“Agora, vivemos a quarta onda de partidos de direita”. Entrevista com Silvia Bolgherini

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17 Outubro 2022

 

A irrupção de uma nova direita populista, o surgimento abrupto de movimentos antipolítica e a erosão das estruturas políticas convencionais são fenômenos estreitamente vinculados à indignação popular, à nova postura de dirigentes e, principalmente, às transformações sociais decorrentes da globalização e das vicissitudes econômicas.

 

É o que aponta Silvia Bolgherini, doutora em Ciência Política e professora da Universidade de Perúgia, na Itália. Com erudição e nítida paixão, aborda esses fenômenos.

 

A entrevista é de Daniel Vittar, publicada por Clarín, 08-10-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Como você definiria a antipolítica?

 

Bem, eu definiria a antipolítica como um conjunto de atitudes dos cidadãos, dos eleitores e também da classe política. Um acúmulo de comportamentos, de sentimentos em relação à política que, em definitivo, são negativos.

 

Uma atitude social cheia de cansaço, de decepção, mas particularmente de sentimentos negativos em relação a tudo o que é política e representação da política. A antipolítica é um conceito que se aplica a todo o espectro político: à esquerda, ao centro, à direita.

 

Onde você diria que está a origem desta posição?

 

Primeiro, esclareço que não é nada novo, pois já existia no passado. Mas, sim, cresceu muito em todo o mundo. Aí temos um fenômeno, produto de uma transformação. É preciso entender que os atores da política mudaram. Antes, os partidos eram fortes, organizados, com uma visão de mundo. Agora, são fracos, fragmentados.

 

Os políticos, entretanto, mudaram sua posição. Antes, eram um grupo quase inalcançável de pessoas que nós, cidadãos comuns, considerávamos profissionais, pessoas preparadas para os cargos. Agora não, confundem-se com as pessoas comuns, aparecem como um cidadão a mais. Isto, em muitos casos, utilizado como uma estratégia política. Então, a percepção do político é diferente.

 

Qual é o outro elemento nesta guinada à antipolítica?

 

A sociedade também mudou. Houve mudanças coletivas e mudanças individuais. Por exemplo, ocorreu um processo conhecido como pós-materialismo. Um setor importante da sociedade que conseguiu cobrir as necessidades básicas – apesar da grande desigualdade que há em muitos lugares – como ter sua casa, seu carro etc., agora reivindica mais, busca a realização pessoal. E nesse caminho há um processo de individualização.

 

Antes, alguém pertencia a uma classe social e permanecia nela. Isto trazia segurança e uma linha de conduta. Hoje, a vida é muito diferente. As pessoas se deslocam muito mais, estamos globalizados e as necessidades são diferentes. A formação educacional também influenciou. Hoje, fala-se de “mobilização cognitiva”: quanto mais alguém avança, quanto mais aprende e compreende, mais se torna crítico e exige mais.

 

Atualmente, as expectativas dos cidadãos se chocam com a realidade porque a política, que trabalha com projetos coletivos, não pôde responder às reivindicações individuais. Há coisas que não se consegue administrar. A política não é capaz de responder adequadamente.

 

Isso pode ser entendido como um fracasso da liderança política em compreender a realidade social?

 

Não está claro. Mas, sim, há uma relação muito conflituosa entre cidadãos e políticos. Por um lado, os cidadãos exigem algo que os políticos, mesmo que tenham as melhores intenções, não são capazes de cumprir em sua totalidade.

 

Inclusive, gerou-se um círculo vicioso onde os próprios políticos alimentam a antipolítica argumentando que as instituições não funcionam adequadamente, que os partidos não respondem às demandas. Isso faz com que a figura do político seja vista como algo inútil, alguém que vive sem trabalhar, fazendo recair o esforço sobre os cidadãos.

 

Mas esses políticos que levantam essas bandeiras da antipolítica, que se apresentam como uma mudança, como algo novo, também foram um fracasso quando assumiram cargos. Duraram um tempo e depois caíram. Então, o cidadão vive uma grande incerteza. Pergunta-se: para onde devo ir, onde coloco o meu voto.

 

Em suma, acabaram prejudicando a democracia.

 

Claro, claro, tudo isso acaba prejudicando a democracia.

 

Este fenômeno influenciou no crescimento dos partidos de direita?

