Perder a ingenuidade, voltar a pensar a guerra

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22 Março 2022

 

“Tinha razão quem, durante as mobilizações contra a Guerra do Iraque, em 2003, revirou o slogan altermundialista e escreveu nas paredes: ‘paremos o mundo, outra guerra é possível’. Qual é hoje a guerra dos que não têm e nem querem o poder, a guerra dos que não querem a guerra?”, reflete Amador Fernández-Savater, pesquisador independente e ativista, autor do livro em espanhol La fuerza de los débiles: ensayo sobre la eficacia política (Akal, 2021), em artigo publicado por Ctxt, 19-03-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

“A guerra não só dilacerou e queimou o mundo, também o aclarou. Vemos que é um labirinto construído pelos próprios homens, um mundo mecânico e frio, cujo conforto e aparente eficácia nos privam cada vez mais de nossas forças e de nossa dignidade” (Kafka)

 

A guerra se tornou impensável? Esta pergunta me vem à mente lembrando o estado de incredulidade compartilhado pelos especialistas e a população em geral sobre a eventualidade de uma invasão russa da Ucrânia, há apenas algumas semanas. “Isso não pode acontecer”, “não é possível”. Só acertaram os serviços secretos norte-americanos, bem envolvidos na questão.

Nós nos tornamos ingênuos? Certamente, sim, pelo menos nós, europeus, que pensamos e vivemos como se a guerra tivesse desaparecido do horizonte, relegada a tempos passados e a lugares “atrasados”. Até mesmo os intelectuais mais sofisticados de nossa época nos ensinaram a pensar o poder como uma estratégia complexa de “sedução” dos espíritos que não recorre mais ao terror sobre os corpos.

Mas, hoje, para a nossa perplexidade, a guerra está “de volta” à Europa. E com ela o terror.

Podemos dizer “não à guerra”, sem pensá-la profundamente? Seria nos manter na ingenuidade, reproduzir a cegueira. É urgente tirar a guerra da esfera do “impensável”, sair do que poderíamos chamar de inconsciente liberal, a crença de que tudo caminharia bem se finalmente nos livrássemos de alguns “atavismos”: populismos, nacionalismos etc. Essa representação da realidade é transversal a pessoas de todas as ideologias, um lugar de onde fala tanto a direita como a esquerda.

O inconsciente liberal concebe a guerra como um desvio ou uma patologia, a decisão e produto de alguém que “perdeu o juízo”. É a visão que hoje é aplicada a Putin nos meios de comunicação: megalomaníaco, ambicioso, fanático. Mas, é realista atribuir a guerra à “loucura” de uma só pessoa? Putin é, de fato, uma anomalia, um percalço do passado?

Esse inconsciente nos impede de ver e pensar até que ponto a guerra não é uma raridade, nem aberração, mas um princípio constituinte de nosso mundo. Hoje, simplesmente, se tornou (mais) visível.

 

O materialismo das forças

 

Onde encontrar os recursos intelectuais necessários para voltar a pensar a guerra? Podemos nos apoiar no materialismo das forças: uma tradição de autores como Maquiavel, Spinoza e Clausewitz, entre os clássicos; ou André Glucksmann, Guy Debord e León Rozitchner, entre os contemporâneos. Lê-los nos cura da ingenuidade.

Por um lado, explicam claramente como a ordem social não repousa, em primeiro lugar, em pactos ou contratos livres entre cidadãos, mas em uma administração estatal da violência e o terror. Contudo, não colocam esse “realismo” tão necessário a serviço do existente, como acontece no caso de Hobbes ou Carl Schmitt, mas da construção de estratégias populares de resistência, baseadas em uma força de natureza diferente. Ou seja, ensinam que não existe apenas uma força, como pensa toda realpolitik, mas ao menos duas: a força dos fortes e a força dos fracos, a administração do medo e a potência da cooperação.

Essa tradição é um escândalo para o inconsciente liberal, pois não concebe guerra e paz como compartimentos estanques, mas em continuidade. O inconsciente liberal considera o consenso e o contrato social como uma “saída” do estado de guerra, uma passagem entre barbárie e cultura. O materialismo das forças nos desperta a pensá-los muito mais como certa “codificação” de uma disputa sempre instável e em transformação. O Direito não é, como pensava Paul Valéry, o “repouso das forças”. Sob sua fachada aparentemente neutra, desinteressada e objetiva, há uma luta permanente entre dominantes e dominados, governantes e governados.

A guerra não é uma “monstruosidade”, um parêntese ou um momento de exceção, mas está inscrita na normalidade: a produz e reproduz. É necessária muita violência, por exemplo, para fundar e manter a obrigação cotidiana de trabalhar para os outros, a exploração. A partir daí, podemos entender a famosa frase de Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”, onde a palavra-chave é continuação.

A continuidade não significa que “tudo é a mesma coisa”, mas que algumas coisas se prolongam em outras: a guerra na paz e o terror na democracia. Existe certa “fluidez” entre o civil e o militar, o exército e a polícia, a guerra externa e a guerra civil. Os civis, como Hitler ou Putin, ordenam massacres, os países são invadidos como operações policiais, as técnicas militares são empregadas para reprimir revoltas sociais. A guerra é um paradigma, uma forma de pensar que circula entre políticos e militares, cientistas e intelectuais, especialistas e jornalistas.

Essa continuidade distingue a guerra moderna e a clássica. A guerra clássica, limitada no tempo, espaço e objetivos, é sucedida por uma “guerra total” que funde o político e o militar, tem efeitos devastadores sobre os civis, mobiliza todos os saberes de uma sociedade e almeja a destruição definitiva do inimigo. O próprio capitalismo não se tornou, hoje, uma modalidade de “guerra total”, uma conquista de territórios e uma predação de recursos ilimitada, tanto em extensão como em intensidade?

