de dissolver comunidades.

Quando me deparei com esses problemas em 2013, consultei o cardeal suíço Georges Cottier, ex-teólogo da Casa Pontifícia. Ele não excluiu a dissolução como uma possibilidade. Obviamente, isso requer o fornecimento de suporte adequado. No entanto, atualmente esses dispositivos não existem. As pessoas que saem foram infantilizadas, dessocializadas, privadas de sua capacidade de decisão. Elas podem encontrar-se sem dinheiro, sem moradia, sem trabalho, ignorantes dos seus direitos.

Sem falar no necessário apoio moral e psicológico que podem não encontrar nas famílias, seja porque as pontes foram cortadas, seja porque as famílias as repreendem por terem abandonado a vocação.

Como ferramenta de prevenção, você menciona a possibilidade de criar um ‘arquivo S’ das comunidades, como esse que foi criado na França para terroristas?

Listar as comunidades problemáticas em um arquivo pode ser uma ferramenta útil para os bispos quando se deparam com um pedido de criação de uma comunidade ou para os responsáveis vocacionais responsáveis pela orientação dos jovens. Há alguns anos, o novo bispo de Blois estava prestes a receber uma comunidade. Felizmente, os amigos conseguiram avisá-lo a tempo e a implantação da comunidade não se concretizou.

A publicidade das investigações e possíveis sanções seria outra medida necessária.

Ainda que remonte ao final dos anos 1950, o caso dos irmãos Philippe é emblemático. A falta de publicidade das sanções permitiu que continuassem a agir por décadas.

Em casos recentes, a ausência de publicidade não é menos flagrante. Muitas vezes, só conhecemos as sentenças graças a vazamentos. No caso do grupo Points Coeur, que acompanhei de perto, praticamente nenhum material investigativo foi publicado. Devemos sair da lei do silêncio. Do contrário, a justiça eclesial perde seu objetivo, que é prevenir e curar.

Constata-se também com frequência uma ligação entre o abuso espiritual e a deriva doutrinária.

Não sou teólogo nem filósofo, mas se percebe cavando um pouco que muitas vezes há na origem uma falha teológica. O problema é que essas teorias desviantes não são escritas. Voltando aos irmãos Philippe, elas não aparecem em seus escritos, mas foram transmitidas oralmente ou em cartas particulares.

Pode-se ver aí uma tendência gnóstica. Na gnose, o verdadeiro e o falso estão intimamente interligados e os iniciados se consideram acima da lei comum, incluindo a lei moral. Fico impressionado ao ver como a gnose dos irmãos Philippe foi transmitida aos seus discípulos também nas comunidades atuais, criando assim uma espécie de constelação.

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