“Temos que negociar com Putin, não para ser equidistantes, mas por realismo”. Entrevista com Fausto Bertinotti

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10 Março 2022

 

"A questão não é saber se Putin está disposto a isso, mas como induzi-lo a aceitar um acordo. É tarefa da política. É necessária a grande política".

 

A entrevista com Fausto Bertinotti é de Concetto Vecchio, publicada por La Repubblica, 08-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Fausto Bertinotti, o que se deve fazer para deter Putin?

 

Faço minhas as palavras do Cardeal Parolin: ‘Evite a escalada, pare a guerra, negociar, negociar, negociar’.

 

Putin realmente quer negociar?

 

Fui sindicalista por muitos anos para não saber que no início de cada negociação se está convencido de que a outra parte não pretende negociar. A Frente de Libertação da Argélia nunca teria imaginado que a França se sentaria à mesa. Durante a Guerra do Vietnã, se discutiu por meses como formar uma mesa de negociação. Depois foi encontrada, e o acordo também.

 

Até agora, o Kremlin rejeitou uma verdadeira mediação diplomática.

 

Se o objetivo é a paz, ela é buscada. Tentando ganhar condições políticas, passo a passo, começando pelo cessar-fogo.

 

Quem deveria negociar?

 

Zelensky e Putin, ajudados nisso pelas Nações Unidas, se fosse possível, mas também por forças como a China.

 

Qual seria o ponto de queda?

 

A Ucrânia pode escolher aderir à União Europeia, mas não à OTAN.

 

Putin aceitaria?

 

Não estou na cabeça de Putin, mas esse deve ser o objetivo da política.

 

É possível ficar equidistantes diante de civis mortos?

 

Não precisa ser equidistante, mas realista. Qual é a alternativa? Aquela que o Papa Francisco, não escutado, chamou de terceira guerra mundial em pedaços? A guerra atômica?

 

Então você discorda de enviar armas para os ucranianos?

 

Absolutamente não. Todas as ajudas, mas não as armas.

 

Por quê?

 

Significa transformar uma guerra local em um conflito mundial.

 

Sergio Cofferati, no "Repubblica", lembrou a ajuda militar que os aliados deram à Resistência.

 

Apesar de toda a amizade, considero um exemplo inadequado. Primeiro, são duas realidades incomparáveis. Os EUA estavam na época travando uma guerra declarada contra a Alemanha nazista. Hoje ninguém declarou guerra à Rússia.

 

Putin é o novo Hitler.

 

É um erro grave porque confunde um projeto de poder como o que Putin está perseguindo, de expansionismo nacionalista, com uma guerra ideológica como foi aquela de Hitler. Naquele caso era certo derrubá-lo.

 

Foi evocada a invasão da Polônia em 1939.

 

Mas aqui estamos mais próximos da Primeira Guerra Mundial do que da Segunda. O que move Putin é o expansionismo autocrático que só pode ser combatido com iniciativas concretas de paz, não afiando as armas do conflito ideológico.

 

Mas se Kiev cair Putin não terá vencido?

 

Porque se enviarmos as armas o seu destino será diferente? Kiev se defende com negociações.

 

Assim não se faz o jogo de quem invadiu?

 

Existe uma perigosa propensão a transformar o que está acontecendo em uma guerra ideológica. Sistema versus sistema. Ontem capitalismo contra comunismo. Hoje democracia contra autoritarismo. Se a OTAN tirar o pó da teoria de Bush de exportar a democracia com as armas, vai cometer um erro fatal.

 

Você saiu às ruas no sábado?

 

Não pude por um compromisso, infelizmente, mas estava lá com o coração. Seriam necessárias centenas de manifestações, como aconteceu para o Iraque em 2003.

 

Você acha que Putin tem as suas razões?

 

Putin está cometendo um crime de guerra, que acabou obscurecendo as razões que a Rússia até mesmo tinha antes da guerra. Razões que os próprios diplomatas do realismo político, de Henry Kissinger a Sergio Romano, relançaram nos últimos dias sobre a propósito da expansão da OTAN para o Leste.

 

Como apoiar agora concretamente a resistência ucraniana?

 

Os ucranianos estão lutando por sua independência, e isso merece respeito e solidariedade, mas também fortalece minha convicção: é preciso encontrar uma solução que diga respeito à Ucrânia, não à Rússia. Não devemos ser nós a derrubar Putin, essa é uma tarefa que cabe aos russos e não à coalizão mundial que se opõe a ele.

 

O que você pensa das sanções?

 

Devem ser praticados com a máxima coesão possível contra a guerra e em função da negociação.

 

Em suma, a única saída é falar com Putin?

 

Não é uma questão de falar, mas de negociar.

 

Zelensky abriu para uma solução negociada sobre Donbass, Crimeia e OTAN. Putin vai concordar?

 

A questão não é saber se Putin está disposto a isso, mas como induzi-lo a aceitar um acordo. É tarefa da política. É necessária a grande política.

 

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