O Deus da Vida que não permite que o amor termine com a morte. Artigo de José Carlos Enríquez Díaz

Resurrezione di Cristo, de Paolo Veronese. Foto: Sailko/Wikimedia Commons

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25 Setembro 2026

A esperança cristã não é uma projeção subjetiva nem um desejo reconfortante. É uma participação numa promessa objetiva, fundamentada na fidelidade de Deus. 

O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, escritor, publicado por Religión Digital, 21-09-2026. Tradução de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Há momentos na vida em que a dor parece dominar tudo. A partida de um ente querido traz um silêncio difícil de preencher, uma ausência que se faz presente em cada recanto da nossa memória. A morte, quando nos toca de perto, confronta-nos com o limite radical da nossa existência, obrigando-nos a nos confrontar com o mistério do ser e do destino humano.

No entanto, precisamente nesse lugar onde as trevas parecem prevalecer, a fé cristã proclama uma verdade que não nasce de um consolo fácil, mas da revelação: o amor não é anulado pela morte. Aquilo que foi vivido na verdade do amor participa, de alguma forma, da eternidade de Deus.

Jesus não se manteve distante diante do sofrimento humano. O Evangelho mostra-o profundamente envolvido na dor humana. Junto ao túmulo de Lázaro, chora profusamente (cf. Jo 11,35), demonstrando que Deus não é estranho às nossas lágrimas. Mas, nesse mesmo contexto, faz uma afirmação decisiva: "Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ainda que morra, viverá" (Jo 11,25).

Essas palavras não são uma metáfora nem uma simples expressão de conforto espiritual. São uma declaração ontológica sobre a realidade última do ser humano: a vida, em seu sentido mais pleno, não é contida nos limites da biologia, mas abre-se à comunhão com Deus, que é a fonte e a plenitude de todo o ser.

Nessa perspectiva, a morte não é aniquilação, mas uma passagem. Não é o fim do caminho, mas a sua transformação. O cristianismo não nega a gravidade da morte, mas afirma que ela foi radicalmente transformada pela Páscoa de Cristo. Em sua morte e ressurreição, Jesus não elimina o fato de morrer, mas sim o seu caráter definitivo.

Paulo expressa isso com uma força que brota da experiência pascal: "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1 Cor 15,55). A morte foi despojada do seu poder supremo porque o pecado — a sua raiz mais profunda — foi vencido no dom redentor de Cristo.

Portanto, a esperança cristã não é uma projeção subjetiva nem um desejo reconfortante. É uma participação numa promessa objetiva, fundamentada na fidelidade de Deus. Deus não promete em vão, nem a Sua palavra está sujeita à fragilidade das expectativas humanas. Se Ele é fiel, então o que disse terá cumprimento.

Acreditar no reencontro com aqueles que amamos não é, portanto, uma fuga da realidade. É uma consequência lógica da fé num Deus que é comunhão e que não destrói aquilo que Ele mesmo gerou no amor. O que foi unido na verdade do amor não se perde no nada, mas é acolhido em Deus.

Jesus falou do Reino como a plenitude para a qual toda a história se orienta. Um Reino onde a morte não tem o lugar definitivo, onde toda lágrima será enxugada (cf. Ap 21,4). Esse horizonte escatológico não é estranho à nossa experiência presente, pelo contrário, a ilumina e a sustenta.

É verdade que, no momento da dor, essa esperança pode parecer distante. A dor carrega um peso real e concreto que não pode ser negado. No entanto, precisamente nessa experiência de fragilidade, Deus se revela como uma presença que acompanha. Não como uma ideia abstrata, mas como uma realidade viva que nos sustenta em meio à noite.

O Salmista expressa isso com profunda intensidade existencial: "Ainda que eu caminhe pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois tu estás comigo" (Salmo 23,4). A fé não elimina as trevas, mas introduz nelas uma companhia que as transfigura. O vínculo com aqueles que partiram não desaparece, permanece, embora sob uma forma diferente. De uma perspectiva teológica, pode-se afirmar que todo amor verdadeiro possui uma dimensão de eternidade, porque participa do próprio Deus, que é amor. Portanto, esse vínculo não fica relegado ao passado, mas é preservado e levado à plenitude em Deus.

Pensar no reencontro é, então, um ato de fé na coerência do amor divino. Se Deus é fiel, o amor não pode ser definitivamente frustrado. A história pessoal não culmina na perda, mas na plenitude.

Mesmo na cruz, Jesus experimentou as profundezas do abandono: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mc 15,34). Esse grito revela que Deus assumiu a condição humana até o fim. Contudo, a cruz não é o ato final. A Ressurreição demonstra que o amor é mais forte do que a morte e que o dom de si mesmo não fica sem resposta. Essa é a chave fundamental da esperança cristã: a morte foi atravessada pela própria vida de Deus. Por isso, aqueles que morrem n'Ele não desaparecem, mas entram em uma forma de existência que, no momento, só podemos vislumbrar.

"Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos" (cf. Mt 22,32). Essa afirmação encerra em si uma verdade decisiva: em Deus a vida não se interrompe, mas alcança a sua verdade mais plena. Aqueles que amamos vivem n'Ele, sustentados pela Sua fidelidade. Portanto, em meio à dor, pode-se afirmar, com humildade, mas também com firmeza: o encontro não foi cancelado, mas adiado. Caminhamos em direção a Ele, amparados por uma promessa que não depende de nossas próprias forças, mas na fidelidade de Deus.

E essa fidelidade, revelada em Cristo, não pode falhar.

Por isso, para Xabier Pikaza, a esperança cristã não se fundamenta numa fuga do mundo, mas na convicção de que a história de cada pessoa é assumida por Deus e não se perde no nada. O que foi amor verdadeiro, o que foi entrega de si, o que foi uma vida partilhada, nada disso pode ser destruído pela morte, pois o Deus de Jesus é um Deus que "recolhe" a vida humana e a conduz a cumprimento.

A ressurreição não é um complemento posterior, mas a afirmação de que o amor de Deus é mais forte do que qualquer destruição. Nessa perspectiva, a fé não é uma negação da dor, mas uma maneira mais profunda de atravessá-la. Em termos coerentes com essa linha de pensamento, pode-se afirmar que Deus não substitui aqueles que amamos, mas os preserva em sua própria vida, e que, n'Ele, a separação não é definitiva, mas transformada. Assim, a esperança cristã torna-se uma certeza confiante: a vida não termina com a morte, mas repousa em Deus até alcançar a sua plenitude.

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