Teologia ‘ad usum Cyrilli’: formas de discurso eclesial em tempo de guerra. Artigo de Andrea Grillo

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09 Março 2022

 

"Quando a teologia distorce o olhar até este ponto, quando chama o bem de mal e o mal de bem, pode se revelar uma patologia grave, uma distorção que desfigura, tanto mais se ataca os líderes de uma Igreja. Quando um Patriarca inicia assim a sua Quaresma, para os demais 40 dias o que ele terá que inventar a fim de distrair a atenção comum do escândalo do mal organizado, perpetrado e infligido ao próximo indefeso?", escreve o teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado por seu blog Come Se Non, 07-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Pode ser útil examinar cuidadosamente o Sermão de domingo do Patriarca Kirill, julgando-o no nível puramente teológico. Isso poderia ajudar a avaliar tanto as reações escandalizadas que suscitou em muitos leitores, tanto os pressupostos teóricos sobre os quais se alicerça, quanto a qualidade teológica e eclesial de que é portador. Gostaria de distinguir os diferentes planos de avaliação, procurando respeitar o seu lugar numa tradição diferente da católica (a russo-ortodoxa), mas também captando as profundas afinidades com uma parcela não marginal da mens católica.

 

Afinal, alguns “lugares-comuns” do discurso teológico são paralelos às diferentes tradições e igualmente apreciáveis ou questionáveis. Cada plano que examinarei corresponde a um "uso" mais ou menos infundado ou plausível da teologia. E se adapta com certa aproximação ao discurso que foi proferido domingo em Moscou, no décimo dia da guerra, na Catedral da capital da Rússia, país que está destruindo militarmente cidades inteiras da Ucrânia, com milhares de soldados e civis que sucumbem nos confrontos.

 

Teologia de corte

 

É uma variante da teologia que se situa diretamente no plano da "gestão da autoridade". Para que serve a teologia neste caso? Uma vez estabelecida a "escolha política" a ser assumida, os argumentos teológicos mais fortes são encontrados por parte da Igreja para justificá-la. Isso é fazer "teologia de corte": a teologia é reduzida a um arsenal de argumentos, com maior ou menor autoridade, para sustentar uma determinada posição política, social, moral. Quase sempre esta escolha coincide com uma teologia de "visões curtas", porque deixa à contingência histórica do momento, no nosso caso a guerra na Ucrânia a justificar, uma autoridade excessiva e uma relevância exagerada, que esmaga toda a tradição e a reduz à mera função (e ficção).

 

Então, poderia ser que o autor do discurso tenha se perguntado: como posso justificar tal "operação especial"? Caso fosse possível demonstrar que essa "operação" não é uma guerra, mas uma "luta entre o bem e o mal", e que o mal é a modernização das formas de vida e dos costumes, bastará evocar o espectro das "marchas do orgulho gay” para justificar tudo, com o intuito de impedir o fim da civilização. Se for colocada no prato a hipótese de perder tudo e, mais ainda, de perder a identidade, toda reação, mesmo a mais desumana, poderá parecer lícita e também deverá ser abençoada. A modernidade é amaldiçoada nas marchas pela dignidade dos sujeitos, enquanto é abençoada nas bombas de fragmentação contra escolas ou nos mísseis contra prédios de apartamentos, que defendem a honra violada, mas tornam os homens e as mulheres meros objetos negligenciáveis.

 

Teologia anestésica

 

A teologia pode se tornar a mais cômica e a mais trágica das ciências, porque permite trabalhar em um nível tão profundo das experiências que, se mal manejada, produz danos e equívocos intermináveis. Pode ter um efeito anestésico muito poderoso. A teologia pode ser um escudo e uma zombaria muito poderosa. Pode pretender distrair dos tiros de canhão contra as casas, dos recém-nascidos destruídos por estilhaços em seus carrinhos, dos tiros de morteiro que aniquilam famílias inteiras, dos franco-atiradores que abatem civis em fuga com as malas, e permite que você fale sobre a primavera, sobre a Quaresma e sobre o verdadeiro problema da nossa época: o orgulho gay!

 

Quando a Grande Quadragésima se torna um Enorme Álibi, uma Majestosa Tela, um Esconderijo Monumental, um Imenso Para-raios, então aquela pedra de moinho pendurada no pescoço de que fala o Evangelho poderia ser reconhecida como a única palavra sábia. Quando a teologia distorce o olhar até este ponto, quando chama o bem de mal e o mal de bem, pode se revelar uma patologia grave, uma distorção que desfigura, tanto mais se ataca os líderes de uma Igreja. Quando um Patriarca inicia assim a sua Quadragésima, para os demais 40 dias o que ele terá que inventar a fim de distrair a atenção comum do escândalo do mal organizado, perpetrado e infligido ao próximo indefeso?

 

O uso inadequado transforma a teologia em "ópio": não como teoria geral da religião, mas pelo uso inadequado de categorias sem equilíbrio e sem proporção, por meio de palavras irresponsáveis de um vértice, que se mostra bem abaixo do nível mínimo da decência. Teologicamente, isso é um desastre total. Tal teologia é "anestésica" em dois sentidos: entorpece os sentidos e castra toda sensibilidade, torna cegos e surdos, sem coração e sem sentimentos. O monstro que você se torna é o produto da má teologia que você frequenta e alimenta. Nesta teologia há um grande poder que não te perdoa: se o provocas com teus joguinhos de posição, ele te agarra e te destrói.

 

Teologia arbitrária

 

Chegamos assim ao último nível. Uma teologia de Deus que é amor, e que justamente a tradição ortodoxa conhece e sabe expressar nos mínimos detalhes, com toda a poesia de uma língua e de uma expressão poderosa e inesquecível, como pode chegar a reduzir este Deus do mistério e da divina liturgia a um legislador escrupuloso, carrancudo e armado de balança de precisão, que legisla e julga os erros como um magistrado inflexível, distante e vingativo? Na “festa do perdão”, se poderia evocar a “vingança contra os gays” como o horizonte sério de um discurso a uma nação que há dias leva a guerra a outra nação, com tantos mortos e feridos? Isso realmente parece ser um exercício de teologia desajeitado e sem retidão, como se quem que o propõe fosse ao mesmo tempo cego e alucinado, desorientado e teleguiado, prepotente e escravo do poder, sem respeito e sem vergonha.

 

Um princípio geral sempre vale, para todo pastor e para todo teólogo: se você não mantiver o equilíbrio, se você não considerar todos os lados da questão, se você não disser "toda a verdade", você transforma coisas secundárias em primárias e assim você afunda para o fundo, no invisível e no disponível, aquele corpo carbonizado que clama ao céu por vingança. O fato de uma Igreja tão importante se curvar tão totalmente diante do poder das armas, e que até mesmo fortalece teologicamente a sua violência, é um fato gravíssimo. É a negação da teologia. É teologia negada e violada. É contratestemunho e abuso de funções, de forma escandalosa.

 

"Bem-aventurados os aflitos e bem-aventurados os perseguidos": Sua Beatitude, que sobre bem-aventurados deveria entender, pelo menos por nome, prefere justificar os perseguidores e abençoar que ataca. Precisamente por causa dessas contradições, a teologia, quando sai do controle, pode se tornar a mais cômica e a mais trágica das palavras.

 

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