O estranho acordo entre Pequim e o Vaticano

Igreja de São José, em Pequim | Foto: Morio - Wikimedia Commons

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24 Setembro 2018

"Não é possível caminhar sozinhos. Às vezes é necessário arriscar juntos": disse o Papa Francisco para os jovens lituanos no Encontro de Vilnius, no sábado. Palavras úteis para ler o Acordo entre a China e o Vaticano.

O comentário é de Luis Badilla, jornalista, publicado por Il Sismografo, 22-09-2018.

Agora é oficial e, embora a notícia já fosse bastante conhecida e divulgada, afetou muito a dinâmica e a programação das principais mídias do mundo. Algumas horas atrás, foi assinado um Acordo definido como "provisório" entre a Santa Sé e o governo chinês. É um Acordo estranho que não agrada totalmente às partes (signatários), mas que ainda assim o consideram absolutamente necessário e não mais adiável após vários anos de negociações. A dimensão histórica do acordo abre o horizonte a muitas esperanças que, se ao longo do "caminhar juntos" se tornarão novos consensos compartilhados, mudarão a face atual das relações entre a Santa Sé e a nação chinesa.

Gian Maria Vian, diretor de L'Osservatore Romano escreve: "Certamente é destinada a entrar para a história a data de 22 de setembro: pela assinatura, em Pequim, de um acordo provisório sobre a nomeação de bispos entre a China e a Santa Sé preparado por décadas de longas e pacientes negociações, enquanto o Papa inicia sua visita aos países bálticos". O padre Antonio Spadaro, diretor de La Civiltà Cattolica observou: "Pode ser considerado o incipit de uma composição totalmente nova a ser desenvolvida. Não se trata, portanto, da conclusão de um processo, mas de seu verdadeiro começo a ser implementado por meio de instrumentos de verificação e aperfeiçoamento do texto."

O Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin, aponta: "Pela primeira vez depois de muitas décadas, hoje todos os bispos na China estão em comunhão com o Bispo de Roma. O Papa Francisco, como seus imediatos antecessores, olha e se dirige com uma atenção toda especial e muito cuidado ao povo chinês. Há necessidade de unidade, há necessidade de confiança e um novo ímpeto; há necessidade de ter bons Pastores, que sejam reconhecidos pelo Sucessor de Pedro e pelas legítimas autoridades civis de seu país. E o Acordo coloca-se precisamente nesse horizonte: é um instrumento que esperamos possa ajudar nesse processo, com a colaboração de todos". O Card. Parolin conclui: "Para a comunidade católica na China – para os bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis - o Papa confia de maneira especial o compromisso de viver o autêntico espírito de reconciliação entre irmãos, colocando gestos concretas que ajudem a superar as incompreensões do passado, mesmo do passado recente. Dessa forma os fiéis, os católicos na China, poderão testemunhar a própria fé, viver um genuíno amor pela pátria, e também se abrir para o diálogo entre todos os povos e para a promoção da paz".

O acordo é curiosamente assimétrico. A assinatura do lado chinês é do Ministério das Relações Exteriores. A assinatura do Vaticano é a da Secretaria de Estado. Um referente político-estatal e um referência religioso-eclesiástico. Dois referentes que, inclusive, até hoje não tinham se reconhecido reciprocamente de maneira oficial e solene com todas as consequentes codificações jurídicas. Essa "raridade" já é um grande sucesso das partes que, de fato, confiam, olham uma para a outra e decidem empreender, juntas, um percurso cheio de obstáculos, mas cheio de possibilidades e esperanças. É, portanto, a “raridade” do Acordo que o torna, embora “provisório”, um movimento poderoso que rompe o que Bento XVI, em sua Carta aos católicos chineses, lamentava: "a solução dos problemas existentes não pode ser perseguida através de um permanente conflito com as legítimas autoridades civis; ao mesmo tempo, no entanto, não é aceitável uma rendição às mesmas quando interferem indevidamente em matérias que dizem respeito à fé e à disciplina da Igreja”.

O caminho parece agora ter sido encontrado e o acordo o torna oficial, igualmente exigente para ambas as partes. As autoridades civis chinesas e da Igreja Católica na China, e a Sé Apostólica, estão agora diante das condições mínimas necessárias para construir juntos o futuro das suas relações em benefício dos cristãos chineses e do bem comum e da paz de toda a nação. O Acordo abre um horizonte de esperanças para dar vida e corpo real. Esse desafio, para algumas mentalidades pragmáticas e utilitaristas, é perigoso e, portanto, criticável. É um direito delas, mas, nestes casos, quem decide é a história, o tempo.

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