Putin, se possível, deve ser levado a entender que nenhuma ordem internacional pode surgir de uma agressão

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09 Março 2022

 

Vladimir Putin deixou claro que sua "operação militar especial", que é a guerra de agressão contra a Ucrânia, tem um propósito específico: uma nova ordem internacional política, social e econômica. O Patriarca Ortodoxo Kirill, seu aliado, também gostaria que fosse uma nova ordem moral e religiosa. Em suma, por trás do sonho empoeirado de uma Grande Rússia, arquitetura mental de muitos nostálgicos do autoritarismo soviético, existe um projeto geopolítico e geoestratégico teorizado e elaborado, completo com grandes grupos de filósofos, ideólogos e estrategistas. Também não faltam especialistas ocidentais, sempre pedantes e telegênicos.

 

O comentário é publicada por Il Sismografo, 08-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Paradoxalmente, a guerra desencadeada por Putin torna essa perspectiva alucinante completamente impossível. Os teóricos da nova ordem se deixaram engolir pela guerra que deveria ter lhes dado uma vitória total e relâmpago. Mesmo que essa guerra continuasse por um bom tempo, a Rússia de Putin já perdeu porque o objetivo do embate bélico é inatingível.

Putin e seus teóricos - prisioneiros da bipolaridade da guerra fria (que lhes permitiu comandar apenas em Moscou e Washington) - subestimaram a enorme força do multilateralismo e sobretudo de seu dinamismo se adotado e aplicado com convicção e respeito mútuo no quadro de uma ação política não corrupta e fortemente ética.

O primeiro-ministro Mario Draghi resssaltou este axioma com previsão no Parlamento italiano: "A paz será encontrada em um âmbito multilateral, assim como a resposta à agressão tem sido multilateral. É aqui que está nossa força. Hoje nós não devemos buscar papéis. Devemos buscar a paz" (1 de março, Câmara dos Deputados).

Multilateralismo ativo e eficaz, a ser corrigido e revisto em muitas passagens também porque o Ocidente, mais cedo ou mais tarde, terá que fazer uma autocrítica sincera e severa por suas muitas graves culpas no desastre a que chegamos, decorre da consciência declarada de que Putin deu origem a uma agressão. E isso deve ser dito sem subterfúgios ou palavras camufladas.

A humanidade vive os dias mais perigosos de sua história, porque hoje no mundo existem numerosos países que possuem armas nucleares. O Papa Francisco, em 6 de agosto de 2020, escreveu ao mundo: "Para que a paz floresça, todos devem depor suas armas, especialmente as mais poderosas e destrutivas, como as armas nucleares, que podem paralisar e destruir cidades e países inteiros. O uso da energia atômica para fins bélicos é imoral, assim como é imoral a posse de armas nucleares. Que as vozes proféticas dos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki continuem servindo de alerta para nós e para as gerações futuras”.

Apontar o dedo para Putin porque seu rosto é aquele de um agressor não é extremismo a ser mitigado com” posições moderadas e reflexivas, não impulsivas e razoáveis”. São posições desta natureza aquelas que, décadas atrás na Europa, abriram o caminho para Hitler e que agora, embora revisadas e atualizadas, podem abrir caminho para Putin.

O "Czar" Vladimir Putin é agora o problema. Seu futuro está selado, Putin já está fora da história e nunca poderá se sentar à mesa com a maioria das nações do mundo. E se isso acontecer devido a uma emergência, será por pouquíssimo tempo. Apenas o necessário para sair da cena política planetária.

O chefe do Kremlin perdeu todo crédito e consideração e, portanto, é visto como perigoso, pérfido, não confiável e mentiroso. Ele ainda está procurando um papel, mas não está claro qual poderia ser.

Nada se sabe sobre quanto tempo esta guerra poderá durar, principalmente se será necessário combater nas cidades, casa por casa. Nesta guerra, o tempo joga contra Putin.

Será a sociedade russa e os poderes próximas a ele que terão que encontrar a melhor solução para acompanhá-lo até a porta. As sanções cada vez mais rigorosas e radicais, cujas consequências o Ocidente deve aceitar para si mesmo, são a via para apressar o fim da oligarquia russa.

Aqueles que se recusam a indicar Vladimir Putin como um agressor estão fugindo do consenso multilateral que marcará a distinção entre ordem multilateral democrática e ordem internacional despótica. "Putin agressor" não é uma questão de simpatia ou antipatia ou uma controvérsia acadêmica. Trata-se de um gigantesco fato político e moral. Não aceitar essa verdade equivale a reescrever um novo Código de Direito Penal com especialistas condenados por múltiplos homicídios.

No próximo processo de paz não será possível chegar à mesa de braços dados com Putin.

Se for possível tirar o véu de hipocrisia e mentira que cobria a ordem nascida depois de Yalta, aquela das áreas de influência em que a URSS e os EUA faziam o que queriam (e tudo acabava com uma condenação da ONU), a nova ordem substitutiva não pode ser aquela de Putin.

Uma verdadeira nova ordem internacional deve primeiro pôr fim às divisões do mundo onde os poderosos disponibilizam as armas e os povos disponibilizam os mortos.

Fundar uma ordem mundial numa agressão levaria a perpetuar esse horror.

As confissões religiosas, os cristãos envolvidos na linha de frente, podem fazer muito para parar essa deriva.

 

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