A prioridade da solidariedade, Francisco no acerto das contas

Papa Francisco. | Foto: Vatican News

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14 Outubro 2020

"Ao contrário de todos os outros governantes poderosos da Terra, Francisco entendeu e tenta explicar que a crise atual não pode ser enfrentada sem uma inversão radical dos princípios que regem o sistema. Longe de desenvolvimento sustentável!", escreve Guido Viale, sociólogo e escritor italiano, em artigo publicado por il manifesto, 10-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Não são as lutas pelo poder internas ao Vaticano que colocam em risco a autoridade do Papa Francisco, mas sua tentativa de prospectar uma virada radical para proteger a humanidade da crise climática e ambiental que paira sobre as nossas vidas.

A encíclica Laudato si' havia aberto um horizonte de compreensão e sentido baseado na interconexão e continuidade e entre o ser humano e os ciclos geológicos e biológicos que regem a vida em nosso planeta: todos somos feitos da mesma matéria. Mas a degradação do meio ambiente atinge sobretudo os pobres da Terra, os mais expostos às suas consequências. Justiça social - reequilíbrio entre quem tem demais e quem tem de menos - e justiça ambiental - salvaguarda dos ecossistemas - são inseparáveis e os mais interessados em salvaguardar a “casa comum” são os pobres, os explorados, os oprimidos. Neste horizonte, em que a crise ambiental e climática continua sendo pano de fundo, sem o qual não é possível apreender as razões e a urgência de uma subversão radical de nosso modo de estar no mundo, a nova encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti, coloca em foco a necessidade de subverter as relações sociais vigentes.

A resposta à crise são a fraternidade e a solidariedade: que não são apenas sentimentos, ou atitudes, ou comportamentos, mas um verdadeiro sistema social baseado na partilha dos bens da Terra, que se contrapõe frontalmente ao sistema social atual - Francisco aponta e condena explicitamente o "neoliberalismo" - fundado naquele princípio de competição universal que chamamos de "pensamento único". “Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum - escreve Francisco - são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações ... nesta luta de interesses que nos coloca a todos contra todos, onde vencer é sinônimo de destruir”. Tanto é que “o risco de viver acautelando-se uns dos outros, vendo os outros como concorrentes ou inimigos perigosos, é transferido para o relacionamento com os povos da região”.

Contra isso, “Solidariedade é uma palavra que ...é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridades da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destruidores do império do dinheiro. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem”. Essas afirmações são retiradas do discurso aos participantes do primeiro encontro mundial de movimentos populares (Roma, 28 de outubro de 2014). Fratelli tutti é em grande parte um compêndio de citações de intervenções anteriores de Francisco (ou de outros pontífices e autoridades eclesiásticas, para legitimar suas afirmações): o que muitas vezes torna o texto redundante, longe da clareza cristalina da Laudato Sì’.

A contraposição entre os dois modelos sociais opostos põe em discussão a função social da propriedade: “Nos primeiros séculos da fé cristã - recorda Francisco - vários sábios desenvolveram um sentido universal na sua reflexão sobre o destino comum dos bens criados. Isto levou a pensar que, se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido. São João Crisóstomo resume isso, dizendo que, «não fazer os pobres participar dos próprios bens, é roubar e tirar-lhes a vida; não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos. E São Gregório Magno di-lo assim: ‘Quando damos aos indigentes o que lhes é necessário, não oferecemos o que é nosso; limitamo-nos a restituir o que lhes pertence’”.

É indubitável que o ditado de Proudhon ressoe nessas citações: "A propriedade é um roubo". Mas, enquanto os "grandes jornais" tentaram cobrir a radicalidade dessas afirmações com uma cortina de silêncio, muitos comentaristas reacionários e malévolos a compreenderam perfeitamente, como, por exemplo, em La Verità, Marcello Veneziani: que acusa a encíclica de "comunismo" (que novidade! Mas isso é um crime?) e Ettore Gotti Tedeschi (ex-banqueiro do Vaticano) que chega até a atribui o papel de criador da meritocracia ao "verdadeiro" São Francisco.

Mas o Papa Francisco sabe muito bem o que estava enfrentando; e reiterar que “o princípio do uso comum dos bens criados para todos é o 'primeiro princípio de toda a ordem ético-social'” também chama em causa o Papa Wojtyla. Assim, "o direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados...’quem possui uma parte é apenas para s administrar em benefício de todos’". Em outras palavras, a Terra é um "bem comum" ao qual todos deveriam ter acesso; em particular, o que torna Marcello Veneziani mais indignado do que qualquer outra coisa, são os refugiados e migrantes: “podemos dizer que cada país é também do estrangeiro, já que os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar". Ao contrário de todos os outros governantes poderosos da Terra, Francisco entendeu e tenta explicar que a crise atual não pode ser enfrentada sem uma inversão radical dos princípios que regem o sistema. Longe de desenvolvimento sustentável!

 

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