Lutero, uma herança no social

Reforma Luterana, obra de Julius Hübner | Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Outubro 2017

Em 1917, 400 anos depois das 95 teses de Lutero, várias igrejas que surgiram a partir da Reforma estavam diante de um problema: sentir-se unidas por uma celebração que era motivo de coesão identitária ou enfrentar o fato de que seus países estavam no meio de uma guerra mundial? Aceitar o legado do monge agostiniano, que serviu de articulação entre o final da Idade Média e a modernidade, ou adaptar-se à política dramática de guerra que colocava como primeira exigência a de combater o inimigo? Pela primeira vez, talvez, as igrejas luteranas dos EUA sentiram-se plenamente americanas, apesar da filiação direta das "igrejas irmãs" da Alemanha. E o que dizer dos protestantes que, na Europa, viram seus próprios territórios ocupados pela Alemanha nazista? É possível compartilhar a mesma fé em Deus com aqueles contra quem está se lutando?

O artigo é de Alberto Corsani, publicada por il Manifesto, 26-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Lidar, hoje, com cinco séculos de Reforma protestante também inclui esse reconhecimento: por mais que a mensagem de fé em Jesus Cristo seja universal e dirigida a toda a humanidade, a família protestante no mundo, em relação à igreja católica romana vê-se fracionada, embora qualquer pessoa, em qualquer latitude pode se sentir partícipe de uma comunidade cristã; claro, reunir-se no âmbito de uma igreja significa ainda ter que lidar com a dimensão terrena da existência, dimensão distante de ser perfeita; mas, por outro lado, nenhuma igreja, na visão protestante, pode esperar ser a única. E, de fato, aquelas nascidas da Reforma também têm uma identidade nacional, a partir dos Valdenses, disseminados como movimento já três séculos antes de Lutero.

A consciência de suas limitações caracteriza a essência protestante: um conhecimento de si que encontra a sua vazão natural no enraizamento social. Se isso para os Valdenses acabou se traduzindo na defesa extenuante de seu próprio terreno montanhoso, para todos os demais tal atitude significou e ainda significa inserir-se na sociedade e investir na comunidade civil a resposta pessoal do chamado (vocação) recebido de Deus, realizando obras memoráveis, mas também atrocidades como o regime sul-africano do apartheid, que foi uma blasfêmia para a doutrina calvinista. Contudo, contra as infecções podem ser aplicados anticorpos: isso é o que aconteceu quando a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas (hoje, Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas - ramo calvinista da Reforma) suspendeu na década de 1980 duas igrejas sul-africanas de origem holandesa pelo apoio dado ao regime racista; uma acabou sendo perdida no caminho e a outra foi readmitida depois de condenar os próprios posicionamentos.

Cada um de nós - pela definição de Lutero – é simul iustus et peccator, ao mesmo tempo tornado justo por Deus mas, ainda assim, humano e propenso ao pecado.

Em torno dessa dialética entre universalidade e enraizamento, desenvolveram-se também as iniciativas do 500º aniversário, que começaram em 31 de outubro de 2016 na catedral luterana de Lund, na Suécia, com a participação do papa Bergoglio para indicar uma desejada nova fase nas relações entre catolicismo e igrejas nascidas da Reforma. A sua presença junto à "família luterana mundial”, mesmo causando problemas a alguns opositores no âmbito católico, que veem a Igreja de Roma "protestantizar-se", sinalizou que existem condições para iniciar uma leitura compartilhada, tanto quanto possível, do passado.

Um novo olhar para uma nova compreensão - como testemunhado pela bela conferência organizada em novembro passado pela Conferência Episcopal e pelas igrejas evangélicas, justamente em Trento, que foi a sede do Concílio - por parte de igrejas que têm um problema em comum: paróquias católicas e igrejas do protestantismo histórico estão se esvaziando, sob a influência cruzada da secularização e do progresso científico.

A tendência natural protestante para a consciência crítica (por séculos listada sob a rubrica de "individualismo protestante") acaba por expor as igrejas da Reforma a uma autocrítica ferrenha, não avistada por enquanto no horizonte de outros grupos neo-protestantes (evangélicos) que veem aumentar os fiéis e a participação nos serviços litúrgicos, tanto na Ásia e na África como em países como o nosso, que acolhem (quando o fazem) imigrantes evangélicos vindos do terceiro mundo.

Há também outros âmbitos em que as igrejas nascidas da Reforma se manifestam e dialogam com a Igreja católica (e em parte também com o mundo ortodoxo). Já estabelecidos há décadas, os estudos teológicos em parceria com as Universidades católicas e as traduções e estudos filológicos sobre a Bíblia, demonstram as sinergias nos setores de acolhimento e assistência, como testemunhado pelos "corredores humanitários" para requerentes de asilo, iniciados em março de 2016 pela Federação das igrejas protestantes da Itália com a Comunidade de S. Egidio e a ‘Tavola’ Valdense, através de um protocolo assinado com os ministérios do Interior e das Relações Exteriores, modelo retomado durante o último verão pelos protestantes franceses.

As notas negativas situam-se mais no nível eclesiológico que teológico: a estrutura hierárquica da Igreja Católica, apesar da obra de décadas de alguns setores de vanguarda (por exemplo, no campo dos casamentos inter-religiosos), torna-lhe difícil considerar as outras igrejas no mesmo plano. Além disso, no plano ético é que ocorrem as maiores discussões.

O caráter mais normativo que dialogante da Igreja de Roma é rejeitado por ser 'impositivo' por parte da cultura secular: reprodução assistida, fim da vida, eutanásia e suicídio assistido e ética sexual, diante de posições bastante rígidas no lado católico, sinalizam uma tendência das igrejas protestantes que se foca muito mais sobre a autonomia e consciência do indivíduo, em linha com a prática do livre acesso ao fundamento da vida cristã, ou seja, as Escrituras bíblicas, sede da revelação de Deus para a humanidade. Acontece, porém, que o mundo não-católico, na Itália, tende a interpretar essa acentuação na liberdade do indivíduo, empurrando-a um pouco "além".

O protestante crente é, de fato, sim livre, mas "livre para servir", ou seja, para servir, amando-o, o próprio próximo (Epístola aos Gálatas, 5, 1-3): e isso acontece com o cuidado dos próprios semelhantes, dentro da sociedade e não nas margens da mesma; além disso, é na sociedade e na política que se investe a existência do/a crente protestante, envolvido com a própria consciência e consciente de não representar uma igreja inteira.

Na raiz dessa atitude, no entanto, está a crença de que essa liberdade não é o resultado das nossas conquistas, mas nos foi dada. Mais que livre, o/a protestante sabe que foi "tornado/a livre", e por isso é grato a Deus. Ter sido tornado/a livre significa saber que dessa autonomia um dia vamos ter que responder a quem a doou para nós gratuitamente. Cada resultado é provisório, da mesma forma que esse ano de celebrações, que deve ser entendido como um novo, adicional ponto de partida.

Leia mais