Jesus em diálogo com o “Pai Nosso”. Artigo de Gianfranco Ravasi

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06 Mai 2020

A oração do Pai Nosso é o tema de três publicações recentes que são apresentadas e comentadas por Gianfranco Ravasi, cardeal italiano e prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 03-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

No mesmo ano em que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, o ano de 1952, chegava às salas de cinema o filme dedicado a ele Il est minuit, Dr. Schweitzer. Teólogo de alta qualidade e musicólogo refinado (suas apresentações de Bach ao órgão são esplêndidas), o alemão Albert Schweitzer escolheu migrar para a África como missionário (ele era, de fato, também médico). Em sua bibliografia, há um ensaio de 1947, intitulado Respeito pela vida, no qual está escrito: “O espírito de nossa época despreza o que é simples. Não acredita mais que a simplicidade possa corresponder à profundidade. Congratula-se com o que é complicado e o considera profundo”.

Recorri a essa citação para introduzir um delicioso livro com o título lapidário, Jesus, com um subtítulo raiado de ironia: "Uma história para quem nada sabe ... ou esqueceu", e acompanhado de ilustrações ingênuas de antigo gosto popular. O teor estilístico dessas centenas de páginas de ampla análise é precisamente a "simplicidade" à qual Schweitzer aludia, e curiosamente quem as escreve é um dos maiores teólogos contemporâneos italianos, um acadêmico que escolheu ser também pároco em uma modesta cidadezinha no interior da Toscana. Caprona, cujo nome ressoa na memória de muitos vinda de uma frase do Inferno de Dante: "De Caprona, os soldados, que saíram a partido" (XXI, 94-95), evocação a rendição dos defensores de Pisa diante das milícias dos Guelfos da Toscana, em 1289.

Severino Dianich, Gesù,
San Paolo, Cinisello Balsamo (Mi), p. 111, € 15

O autor, padre Severino Dianich, deixando de lado a linguagem e a rica bagagem teológica de que dispõe, quis apresentar um texto essencial destinado à grande massa de italianos que, sempre que se deparam com uma questão de caráter religioso (exemplares, nesse sentido, são os quiz televisivos com algumas perguntas bíblicas ocasionais), revelam uma ignorância desarmada e desarmante, até inocente em sua radicalidade. No entanto, crentes ou não, eles estão convencidos de que Jesus de Nazaré é uma figura imprescindível para nossa história, arte, ética, cultura e espiritualidade. O teólogo decidiu, assim, sair do laboratório exegético e se dirigir a eles justamente com simplicidade: afinal, até a sabedoria chinesa estava convencida de que esse era "o caminho do homem para o céu".

Mas não é necessariamente à conversão que Dianich almeja, mas fazer redescobrir esse extraordinário pregador itinerante que viveu dois milênios atrás em uma província periférica do império romano, médico surpreendente sem remédios e terapias, contador de histórias fascinantes que do ouvido penetravam diretamente no coração dos ouvintes, pessoas simples, como simples era a sua mensagem. Uma simplicidade longe de ser inofensiva em sua profundidade, a ponto de concentrar ao seu redor o círculo mortal do poder político e intelectual, de modo a levá-lo àquela cruz plantada entre as rochas da colina chamada Gólgota, "crânio", em latim "Calvário".

Na verdade, sua última palavra proferida com dificuldade ao sufocar na crucificação, "está consumado!", em vez de um "tudo acabou" se transformou em um "tudo começa" e sua história continua ainda hoje, através dos fiéis que não o abandonam, convencidos de que ele ainda está vivo e ativo na história humana. Não é à toa que o livro de Dianich começa e termina em "um dia ensolarado em julho do ano 64", enquanto Roma está ardendo e os dois principais discípulos, Pedro e Paulo, são massacrados, mas seu fim é um começo que gera um fio vital nunca interrompido. Um grande homem de fé - que também era teólogo, além de filósofo e cientista – ele também destinado a ser eliminado pelo poder brutal, o russo Pavel Florenskij, em uma carta dirigida à sua esposa e filhos do gulag soviético, escreveu: “Ser simples e claros nos próprios pensamentos é o penhor da liberdade espiritual e da alegria de pensar”.

