Chega de armas, outro clima. É a hora de encher os celeiros. Artigo de Francesco Gesualdi

Foto: Marc Schaefer | Unsplash

Mais Lidos

  • Zohran Mamdani está reescrevendo as regras políticas em torno do apoio a Israel. Artigo de Kenneth Roth

    LER MAIS
  • “Os discursos dos feminismos ecoterritoriais questionam uma estrutura de poder na qual não se quer tocar”. Entrevista com Yayo Herrero

    LER MAIS
  • Os algoritmos ampliam a desigualdade: as redes sociais determinam a polarização política

    LER MAIS

Revista ihu on-line

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Entre códigos e consciência: desafios da IA

Edição: 555

Leia mais

10 Agosto 2022

 

"O que mais dói é que essa mesquinhez só se manifesta quando se trata de gastar em solidariedade ou para fins de justiça. Então sempre surge alguma motivação para justificar nossa avareza: a crise econômica, nossas dificuldades financeiras, nossos problemas internos. Motivações que desaparecem magicamente quando se trata de financiar as despesas de morte. Então, o dinheiro aparece imediatamente, como demonstra o aumento dos gastos militares que vimos nos últimos anos", escreve Francesco Gesualdi, coordenador do Centro Nuovo Modello di Sviluppo, de Vecchiano (Pisa), na Itália, e um dos fundadores, junto com o Pe. Alex Zanotelli, da Rede Lilliput, em artigo publicado por Avvenire, 09-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Onze anos, este era o tempo que os países ricos haviam se dado para atingir a meta de sustentar os países mais pobres com 100 bilhões por ano em sua luta contra as mudanças climáticas.

 

O empenho foi assumido em 2009 e estabeleceu a meta para 2020, mas no final o objetivo não foi alcançado. A OCDE atesta isso através de um relatório publicado recentemente: o valor arrecadado em 2020 parou em 83 bilhões, que se tornam 70 se nos limitarmos aos financiamentos público: governos e bancos multilaterais.

 

Depois de décadas em que cientistas e grupos ambientalistas gritaram no deserto, hoje finalmente até a política está por fim entendendo que a crise climática é grave e que é preciso intervir com a dupla estratégia da adaptação e da mitigação.

 

Adaptação para realizar obras agrícolas, urbanas, de infraestrutura, necessárias para evitar, ou pelo menos atenuar, os danos causados pelas mudanças climáticas. Mitigação para introduzir todas as transformações tecnológicas, produtivas e de consumo úteis para reduzir as emissões de dióxido de carbono que são a base das mudanças climáticas.

 

De acordo com os cálculos do Fórum Econômico Mundial, organização que anualmente convoca o encontro de Davos, seria necessário um valor anual de 5.700 bilhões de dólares para a próxima década para perseguir de maneira eficaz esse duplo objetivo em nível mundial. Com qual subdivisão entre o Norte e o Sul do mundo não é especificado, em todo caso seriam somas que os países mais pobres não poderiam sustentar sozinhos.

 

E mesmo que pudessem, não seria certo que o fizessem, porque o dano não foi feito por eles, mas pelos países ricos. De 1850 a 2011 a humanidade produziu algo como 1.500 bilhões de toneladas de dióxido de carbono atribuível em 27% aos Estados Unidos da América, enquanto a atual União Europeia é responsável por outros 24%. A China, que é hoje o maior emissor de CO2 do mundo, contribuiu do ponto de vista histórico com 13%.

 

Quanto à África, sua participação foi de apenas 2%. No entanto, juntamente com o Sudeste Asiático, é o continente que está pagando mais pelas alterações climáticas. Em particular o Sahel, onde 80-90% da população ainda vive da agricultura e pastorícia. Períodos prolongados de seca fazem com que as colheitas sejam perdidas, enquanto os rebanhos morrem de fome e sede.

 

A FAO informa que em 2021, devido a eventos climáticos extremos, o Níger e a Mauritânia perderam entre 30 e 40% de suas colheitas de cereais. Além disso, as mudanças climáticas exacerbam as relações entre agricultores e pastores. Durante séculos, os pastores se deslocaram pelo Sahel em busca de pastagens. Em épocas de chuvas regulares, as migrações ocorrem em sequências de tempo compatíveis com os ritmos agrícolas. Mas a seca obriga os pastores a permanecerem mais tempo em locais com cursos de água, gerando conflitos com os agricultores locais. Quando a vida fica difícil, a consequência inevitável é o abandono da própria casa na esperança de encontrá-la em outro lugar. Segundo a ONU, 85 milhões de pessoas poderiam ser deslocadas pelas mudanças climáticas no Sahel nos próximos anos.

 

Pessoas que se buscarão refúgio principalmente em territórios vizinhos, mas não são poucos os jovens instruídos e mais empreendedores que buscarão refúgio mesmo bem mais longe, apesar de terem de enfrentar, se um novo e sério governo dos fluxos migratórios não intervir, todas as dificuldades da travessia irregular. E assim se fecha o círculo entre migrações e mudanças climáticas.

 

Em nossos sistemas jurídicos começamos a nos referir ao princípio de 'quem polui paga', mas o esquecemos quando cabe a nós aplicá-lo internacionalmente.

 

Especialmente porque se formos ver como estamos aplicando nossa minguada solidariedade no âmbito climático, percebemos que a implementamos apenas parcialmente na forma de contribuições a fundo perdido. Dos 70 bilhões de dólares disponibilizados em 2020 pelas instituições públicas, apenas 18, ou 26%, foram dados em forma de doação. Os 74% restantes foram oferecidos na forma de empréstimo, arriscando transformar o que chamamos de solidariedade em um petisco envenenado. É sabido que o Sul do mundo, e a África em particular, está sobrecarregado de dívidas que não sabe como pagar. O recebimento de mais dinheiro na forma de empréstimo corre o risco de transformar uma situação já crítica em catastrófica.

 

O que mais dói é que essa mesquinhez só se manifesta quando se trata de gastar em solidariedade ou para fins de justiça. Então sempre surge alguma motivação para justificar nossa avareza: a crise econômica, nossas dificuldades financeiras, nossos problemas internos. Motivações que desaparecem magicamente quando se trata de financiar as despesas de morte.

 

Então, o dinheiro aparece imediatamente, como demonstra o aumento dos gastos militares que vimos nos últimos anos. O gasto militar total dos países da OCDE passou de 1.050 bilhões de dólares em 2015 para 1.280 bilhões em 2020. 7% do que os países ricos gastam em armamentos seria suficiente para financiar, integralmente e em forma de doação, o fundo prometido aos Países do Sul do Mundo pelos custos de adaptação e mitigação impostos pelas mudanças climáticas. Como dizia Sandro Pertini, chegou a hora de "esvaziar os arsenais e encher os celeiros", ou seja, os fundos para o clima.

 

Leia mais