A dor dos povos. Artigo de Raniero La Valle

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24 Fevereiro 2022

 

"Sair à frente da terrível crise em curso, como alternativa aos automatismos de contraposição e da vingança, seria um passo muito importante para um mundo mais equitativo, como aquele que havia sido sonhado no final da Guerra Fria, quando se falava de 'um dividendo da paz' e de um mundo 'livre das armas nucleares e não violento'. Aquelas esperanças foram rasgadas, embora nesse meio tempo o mundo tenha entrado em uma nova época, e não apenas por causa do clima; mas infelizmente os líderes das nações não perceberam isso. Este é o momento de retomá-las e realizá-las", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 23-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Com a aposta de Putin de reconhecer a independência das repúblicas de Donetsk e Luhansk (Donbass), a crise ucraniana muda de natureza e de conflito pela soberania dos estados e torna-se um conflito sobre os direitos e a libertação dos povos. Se até agora a disputa era sobre o direito soberano da Ucrânia de ingressar na OTAN sem ter que responder a nenhuma instância superior e o direito da Rússia de mover suas tropas dentro de suas fronteiras para estar pronta para se defender, a decisão de Putin introduz um novo elemento que coloca no centro da crise não mais só os estados, mas os povos; por um lado está em jogo o direito do povo russo de não ter na porta de casa mísseis inimigos capazes de atingir Moscou em trinta segundos, pelo outro lado o direito dos povos do Donbass de questionarem o seu próprio status no contexto dos outros povos e de um poder central percebido como opressor e disposto a expropriá-los de sua identidade e de sua cultura, da língua às tradições e à própria Igreja Ortodoxa, que gostaria de ser autônoma do patriarcado de Moscou.

 

E é sobre os povos que recaem as consequências do agravamento da crise não apenas pelas ameaças de guerra, mas sim pelas “sanções” anunciadas por Biden com a intenção explícita de causar “dor” nas populações que serão atingidas (mas não na sua), sanções que serão, como disse o presidente estadunidense, como a Rússia nunca sofreu antes; além disso, também afetarão a Europa e nós mesmos. Por isso as reações são igualmente devastadoras quanto as ações, e estão enxertadas em uma espiral perversa que começou com a internacionalização do conflito interno da Ucrânia até o envolvimento da OTAN e, portanto, a transformação do conflito político em um conflito militar potencialmente global.

 

O mundo assiste atônito à precipitação dos eventos enquanto no território o doloroso êxodo dos habitantes em fuga cruza o temerário movimento dos exércitos.

 

Essa mudança na natureza do conflito deveria ter acarretado uma reação diferente dos Estados alheios a ele e da própria comunidade mundial; a reação razoável seria aquela primária de excluir a guerra, promover uma verdadeira negociação e exigir que a vontade dos povos envolvidos seja urgentemente e devidamente apurada com adequado controle internacional. Infelizmente, as reações do Ocidente até agora têm sido aquelas tradicionais dos Estados que não fazem nada além de identificar o inimigo e contemplar a guerra como resultado final.

 

Ao reconhecer a natureza modificada do conflito, duas coisas deveriam ser levadas em consideração.

 

Em primeiro lugar, não ignorar as gravíssimas acusações feitas pelo presidente russo contra o poder estatal da Ucrânia responsável por uma gestão dos negócios públicos, que poderia ser resumida na denúncia agostiniana dos reinos da terra quando, sem justiça, são apenas grandes ladrões.

 

Em segundo lugar, é preciso sair da falsa alternativa entre uma rendição do Ocidente ou sua reação inflexível até à guerra. Até agora, a resposta, coerente com a cultura de Biden, tem a ver apenas com o dinheiro e é direcionada ao estrangulamento da economia e ao bloqueio do fornecimento de gás; mas a defesa militar "de cada centímetro da Ucrânia", como foi prometido, seria, nas palavras do Papa João, "além da razão".

 

Todas as guerras travadas pelo Ocidente após a Segunda Guerra Mundial foram ao mesmo tempo perdedoras e erradas, do Vietnã às guerras do Golfo (de fato foram duas), da guerra contra a Iugoslávia, inclusive entregue à OTAN, ao Afeganistão; para não falar da guerra contra os migrantes travada com o levantamento de muros e cercas nas fronteiras, negando a entrada em portos ou mesmo financiando os campos de concentração líbios; mas esta última guerra, a partir do coração da Europa, poderia realmente ser realmente aquela "final". Ao contrário, não seria “uma rendição” aquela que assumisse a responsabilidade da salvação dos povos e construísse uma alternativa que reconhecesse seus direitos fundamentais.

 

A afirmação do direito à autodeterminação e à libertação dos povos possui uma rica tradição na Itália, desde as iniciativas de Lelio Basso até o Tribunal Permanente dos Povos na “Constituinte Terra”. Certamente esse direito deve ser equilibrado com o valor da estabilidade das fronteiras e exercido com métodos negociais e não violentos, e com as precauções e garantias necessárias para evitar derivas populistas e antiestatais.

 

Mas, sem dúvida, sair à frente da terrível crise em curso, como alternativa aos automatismos de contraposição e da vingança, seria um passo muito importante para um mundo mais equitativo, como aquele que havia sido sonhado no final da Guerra Fria, quando se falava de “um dividendo da paz” e de um mundo “livre das armas nucleares e não violento”. Aquelas esperanças foram rasgadas, embora nesse meio tempo o mundo tenha entrado em uma nova época, e não apenas por causa do clima; mas infelizmente os líderes das nações não perceberam isso. Este é o momento de retomá-las e realizá-las.

 

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