É o fim do Colégio de Cardeais como uma sociedade polida?

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21 Outubro 2020

Pela tradição, tanto o Senado dos Estados Unidos e o Colégio de Cardeais tem sido uma espécie de Country Club no qual os membros, apesar de suas discordâncias, ameaçam uns aos outros com cortesia. Essa cultura de civilidade se desintegrou no Senado e, se depender do cardeal Joseph Zen, também na Igreja não deverá durar por muito tempo.

A reportagem é de John Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 20-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Em 07 de outubro, Zen, o bispo emérito de Hong Kong, postou em seu blog pessoal uma longa reflexão sobre o acordo do Vaticano com a China, na qual – e realmente não tem outra palavra para isso – ele atacou violentamente o colega cardeal Pietro Parolin, o secretário de Estado do Vaticano e o principal responsável pelo acordo assinado em 2018 para nomeação de bispos.

Parolin sabe que está mentindo. Ele sabe que eu sei que ele está mentindo. Ele sabe que eu vou falar para todos que ele é um mentiroso”, escreveu Zen, acrescentando que ele duvida que Parolin tenha alguma fé.

Para aqueles que têm acompanhado os debates sobre o acordo do Vaticano com a China de 2018, sabem que Zen e Parolin representam abordagens opostas. Zen é um falcão, Parolin uma pomba; Zen acredita no próprio corajoso testemunho, Parolin na paciência e diplomacia.

Porém a linguagem de Zen em seu novo post tem mais a ver com a política. Esse excesso pessoal, acusando Parolin de desonestidade, colocando ambição sobre princípio e agindo de má-fé.

Chamar de “raro” tal ataque público de um cardeal contra outro é um eufemismo. Para encontrar qualquer tipo de precedente, temos que voltar uma década, e um conflito público entre o cardeal Christoph Schönborn de Viena, Áustria, e o cardeal italiano Angelo Sodano, o Secretário de Estado de João Paulo II e, na época, o Decano do Colégio dos Cardeais.

Durante uma sessão com jornalistas austríacos em abril de 2010, enquanto uma nova rodada da crise dos abusos sexuais clericais atingia o auge na Europa, Schönborn fez dois comentários explicitamente críticos sobre Sodano.

Primeiro, Schönborn disse que Sodano bloqueou uma investigação de acusações de abuso sexual contra o falecido cardeal Hans Hermann Groër, de Viena. Groër, que morreu em 2003, era acusado de cometer abuso por vários ex-monges noviços na abadia beneditina na Áustria, onde servia como abade. As acusações contra Groër tornaram-se públicas em 1995, produzindo uma grande crise na igreja austríaca. Três anos depois, Schönborn liderou um grupo de bispos austríacos que anunciaram estar “moralmente certos” da culpa de Groër.

Em segundo lugar, Schönborn disse que os comentários de Sodano durante a missa do Domingo de Páscoa de 2010, no Vaticano, em que Sodano comparou os ataques ao papa Bento XVI por sua forma de lidar com a crise com “fofocas mesquinhas”, que causavam “danos maciços” às vítimas de abuso sexual.

Até hoje, não está claro se Schönborn não pensou que aquela conversa estivesse sendo gravada, embora talvez isso realmente não importe. A ideia de que se pudesse questionar aos repórteres sobre a integridade de um colega cardeal e não esperar que vazasse é simplesmente burra, e Schönborn, um dominicano multilíngue e indiscutivelmente o melhor teólogo do colégio é tudo menos isso.

Em resposta, Schönborn foi convocado ao Vaticano para uma sessão de reconciliação presidida por Bento XVI, depois que um porta-voz do Vaticano apontou que, nos termos do cânone 1405 do Código de Direito Canônico, é prerrogativa exclusiva do Papa julgar um cardeal, e não de outro membro do clube.

(Esse cânone, a propósito, é novamente relevante hoje no caso do cardeal Angelo Becciu, o ex-sostituto na Secretaria de Estado, acusado de várias formas de corrupção financeira. A questão é, quando o papa Francisco pediu a demissão de Becciu de seus direitos como cardeal, mas não o chapéu vermelho propriamente, em 24 de setembro, isso significa que o cânone 1405 não se aplica e Becciu está ainda sujeito à jurisdição do tribunal do Vaticano?)

Depois que Schönborn e Sodano reuniram-se em 28 de junho de 2010, uma declaração do Vaticano sugeriu que Schönborn reconheceu que Sodano tem “os mesmos sentimentos de compaixão” pelas vítimas de abusos sexuais, e o mesmo “sentimento de condenação”, que Bento XVI. No entanto, não abordou a alegação de Schönborn sobre o papel que Sodano desempenhou no caso Groër, essencialmente permitindo que ele se mantivesse.

Parece altamente improvável que as coisas ocorram da mesma forma desta vez.

Por um lado, Sodano não era mais o secretário de Estado quando Schönborn falou, e Bento XVI pode ter sentido que Sodano não tinha mais peso para lidar com as coisas sozinho. Parolin, entretanto, está no auge de seus poderes e certamente pode cuidar de si mesmo.

Por outro lado, Zen estava em Roma na semana passada buscando uma audiência com o pontífice, então se Francisco quisesse emitir uma correção fraterna pessoalmente, ele certamente poderia ter feito. A abordagem do Papa para tais coisas, no entanto, é geralmente congelar seus críticos – como sua não resposta aos “cardeais das dubia”, o principal caso em questão.

Com toda a probabilidade, Francisco ficará fora disso; Parolin, sempre o diplomata, se recusará a responder na mesma moeda e não tomará nenhuma atitude; e o Zen, alimentado por um forte senso de convicção, não recuará.

Em outras palavras, provavelmente não haverá um confronto dramático em Roma para acertar as coisas, seguido por uma declaração pública para salvar as aparências. Em vez disso, a guerra de palavras – reconhecidamente de forma unilateral, a resposta de Parolin vem em busca da détente com a China, independentemente do que o Zen diga – continuará. Pode ser difícil imaginar o quanto o Zen poderia ser mais contundente, mas onde há vontade, geralmente há distância.

Em outras palavras, nada sobre a política do Vaticano para a China poderá ser afetada por nada disso. O Colégio Cardinalício é administrado como uma sociedade educada, por outro lado, talvez em grande risco.

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