Muhammad Yunus: "Para minha amiga Aung San Suu Kyi digo: volte a ser humana e pare a perseguição aos Rohingyas"

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13 Setembro 2017

Entrevista com o bengali Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz, o "banqueiro dos pobres": "É hora de dizer basta. Tentei ligar para Aung, mas não me atendeu: ganhou o Nobel por sua coragem, por sua luta pelos direitos humanos; está na hora de justificar essa distinção. Mas parece ter perdido todas as suas qualidades".

A entrevista é de Francesca Caferri, publicada por Repubblica, 11-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Assistimos a toda essa violência há muito tempo: aldeias bombardeadas, famílias atacadas, estupros, mortes. Milhares de pessoas estão fugindo para o Bangladesh, mas o meu é um país paupérrimo e não pode suportar sozinho essa pressão. É hora de dizer basta: deve dizê-lo o governo birmanês e deve dizê-lo Aung San Suu Kyi. Suplico-lhe que volte a ser ela mesma, a ser humana, e parar com tudo isso".

A voz geralmente pacata de Mohammed Yunus treme de raiva. Bengali, prêmio Nobel da Paz, amigo pessoal de Suu Kyi, o "banqueiro dos pobres" trabalha nas sombras há meses para acabar com a violência contra a etnia Rohingya em Mianmar. Mas, diante da escalada dos confrontos das últimas semanas, decidiu vir a público.

Eis a entrevista.

Quem é responsável pelo que está acontecendo?

É o governo birmanês, não há dúvida: essas pessoas estão fugindo de seu país, não de outro lugar. Um governo tem a obrigação de responder por todos os seus cidadãos, minorias incluídas.

E Aung San Suu Kyi?

Eu sempre espero que se manifeste, que se mostre firme e corajosa como era no passado. Ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz por sua coragem, por sua luta em nome dos direitos humanos: está na hora de justificar essa distinção, provando que o Comitê Nobel estava certo quando a escolheu. Mas parece ter perdido todas as suas qualidades. Gostaria que acordasse e voltasse a ser ela mesma, a mulher que eu conhecia e admirava.

Vocês dois são amigos. Discutiram sobre este assunto?

Eu liguei para ela duas vezes. Ela recusou-se a falar comigo.

O que você queria dizer-lhe?

Que, como líder de uma nação, e ainda mais como ser humano, deveria ser responsável por todo o seu povo, independente da religião que as pessoas seguem ou da minoria a que pertencem. Existem milhares de pessoas em fuga de seu país, isso não é aceitável; um Nobel da Paz deveria querer um país onde todos vivem em paz, não fogem da morte. Eu queria dizer a ela que devemos trabalhar juntos nessa crise, porque assim seremos mais forte: não foi possível.

Você concorda com quem diz que deveriam tirar-lhe o Nobel?

Não é esse o ponto. Não é ela o problema: o problema é a perseguição dos Rohingyas e retirar-lhe o Nobel não ajudaria os Rohingyas. A Aung cabe agora mostrar porque ela ganhou aquele Nobel.

O Papa em breve visitará o Bangladesh: vai falar com ele sobre a situação?

Se eu tiver a oportunidade de conhecê-lo, sim. A sua é uma voz forte em defesa da paz e eu quero trabalhar pela paz. Não posso permitir que o que está acontecendo seja ignorado. Espero que o mundo faça o mesmo, que a pressão da mídia, das ONGs e dos governos permita a chegada de ajuda e de observadores internacionais: só assim poderemos esperar sair dessa crise.

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