Voto ético

Urna Eleitoral. | Foto: TRE-RJ, Flckr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Outubro 2018

"O comportamento ético do ser humano - em nível de Opção fundamental, de Atitudes e de Atos - é o comportamento mais humano natural e mais natural humano “possível” numa determinada situação histórica concreta", Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP), professor aposentado de Filosofia da UFG, 03 de outubro de 2018. 

Eis o artigo.

Como eterno aprendiz de filósofo e teólogo da Ética, apresento critérios - racionais (filosóficos) e racionais à luz da (teológicos) - para que, nas eleições políticas, o nosso voto seja ético.

O ser humano é natureza (parte integrante da natureza) e “sabe” que é natureza. Ora - por “saber” que é natureza - ele é um ser histórico, situado (num lugar) e datado (num tempo). A natureza é o jardim e o ser humano (além de ser parte integrante do jardim) é o jardineiro. O jardim não existe sem o jardineiro e o jardineiro não existe sem o jardim.

O comportamento ético do ser humano - em nível de Opção fundamental, de Atitudes e de Atos - é o comportamento mais humano natural e mais natural humano “possível” numa determinada situação histórica concreta.

É à luz desse princípio que surgem critérios para que o nosso voto (ou seja, o nosso ato de votar) seja ético:

1. Critério estrutural (sistêmico):

Antes de votar, precisamos fazer um juízo ético (juízo de valor) racional (filosófico) e racional à luz da (teológico) sobre o sistema capitalista neoliberal no qual vivemos. Como diz o ditado: pelos frutos conhecereis a arvore. Os principais frutos do sistema capitalista neoliberal são: desigualdade institucionalizada e legalizada: uma violência estrutural permanente, que gera outras violências pessoais e de grupos; idolatria do dinheiro ou primado do deus dinheiro, ao qual tudo é sacrificado, inclusive a vida humana e todas as formas de vida; práxis (unidade dialética de prática e teoria) antiecológica, que destrói sistemática e permanentemente a natureza (a nossa Irmã Mãe Terra) para obter lucros cada vez mais exorbitantes.

Um sistema estruturalmente desigual, idólatra e antiecológico pode ser melhorado e humanizado? Por se tratar de iniquidade estrutural (que, filosoficamente, chamamos de “mal moral estrutural” e, teologicamente, de “pecado estrutural”), a resposta é: não.

Essa iniquidade estrutural ou sistêmica - que assume vários rostos nas áreas da saúde, educação, cultura, ecologia, trabalho e outras - só pode ser vencida e superada mudando as estruturas. E, mudando as estruturas, muda o sistema. Trata-se de um mal ou pecado objetivo que não depende somente da vontade individual das pessoas.

2. Critérios pessoais:

Antes de votar, precisamos:

a. tomar consciência crítica do “mal moral estrutural” ou “pecado estrutural” que existe no Brasil e no mundo;

b. posicionar-se claramente contra esse mal ou pecado;

c. descobrir caminhos novos para vencê-lo;

d. estar dispostos a participar - de acordo com as capacidades e possibilidades de cada um/uma - das lutas dos Movimentos Populares. Sindicatos de Trabalhadores/as, Partidos Políticos, Comitês ou Fóruns de Direitos Humanos e outras Organizações, comprometidos/as com o Projeto Popular (social, econômico, político, ecológico e cultural), que é a Sociedade do Bem Viver e do Bem Conviver ou, à luz da , o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo;

e. por fim, ter consciência que - construindo o Projeto Popular - estamos construindo um sistema alternativo, estruturalmente justo e que poderá ser sempre aperfeiçoado.

“Pergunto-me - diz o Papa Francisco - se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza? Se é assim - insisto - dígamo-lo sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos... E nem sequer o suporta a Terra, a Irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”.

O Papa diz ainda que este sistema insuportável “exclui, degrada e mata!”. E continua afirmando: “Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que atinja também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença” (Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).

Os critérios apresentados para que o nosso voto seja ético são válidos também para toda práxis (unidade dialética de teoria e prática) política. Meditemos!

“Cuidado com os falsos profetas: eles vêm a vocês vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes” (Mt 7,15). A responsabilidade pelo Brasil é nossa! Que o voto seja realmente um exercício consciente de cidadania! E que Deus nos ilumine!

Leia mais