 

A trégua não é a paz

 

Entre 1871 e 1914, a Europa conheceu um longo período de paz e prosperidade, mas era só aparente: ao seu redor se estendia a conquista colonial e em seu interior eram incubados os ovos da serpente que eclodiram na Grande Guerra. Do mesmo modo, a Europa também não vivia em paz até algumas semanas atrás, mas em uma trégua sempre sob ameaça e cercada pelas guerras limitadas que “terceiriza” por todos os cantos do mundo.

O pacifismo se torna ingênuo quando considera a guerra como “patologia”, quando não é capaz de discernir a guerra na normalidade, quando confia a paz a uma estrutura objetiva de coexistência (seja persuasiva ou dissuasiva) entre poderes. Quando pensa, em definitivo, a partir do inconsciente liberal.

Não existe nada mais “razoável”, do ponto de vista da sociedade atual, do que a guerra: ativa o comércio de armas, abre novos mercados, impulsiona os avanços científicos, alimenta a inovação tecnológica, liquida os obstáculos ao “progresso”. Os problemas para os de baixo são soluções para os de cima. A “loucura” de Putin é perfeitamente normal e perfeitamente moderna.

A guerra emprega abertamente o terror para alcançar seus objetivos (políticos). Mas quando é cessado, isso não significa que vivamos em “paz”, mas que se abre um período de “trégua” (Clausewitz). A trégua é a continuação das hostilidades por outros meios. O terror se transforma em ameaça dissuasiva anunciada às populações: “ou isto ou o caos”. Há limites para o possível, os privilégios que a guerra anterior impôs. Qualquer questionamento substancial do existente é apontado como um risco para a convivência. Existem coisas que não se discutem, caso contrário, levaria à catástrofe. Assim são as nossas democracias atuais.

Uma paz mais verdadeira deve ser concebida fora dessa oscilação entre guerra e trégua, terror e dissuasão.

 

Uma paz que não é a trégua

 

Como parar a guerra? Segundo o inconsciente liberal, trata-se apenas uma questão de diálogo, de negociação, de diplomacia entre os grandes. Algo necessário, mas insuficiente por si. É preciso atender também, se seguirmos a tradição materialista, ao plano das forças.

Se lermos a contrapelo a famosa máxima de Clausewitz sobre a relação entre guerra e política, o que encontramos? Aponta outra forma de continuidade, menos explorada. A força que pode deter as escaladas bélicas dos grandes é a mesma que pode limitar a voracidade (política) dos poderosos: a resistência dos pequenos.

Em tempos de guerra, a luta partisan. Dos espanhóis contra Napoleão aos vietnamitas contra os Estados Unidos, passando pelas diferentes resistências contra os nazistas, a “defensiva estratégica” (Clausewitz) foi capaz muitas vezes de erodir e desgastar a força conquistadora dos fortes, forçando sua retirada ou negociação.

Em tempos de trégua, os movimentos políticos. Dos escravos às mulheres, passando pela classe operária, os avanços em matéria de direitos ou liberdades nunca foram uma concessão graciosa dos de cima, mas vitórias arrancadas pelos de baixo. O Direito chega sempre depois: vem para ratificar (no melhor dos casos) aquilo que as lutas impeliram.

Durante a guerra do Vietnã surge uma combinação inédita: um movimento político contribui para deter uma guerra, por meio da deslegitimação e a deserção (mais de 100.000 desertores). A “opinião pública” aparece como uma potência sem armas capaz de intervir decisivamente nos conflitos dos grandes. Toda guerra se desenvolve, desde então, como “guerra psicológica”, com a “opinião pública” como alvo.

Em conclusão: o recurso da paz não é em primeiro lugar a coexistência entre poderes, assim como o recurso da democracia não é o Estado de Direito, mas a relação ativa das populações em relação aos Estados. A paz e a democracia não podem ser delegadas.

A resistência dos pequenos não contribui apenas para limitar a dominação, mas também apresenta novos princípios para a convivência. Todo poder, enfim, encontra sua base filosófica em Hobbes: o medo da morte é o cimento do laço social. A resistência, ao contrário, encontra a sua em Spinoza: não existe nada mais útil para um ser humano do que outro ser humano. Este vínculo de cooperação é o que Sartre elogiava na resistência francesa, em seu célebre artigo A república do silêncio, reivindicando sua continuidade na democracia do pós-guerra. Não foi ouvido.

A guerra é “impensável” a partir do inconsciente liberal. Mas isto não impede que aconteça o tempo todo, nem que seja o fundamento de nosso mundo tão civilizado. O funcionamento normal de nosso mundo traz a guerra assim como a nuvem a tempestade. Tinha razão quem, durante as mobilizações contra a Guerra do Iraque, em 2003, revirou o slogan altermundialista e escreveu nas paredes: “paremos o mundo, outra guerra é possível”. Qual é hoje a guerra dos que não têm e nem querem o poder, a guerra dos que não querem a guerra?

 

Referências

 

- ‘De la guerra’, Clausewitz, Ediciones Ejército, 1978.

- ‘La religión de la guerra’, André Glucksmann, Arena Libros (próxima edición).

- ‘Las ideologías de la coexistencia’, André Glucksmann, em ‘Historia de las ideologías’, François Chatelet y Gérard Mairet, Akal (1989, 2005, 2008).

- ‘Perón, entre la sangre y el tiempo’, León Rozitchner, Biblioteca Nacional, 2015.

 

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