"A violência é o pecado original da religião"

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11 Outubro 2017

Os textos sagrados das grandes religiões há milhares de anos estão encharcados de sangue. É um clichê, mas é verdade. Contudo, a inspiração pela violência é frequentemente abandonada e, outras vezes, ao contrário, tragicamente explorada. A pergunta que se repete é: como e por que isso acontece. Vamos apresentá-la a José Casanova, espanhol de Zaragoza, mas residente em Washington (Georgetown University), um dos principais especialistas no mundo em sociologia da religião, traduzido em várias línguas (em italiano conhecemos a sua obra Oltre la secolarizzazione, Il Mulino, 2000).

A intoxicação originária não é incurável, diz ele, as fases violentas ocorrem em ciclos. Sites na web em todo lugar contabilizam com fanatismo a violência "dos outro": mãos cortadas e matança de infiéis invocados no Alcorão ou extermínios realizados ou propiciado pelo Deus da Bíblia ou mesmo as cabeças cortadas das escrituras hindus, o tridente de Shiva. Nenhuma religião é inocente.

"A violência está nas origens da sociedade, ou como diria Durkheim no sagrado social, mais que na religião em si. E isso sem dúvida alguma se reflete nas Escrituras, mas com o tempo as coisas mudam. Na Bíblia, por exemplo, é necessário distinguir entre textos anteriores ao exílio babilônico e os sucessivos. O Deus de Israel sacraliza a violência contra os outros povos, era um Deus monolátrico, não monoteísta, um Deus de Israel não de toda a humanidade. Depois do exílio na Babilônia, naquela que chamamos de era axial (Casanova usa a expressão de Jaspers para indicar a época entre o oitavo e o terceiro século a.C., ndr), os profetas não sacralizam mais a violência, ao contrário, o Deus da história usa o Império romano para punir o seu povo".

A entrevista é de Giancarlo Boselli, publicada por Repubblica, 10-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis a entrevista.

Isso vale para todas as religiões?

Todas as culturas tribais das origens sacralizam a violência do "nosso grupo" contra os outros. A novidade das religiões axiais é que a dessacralizam: chegam assim à crítica profética da violência e ao fim dos sacrifícios sangrentos.

A violência, no entanto, permanece para sempre inscrita nos textos sagrados.

Encontramos nas Escrituras uma mistura de textos da sacralização da violência e de outros que expõem a crítica da violência. Isto levanta a questão de como os textos foram e são interpretados e utilizados na história.

E nenhuma religião é exceção, embora cada confissão seja tentada a acusar as outras.

Nós poderíamos usar as palavras do Papa Francisco: ‘Diante das atrocidades cometidas em nome de Deus ou da religião, nenhuma religião é imune a formas de decepção pessoal e extremismo ideológico’, nenhuma, incluindo o Cristianismo e o Catolicismo. Eu venho de Espanha católica, onde a religião e a violência estão intimamente ligadas: as Cruzadas, a Inquisição, a expulsão dos judeus e dos muçulmanos, a Conquista e a evangelização forçada, as guerras civis.

Também os ateus militantes contabilizam a lista das violências a cargo das religiões. Os religiosos respondem lembrando a lista dos massacres do século XX e as páginas negras do ateísmo.

A religião não é a única fonte de violência. Entre o final do século XIX e início do século XX, vimos a sacralização da violência anarquista; com a Primeira Guerra Mundial o Estado moderno, que reivindica o monopólio da violência, a sacraliza no do nacionalismo; tem o genocídio armênio; tem a violência comunista dos anos 1930, o Gulag, Hitler e o Holocausto; da década de 1960 temos o IRA, o ETA, as Brigadas Vermelhas, os padres guerrilheiros na Colômbia, os católicos Montoneros na Argentina. O século XX foi o mais violento na história da humanidade e a maior parte da sua violência não era religiosa.

Mas hoje temos uma onda de terrorismo religioso, o terrorismo islâmico.

Mais uma vez, devemos nos perguntar quais os fatores que desencadeiam o fenômeno do terrorismo jihadista e por que esta religião se torna fonte de violência. Seu crescimento ocorre durante uma globalização para a qual determinados setores do Islã legitimam a violência contra o que eles consideram uma ordem mundial que usa de violência contra ele.

O próprio Catolicismo no passado considerava a modernidade um assalto aos seus princípios morais.

Claro, contudo sofreu ao longo do tempo uma grande transformação. Junto com os protestantes, os católicos criaram na Alemanha, a Democracia cristã. Diante dos sangrentos conflitos entre xiitas e sunitas dos nossos dias, acredito que se a transformação ocorreu para os cristãos, pode acontecer também com os muçulmanos, quando as vozes em favor da pacificação vierem a superar aquelas que sacralizam a violência.

O budismo é candidato ao papel de primeiro da classe, por que é mais pacífico? O imperador Ashoka no século III a.C. converteu-se do hinduísmo ao budismo e deixou gravados na rocha seus editais sobre a tolerância. Mas agora sobe ao palco o terror budista.

Os monges budistas são uma ordem armada como todas as outras que se associaram a um poder estatal e aconteceu a eles o que aconteceu com todos quando uma religião se torna sacralização do Estado. Mas há sempre a possibilidade de que as religiões axiais façam prevalecer o rosto pacífico e a parte de sua tradição que as leva a dizer Salam, Shalom ou Paz.

Mas o Islã com a Sharia não apresenta problemas maiores do que as outras religiões no caminho para a modernidade?

A Sharia não era um problema no nascimento das primeiras constituições no Irã ou no Paquistão, na virada do século entre 1800 e 1900. Tornou-se mais tarde. A própria tradição pode ser lida de outras maneiras. A violência jihadista não será diferente das outras do passado, daquela anarquista ou marxista.

A tentação iluminista é de imaginar na história um processo de redução da violência. Mas a realidade nos diz o contrário.

Não é possível fazer generalizações. A combinação de religião e estruturas de poder é a chave explicativa tanto no bem como no mal. Na Espanha, houve a época da convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos, e o mesmo aconteceu em outros lugares, mas com o surgimento do Estado moderno, das monarquias católicas, afirmou-se o impulso para a limpeza étnico-religiosa. Sempre que o modelo westfaliano - cuius régio eius religio – foi afirmado, o fenômeno se repetiu. No fim dos impérios, daquele otomano e do britânico. Não há nisso uma única trajetória, mas ciclos. Mas também existem boas notícias e ciclos de paz. A América Latina em uma única geração passou do monopólio católico à perda de hegemonia da Igreja e a um pluralismo compartilhado com os protestantes. Sem violência.

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