20° Domingo do Tempo Comum - O banquete do Reino está aberto a todos

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13 Agosto 2026

"Como filho de Israel, Jesus obedece aos tempos inscritos no sábio plano de Deus, reservando sua atividade, por ora, ao povo da aliança e das bênçãos: somente após a sua ressurreição ele enviará seus discípulos, ordenando-lhes que façam discípulos de todas as nações (cf. Mt 28,19)...".

A reflexão é de Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose.

Eis a reflexão. 

Mt 15,21-28

Naqueles dias, Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananeia, vinda daquela região, clamou: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Minha filha está gravemente endemoninhada”. Mas ele não lhe respondeu. Então, aproximaram-se os seus discípulos e lhe suplicaram: “Despede-a, pois ela vem gritando atrás de nós”. Ele respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Mas ela aproximou-se, prostrou-se diante dele e disse: “Senhor, ajuda-me!”. Ele disse: “Não é certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorros”. “Sim, Senhor”, disse ela, “mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Então Jesus lhe respondeu: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito a ti como desejas”. E naquele instante a filha dela foi curada.

Após a discussão com os fariseus que desceram de Jerusalém e o ensinamento sobre o que realmente torna o homem impuro (cf. Mt 15,1-20), Jesus deixa Genesaré, uma cidade localizada na terra de Israel, e "retira-se para as regiões de Tiro e Sidom": rejeitado pelas autoridades religiosas judaicas, ele se distancia dirigindo-se para o norte, em direção ao território pagão, como o profeta Elias fizera em seu tempo (cf. 1 Reis 17,2-24).

Enquanto ele estava nessa região fronteiriça, uma mulher cananeia, portanto pagã — Marcos a chama mais precisamente de "siro-fenícia" (Mc 7,26) — veio ao seu encontro, implorando: "Tem misericórdia de mim, Senhor, Filho de Davi! Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio". Ela o aclamava como o Messias, mostrando assim que compreendia as expectativas de Israel; não só isso, mas suas palavras indicavam grande confiança na capacidade de Jesus de curar sua filha.

Contudo, ele não lhe respondeu. Os discípulos então intercederam pela mulher, pedindo a Jesus que ao menos dissesse uma palavra de despedida, visto que ela continuava a clamar em necessidade. Mas ele respondeu: "Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel" ; além disso, ao enviar os Doze em sua missão, ele já os havia instruído a se dirigirem somente a esses mesmos destinatários (cf. Mt 10,6).

Como filho de Israel, Jesus obedece aos tempos inscritos no sábio plano de Deus, reservando sua atividade, por ora, ao povo da aliança e das bênçãos: somente após a sua ressurreição ele enviará seus discípulos, ordenando-lhes que façam discípulos de todas as nações (cf. Mt 28,19)...

Mas a mulher insiste e, prostrando-se aos pés de Jesus, persevera em sua súplica: "Senhor, ajuda-me!" Desta vez, Jesus responde, ainda que negativamente: "Não é certo tomar o pão reservado para os filhos", isto é, para Israel, o filho primogênito (cf. Êxodo 4,22), "e jogá-lo aos cachorros", os animais impuros pelos quais as Escrituras designavam os pagãos.

A mulher primeiro demonstra que concorda com o raciocínio "teológico" apresentado por Jesus ("É verdade, Senhor"), mas depois acrescenta uma consideração extraordinária: "Até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos". Estas são palavras que revelam uma fé profunda e inteligente; é como se ela estivesse dizendo: "Sim, nós, pagãos, somos os cachorros; mas tenho fé de que Deus, que em seu amor alimenta a todos, também não nos deixará necessitados".

Jesus percebe a fé da mulher nessas palavras e permite ser desafiado por ela, a ponto de mudar seu próprio comportamento: "Mulher, grande é a tua fé! Seja feito a ti como desejas", uma ordem poderosa que imediatamente resulta na cura de sua filha. Mas essa declaração de Jesus deve ser compreendida em toda a sua riqueza.

Ele não impõe condições à mulher; não lhe diz: "Se tiveres fé, farei por ti o que desejas", assim como nunca disse a ninguém: "Se tiveres fé, eu te salvarei". Não, Jesus reconhece a fé daqueles que o precedem e sabe como depositar nela a sua confiança .

Por isso, repete frequentemente: "A tua fé te salvou" (Mt 9,22; Mc 10,52), ou, como diz a outro pagão, o centurião romano: "Seja feito segundo a tua fé" (Mt 8,13). Eis um elemento fundamental da autoridade de Jesus: sua capacidade de fazer com que as pessoas que encontra cresçam e floresçam, abrindo espaços inesperados para uma nova vida. Assim, ele derruba as barreiras que separam os homens e nos ensina que, quando realmente encontramos uma pessoa, essa pessoa deixa de ser definida pelas paredes que a separam e volta a ser simplesmente um ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus.

Este encontro com a mulher cananeia marca uma importante abertura de Jesus aos pagãos, assim como a subsequente multiplicação dos pães, ao final da qual restarão sete cestos de pedaços, simbolizando os setenta povos da terra (cf. Mt 15,32-39); entre esses povos – não nos esqueçamos – nós, cristãos de origem pagã, também devemos ser contados… Por meio desses sinais, Jesus nos mostra que o banquete do Reino está aberto a todos (cf. Mt 8,11): devemos nos lembrar disso quando formos tentados a erguer novos muros, frutos do nosso próprio zelo maligno…

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