Ratzinger e o palhaço que grita na Igreja

Joseph Ratzinger (Foto: Rvin88 | Wikimedia Commons)

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23 Fevereiro 2022

 

Bento XVI se viu enfrentando horríveis chagas da Igreja com uma intensidade arriscada – em particular a pedofilia e a tolerância ou a cumplicidade em relação a ela. Coisas que indiretamente põem em questão aqueles que podem ter sido responsáveis pelo caminho, pela glória e pelas culpas da própria Igreja.

A opinião é do escritor italiano Claudio Magris, ex-senador da Itália, ex-professor das universidades de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004. O artigo foi publicado em Corriere della Sera, 20-02-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A história do mundo é também uma fábula, quase a mesma, mas com algumas variantes que a tornam única e irrepetível como toda vida e todo evento humano. A criança se perde no bosque, vê uma luz ou várias luzes que aparecem e desaparecem entre as manchas escuras dos arbustos, pedras brancas marcam um caminho que pode levar a uma escuridão ainda mais profunda ou desembocar em uma clareira feliz. A fábula é como uma floresta, na qual nascem, da qual vêm e na qual voltam a se aprofundar os cantos, as lendas e os mitos.

Isso vale para todos os países e todas as culturas, mas em particular para a Alemanha e a cultura alemã. Nas fábulas dos Irmãos Grimm, há a alma, a variedade, o passado profundo e o presente tangível de todo o vasto e variado país, as vozes e a música dos seus grandes e menores poetas; uma partitura poderosa e fugidia, ora atravessada por um sopro de eternidade, ora fugitiva como uma nostalgia de amor.

Encantadores Lieder, personalíssimos e impessoais como toda flor, como toda vida. “Tudo é eterno diante do olhar de Deus – diz a belíssima Suleika em “Divã ocidental-oriental” de Goethe –, ama-o em mim, por este instante.”

Na sua Introdução ao Cristianismo (1968), Joseph Ratzinger se refere a uma história popular, a um conto de fadas. Não alemão e nem mesmo católico, mas de Søren Kierkegaard. É a história de um palhaço de excepcional bravura, irresistível na comicidade e no jogo das semelhanças. É impossível não rir ao ouvir as suas histórias e não acreditar no que ele conta e que tem – como a Poesia – uma força de verdade.

Um dia, o palhaço, cansado de trabalhar – rir e fazer rir é cansativo – sai para uma longa caminhada no bosque, atravessa outros pequenos vilarejos, até chegar a um vilarejo onde irrompeu um terrível incêndio. Tudo queima e desmorona, muitas pessoas morrem. O palhaço corre o mais rápido que pode para o seu vilarejo e conta, gritando angustiado, o que viu, as chamas homicidas e os mortos. Mas ninguém acredita nele; pelo contrário, todos riem, convencidos de que se trata de um dos seus espetáculos.

É significativo que a história do palhaço seja inserida por Bento XVI na sua “Introdução ao Cristianismo”. Hoje, escreve ele, o mundo muitas vezes olha para a mensagem cristã como um jogo de circo que parece não ter relação nem com o verdadeiro nem o falso. Esse pessimismo, não desprovido de dolorosas nuances contidas na dignidade do papel, certamente tem a ver com a sua cultura alemã, acostumada a lidar com o mal e a estreitar pactos com o diabo, mesmo que não com um diabo de filme de terror.

Certas cenografias satanistas são mais inócuas do que todas as invencionices que são contadas todos os dias, do que a indiferença em relação ao verdadeiro e ao falso, e do que as consequências de tal indiferença, que pode levar alguém a morrer entre as chamas, como ocorreu com as vítimas do incêndio denunciado em vão pelo palhaço.

Na cultura alemã – que muitas vezes encontrou na teologia, tão importante na sua história, uma carga radical de verdade – há pouco espaço para a confidência otimista com a natureza do ser humano, para a confiante esperança de poder cuspir a qualquer momento aquela maçã estúpida que uma serpente não menos estúpida colocou na nossa boca.

Mais recentemente, Bento XVI se viu enfrentando horríveis chagas da Igreja com uma intensidade arriscada – em particular a pedofilia e a tolerância ou a cumplicidade em relação a ela. Coisas que indiretamente põem em questão aqueles que podem ter sido responsáveis pelo caminho, pela glória e pelas culpas da própria Igreja. Bento XVI – neste caso especialmente Joseph Ratzinger – respondeu com dureza e sofrimento. Aquele seu grito – “Não sou um mentiroso” – é uma das maiores, mais dolorosas e inconvenientes explosões de ira e de dor que se pode ouvir de um papa.

Bento XVI encontrou grandes consensos, especialmente por parte de quem vê nele alguém que impede o Templo de desmoronar e se desintegrar, e grandes contestações e rejeições por parte de quem o acusa de tradicionalismo reacionário, que busca impedir a renovação da Igreja – desejada por ele mesmo fervorosamente no início do Concílio, enrijecendo-a em uma estátua de sal como a esposa de Ló.

O fato de a sua visão do futuro da Igreja ser problemática e preocupada é inegável, e o fato essas preocupações serem bem fundamentadas é ainda mais.

No segundo – e mais belo – volume do seu “Jesus de Nazaré”, ele se faz perguntas radicais sobre a possibilidade desse futuro. Certamente, escreve ele, nós – nós, católicos – temos a promessa do “non praevalebunt”, da indestrutível duração do cristianismo e da Igreja. Mas nada nos diz que, por exemplo por mil anos, a Igreja não possa ser reduzida a uma pequena e irrelevante minoria de catacumba.

Ela poderia, mesmo nesse caso, mais cedo ou mais tarde, voltar à plenitude, mas, para as gerações que se vissem vivendo nesses mil anos, seria difícil. Elas teriam a impressão, diz Ratzinger, “de serem um palhaço” ou mesmo um ressuscitado de um sarcófago que se apresenta ao mundo de hoje envolto nas vestes e no pensamento dos antigos e, portanto, na impossibilidade de compreender as pessoas da nossa época e de serem compreendidas por eles.

Bento XVI tem a sorte de vir de um país onde a fé cristã, professada e praticada, pode ser católica e protestante. Um binômio – um diálogo, um debate, um choque – que foi e é formativo e fecundo, e pode ajudar um pouco a resistir àquilo que o catecismo, quando eu era menino, chamava de “o mundo e as suas pompas”.

 

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