“As origens do confronto estão nas relações entre o Ocidente e a Rússia”, afirma o Patriarca Kirill

Mais Lidos

  • As responsabilidades das Forças Armadas no golpe. Artigo de Jean Marc von der Weid

    LER MAIS
  • Terra Yanomami tem 363 mortes registradas no 1º ano do governo Lula

    LER MAIS
  • “Gostaria de mais casos de anulação de casamento. Ajuda a curar o sofrimento da separação”, afirma cardeal Zuppi

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

14 Março 2022

 

Em uma carta do dia 10 de março, Sua Beatitude o Patriarca Kirill de Moscou e de toda a Rússia respondeu a uma carta enviada no dia 2 de março pelo secretário-geral interino do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Rev. Prof. Dr. Ioan Sauca, pedindo que o Patriarca Kirill mediasse para que a guerra cessasse.

O Patriarca de Moscou Kirill enviou uma carta de resposta ao Rev. Prof. Dr. Ioan Sauca. Na sua carta, ele fala das culpas da guerra em andamento e as atribui ao Ocidente. Fala sobre o cisma de 2018 e a presença militar em detrimento da Rússia. O patriarca também observa que está se desenvolvendo uma verdadeira russofobia no Ocidente.

A carta foi publicada no sítio do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), 11-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Ao Reverendíssimo Arcipreste Ioan Sauca
Secretário geral interino
Conselho Mundial de Igrejas

Prezado Padre Ioan,

Agradeço a sua carta de 2 de março de 2022. Conhecendo o senhor há muitos anos como fiel servidor da Igreja de Cristo e incansável trabalhador no campo da educação e da formação das gerações mais jovens, aprecio profundamente o seu trabalho como secretário geral interino do Conselho Mundial de Igrejas, que visa a promover o acordo e o respeito mútuo entre representantes de diferentes confissões cristãs.

Nossa Igreja se juntou ao CMI em 1961, tendo aceitado a sua base renovada como “comunhão de Igrejas” e a Declaração de Toronto que dizia, em particular, que “o Conselho como tal não pode se tornar o instrumento de uma confissão ou escola (...) as Igrejas membros devem reconhecer a sua solidariedade mútua, prestar assistência mútua em caso de necessidade e abster-se de tais ações por serem incompatíveis com o relacionamento fraterno”.

Desde 1983, uma das prioridades do CMI tem sido engajar suas Igrejas membros no processo de reconhecimento da sua responsabilidade compartilhada pela justiça, paz e integridade da criação dentro da comunidade mundial. Ou seja, nossa adesão ao CMI, nossos diálogos, nossas discussões baseadas no princípio da igualdade e a nossa cooperação com toda a cristandade não foram apenas uma expressão de nosso compromisso com a causa da reconciliação entre os povos, mas também nos deram confiança na solidariedade e no apoio da comunidade cristã mundial.

Nestes dias, milhões de cristãos em todo o mundo, em suas orações e pensamentos, se voltam para os dramáticos acontecimentos na Ucrânia.

Como o senhor sabe, este conflito não começou hoje. É minha firme convicção que seus iniciadores não são os povos da Rússia e da Ucrânia, que vieram de uma pia batismal de Kiev, estão unidos por uma fé comum, por santos e orações comuns, e compartilham um destino histórico comum.

As origens do confronto jazem nas relações entre o Ocidente e a Rússia. Nos anos 1990, havia sido prometido à Rússia que a sua segurança e dignidade seriam respeitadas. No entanto, com o passar do tempo, as forças que consideravam a Rússia abertamente como sua inimiga chegaram perto de suas fronteiras. Ano após ano, mês após mês, os Estados membros da Otan vêm aumentando sua presença militar, desconsiderando as preocupações da Rússia de que essas armas possam um dia ser usadas contra ela.

Além disso, as forças políticas que têm como objetivo conter a Rússia não iriam lutar contra si mesmas. Elas estavam planejando usar outros meios, tentando fazer dos povos irmãos – russos e ucranianos – inimigos. Elas não pouparam esforços nem fundos para inundar a Ucrânia com armas e instrutores de guerra.

No entanto, o mais terrível não são as armas, mas sim a tentativa de “reeducar”, de refazer mentalmente os ucranianos e os russos que vivem na Ucrânia em inimigos da Rússia.

Perseguindo o mesmo fim, estava o cisma da Igreja criado pelo Patriarca Bartolomeu de Constantinopla em 2018. Isso cobrou o seu preço da Igreja Ortodoxa Ucraniana.

Ainda em 2014, quando sangue estava sendo derramado no Maidan de Kiev e houve as primeiras vítimas, o CMI expressou a sua preocupação. O Dr. Olav Fykse Tveit, então secretário geral do CMI, disse no dia 3 de março de 2014: “O Conselho Mundial de Igrejas está profundamente preocupado com os perigosos acontecimentos atuais na Ucrânia. A situação coloca muitas vidas inocentes em grave perigo. E, como um vento amargo da Guerra Fria, corre o risco de minar ainda mais a capacidade da comunidade internacional de agir agora ou no futuro em relação às muitas questões urgentes que exigirão uma resposta coletiva e baseada em princípios”.

Foi também quando eclodiu um conflito armado na região de Donbass, cuja população defendia o seu direito de falar a língua russa, exigindo respeito pela sua tradição histórica e cultural. No entanto, suas vozes não foram ouvidas, assim como milhares de vítimas entre a população de Donbass passaram despercebidas no mundo ocidental.

Esse trágico conflito tornou-se parte da estratégia geopolítica de grande escala que visa, em primeiro lugar, a enfraquecer a Rússia.

E agora os líderes ocidentais estão impondo sanções econômicas à Rússia que serão prejudiciais a todos. Eles tornam suas intenções descaradamente óbvias – trazer sofrimento não apenas aos líderes políticos ou militares russos, mas especificamente ao povo russo. A russofobia está se espalhando pelo mundo ocidental em um ritmo sem precedentes.

Eu rezo incessantemente para que, pelo Seu poder, o Senhor ajude a estabelecer a paz duradoura e baseada na justiça o mais rápido possível. Peço ao senhor e a nossos irmãos em Cristo, unidos no Conselho, que compartilhem esta oração com a Igreja Ortodoxa Russa.

Caro Padre Ioan, expresso minha esperança de que, mesmo nestes tempos difíceis, como tem sido ao longo da sua história, o Conselho Mundial de Igrejas possa continuar sendo uma plataforma para o diálogo imparcial, livre de preferências políticas e de uma abordagem unilateral.

Que o Senhor preserve e salve os povos da Rússia e da Ucrânia!

Com amor paterno,

+Kirill
Patriarca de Moscou e de Toda a Rússia

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“As origens do confronto estão nas relações entre o Ocidente e a Rússia”, afirma o Patriarca Kirill - Instituto Humanitas Unisinos - IHU