Eis que, a história de Jesus, sua história e sua mensagem elaborada pelo teólogo de Pisa pertencem exatamente a esse programa que não deve ser confundido com a máscara falsificada da banalidade e da superficialidade. Em vez disso, é um exercício extenuante da mente que brota da riqueza do saber, da luminosidade intelectual, da clareza interior. E é capaz de se despir do requinte e do arabesco complicado, mirando a essencialidade. É espontâneo citar outro pisano muito mais famoso, Galileu Galilei, que sem hesitar observava: "Todos podem falar obscuramente, mas muito poucos com clareza".

Matteo Crimella, Padre nostro,
San Paolo, Cinisello Balsamo (Mi), p. 126, € 14

O enredo dessa "vida de Jesus" é especificado em um parágrafo assim concebido: "Certo dia pediram que ele sugerisse algumas palavras para dizer quando queremos orar. Entre as poucas frases que, compondo uma oração, ele ditou, também colocou a seguinte: ‘Pai Nosso, perdoa nossas dívidas, como nós as perdoamos aos outros em relação a nós’. Não há justiça no mundo sem misericórdia e perdão”. O eco da nova versão de Pai nosso adotada pela Conferência Episcopal Italiana para a liturgia também chegou ao nível midiático popular, especialmente pela sexta das sete invocações que compõem essa oração tão fundamental para o cristianismo, a ponto de ser definida pelo primeiro de seus comentadores, o africano Tertuliano (160-220 a.C.), com ênfase breviarium totius evangelii. Mesmo aqueles que não são praticantes ainda têm em seus ouvidos o provocador "Não nos leve à tentação", aprendido na infância, que é uma cópia da versão latina de Jerônimo Ne nos inducas in tentationem, decididamente mais forte que o original grego. De fato, este usa o verbo mais tênue eisphéro, que é simplesmente um "conduzir para, introduzir". Portanto, levando em consideração o objetivo, peirasmós, que significa "provação" além de "tentação", poderia resultar em algo tipo: "Não nos introduza na provação". Esta é a ideia proposta por Matteo Crimella, um exegeta milanês que - como Dianich - também está envolvido nas atividades pastorais. E, como o teólogo pisano em seu comentário sobre "Pai Nosso", adota uma linguagem clara ("clareza é caridade", dizia um grande biblista do século passado, Luis Alonso Schökel).

Os destinatários de seu texto, no entanto, pertencem a uma categoria de conhecimento um pouco mais alta e mais qualificada, embora não estritamente científica. O comentário é, portanto, apreciável para todos aqueles que desejam aprofundar a riqueza e a originalidade dessa oração distintiva de Jesus que chegou até nós na dupla edição de Mateus (6,9-13) e Lucas (11,2-4). Para voltar àquela invocação, Crimella se mostra crítico em relação à tradução que entrará na liturgia italiana e que, portanto, será aprendida por todos os católicos: "Não nos abandone à tentação". Contudo, a sua é uma leitura precisa, motivada e clara de uma oração que é o paradigma da oração por excelência do cristianismo.

Roberta Collu, Il Padre nostro e i rotoli di Qumran,
Libreria Editrice Fiorentina, Firenze, p. 328, € 24

No nível histórico-crítico e teológico-exegético, no entanto, aparece um ensaio que apenas mencionaremos. Trata-se de Pai nosso reinterpretado à luz de suas possíveis conexões não tanto com o judaísmo antigo "oficial" (o Qaddish, uma oração bem conhecida que tem contatos com a de Jesus), mas com o judaísmo particular da comunidade de Qumran, no Mar Morto, cujos manuscritos foram descobertos a partir de 1947. Roberta Collu, que leciona por muito tempo em Paris, propõe - em colaboração com dois rabinos franceses - pesquisas sobre o Pai nosso em diálogo com os pergaminhos de Qumran por um estudioso francês, Jean Carmignac ( 1914-1986), que foi objeto de fortes controvérsias no campo científico, mas que certamente movimentou as águas em um animado debate, reconstruído nessas páginas, antes de chegar à reinterpretação do Pai nosso, mantendo em filigrana a literatura judaica, principalmente de Qumran. Uma experiência sugestiva, que talvez possa provocar discussão entre os especialistas, mas que mais uma vez mostra as raízes judaicas do rabbi de Nazaré.

 

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