 

Tem a ver, mas não completamente. Apenas em parte. Nós, na Europa, temos o que se chama de quarta onda de partidos de direita. A primeira foi após a Segunda Guerra Mundial, a segunda nos anos 1950 e 1960, a terceira nos anos 1980 e inícios dos anos 1990, quando houve uma forte crise econômica e um alto desemprego. Agora, vivemos a quarta onda de partidos de direita.

 

Há uma teoria que explica isso muito bem, com a qual eu concordo bastante. Fala de uma nova fratura entre inclusão e demarcação. Faz uma divisão entre perdedores e vencedores da globalização.

 

Segundo esta teoria, os perdedores da globalização são os cidadãos de todo o mundo que não se adaptaram cultural e economicamente com os projetos da globalização. Viveram a perda de horizontes físicos, culturais e pessoais. Também perderam economicamente. E assim foram perdendo identidade. Isto em contraste com os ganhadores da globalização, que culturalmente se sentem bem.

 

Então, recorreram aos partidos de direita?

 

De acordo com esta teoria, os perdedores se voltaram para os partidos de direita que têm quatro ou cinco posições em comum, como reivindicar a soberania nacional, colocar demarcações claras entre “nós e eles” – sobretudo com os imigrantes –, apoiar-se em raízes culturais e religiosas. Mas eu diria que não apenas eles se somaram aos partidos de direita. É um pouco mais complexo.

 

Poderia especificar?

 

Quando falamos da Europa, posso dizer que se está votando na direita porque há raiva, porque a crise que começou em 2008 está piorando. A partir daí, essa onda de raiva, de indignação, foi crescendo.

 

Mas também porque as pessoas se sentem privadas de algo que antes era automático. Especialmente, a classe média que diminuiu seu padrão de vida. E os setores humildes caíram ainda mais. Isso gera frustração, raiva, indignação. E quando você oferece um programa simples, que dá limites, segurança contra um mundo aberto, as pessoas votam. Isso é o que acontece com a direita.

 

Neste cenário, você considera que as ideologias de esquerda e direita se extinguiram?

 

É uma pergunta difícil de responder. E é muito mais difícil distinguir entre uma e outra na Europa. Os setores de esquerda europeia estão perdendo muito. As direitas têm um programa, embora difícil de realizar, é muito simples, muito forte, são muito exitosos. Ao contrário, há décadas, o centro e a centro-esquerda não têm um programa na Europa. Não têm um projeto comum de bem-estar social, de futuro social. E esse é o problema.

 

Tinham nos anos 1960 e 1970, correto?

 

Mas não agora, eles o perderam. A classe social de base que a esquerda tinha foi perdendo-o em favor de diferentes movimentos da direita, mas especialmente em favor da direita radical, extrema. Aquele “nós”, que antes votavam na esquerda, hoje não votam nela. A esquerda perdeu sua base. Agora, fala para uma elite intelectual, burguesa, pós-materialista, internacional, globalizada.

 

Falam para eles. Por isso, na Itália cresceu o Movimento 5 Estrelas. No sul, a região mais humilde da Itália, é o primeiro partido. As pessoas sem trabalho, com menos recursos, não votam no Partido Democrático (centro-esquerda), mas no 5 Estrelas, que oferece subsídios.

 

Quais os perigos da ascensão de partidos assim?

 

Há três consequências. A primeira, em nível social, é que esta tendência à “demarcação” faz crescer as divisões sociais, a falta de confiança nos outros. O sentir-se diferente alimenta as divisões entre grupos que podem ser de tipo étnico, religioso, de classe social. Depois, o perigo da diminuição de direitos, de perder direitos civis conquistados até agora. Os direitos da mulher, das famílias alternativas, as adoções, os imigrantes. Tudo isso será detido.

 

No plano político, o perigo da tendência à autocracia. Não ao autoritarismo direto, não necessariamente, mas a um processo de erosão democrática, como se vê na Polônia, na Hungria. Formalmente, existe democracia lá, mas no substancial é fraca, corroída.

 

Finalmente, em nível internacional, o perigo de se dividir a União Europeia. Pessoalmente, isso me dá muito medo, pois a União Europeia foi um dos projetos políticos que permitiu um desenvolvimento social, econômico.

 

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