24 Setembro 2026
"A Igreja hoje não precisa de administradores do sagrado, mas de pastores-servos que caminhem com os fiéis, escutem o Espírito que fala por meio deles e compreendam seu ministério como um serviço de comunhão no meio do mundo, especialmente em solidariedade com os pobres e excluídos", escreve Rafael Luciani, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 22-09-2026.
Rafael Luciani é um leigo venezuelano, doutor em teologia, professor da Universidade Católica Andrés Bello (Venezuela). É especialista do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (CELAM), membro da equipe teológica da Presidência da Confederação Latino-Americana de Religiosos (CLAR) e especialista da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.
Eis o artigo.
A recepção do Concílio Vaticano II (1962-65) atingiu um ponto crítico na vida da Igreja Católica. Embora o sínodo sobre a sinodalidade e o magistério dos últimos anos tenham estabelecido firmemente que a Igreja é constitutivamente sinodal por natureza, uma questão decisiva permanece em grande parte sem resposta: como a Igreja, enquanto povo de Deus, e a dignidade batismal compartilhada por todos os fiéis podem se consolidar se as estruturas institucionais que formam nossos ministros ordenados permanecerem ancoradas no passado?
Os seminários continuam sendo um nó cego no avanço da reforma eclesial iniciada pelo Vaticano II. Mas o que isso significa e implica, visto que hoje somos chamados a implementar a sinodalidade?
O Grupo de Estudos 4 do sínodo, coordenado pelo Cardeal José Cobo de Madrid, foi incumbido de revisar o documento do Vaticano de 2016, Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis ("O Dom da Vocação Sacerdotal"). O grupo de estudos aborda esse desafio diretamente em seu Relatório Final, afirmando que a crise dos seminários é fundamentalmente "eclesiológica".
Uma avaliação honesta do nosso panorama eclesial revela um perigo persistente em muitos países: o de que as conferências episcopais, os seminários e as faculdades de teologia possam reduzir as orientações do Grupo de Estudos 4 a meros ajustes superficiais.
Adicionar cursos modulares sobre sinodalidade ou oficinas esporádicas sobre escuta e discernimento será inútil se a cultura clerical subjacente permanecer intacta, sustentada por um corpo docente de professores presos às suas mesas, desconectados da vida pastoral das comunidades. Não podemos exigir dos alunos o que os formadores e professores não praticam.
Como demonstra a história, toda grande reforma eclesial exigiu uma reconfiguração da identidade sacerdotal e da formação teológica e pastoral. A Reforma Gregoriana do século XI adotou o horizonte monástico como paradigma pastoral, e o Concílio de Trento, em 1563, instituiu seminários diocesanos para preparar pastores residentes para uma sociedade cristã. Hoje, 60 anos após o Vaticano II, exige-se uma mudança estrutural comparável.
A mudança eclesiológica do Concílio Vaticano II foi além do modelo tridentino de sacerdotalização e sacralização, reformulando a identidade do presbiterado no Presbyterorum Ordinis — o Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes — ao estabelecer que aqueles que são configurados como ministros pelo sacramento da ordem têm como dever primordial a proclamação do Evangelho, seguida pelos sacramentos e pelo governo pastoral.
Os padres conciliares queriam deixar claro que o dever primordial do presbítero não era o culto, mas a missão. O sacerdócio ordenado não existe como uma casta autônoma e autorreferencial, nem como uma entidade sagrada à parte da comunidade. É um ministério enraizado na comunhão de todos os fiéis.
Isso desmantela a rígida divisão pré-conciliar entre uma igreja que ensina e uma igreja que aprende, lembrando-nos que o ministro ordenado é, antes de tudo, um aprendiz, um membro dos fiéis entre os fiéis, chamado a ouvir e discernir com os outros como o Espírito se move dentro da comunidade viva antes de tentar governar ou ensinar.
A urgência de reformar os seminários torna-se inegável quando examinamos a cultura organizacional dos seminários tradicionais, que permanece profundamente moldada pelo modelo tridentino. Frequentemente, a formação é concebida como uma doação vertical que a autoridade concede e o candidato recebe com docilidade passiva ao longo dos anos. De fato, em muitos seminários, qualquer opinião expressa por um candidato que difira da de um superior, formador ou professor pode levar diretamente à sua expulsão.
Nessa estrutura piramidal, a maturidade é confundida com a mera submissão para obter a aprovação dos superiores, enquanto a vulnerabilidade pessoal, a incerteza afetiva e as limitações humanas são mascaradas por uma espiritualização defensiva. Os futuros ministros são treinados nos códigos fechados de uma corporação autorreferencial, em vez de serem capacitados para desaprender hábitos autoritários e se deixarem desafiar pelo cotidiano das pessoas.
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
Com o objetivo de contribuir para a renovação dos seminários, lidero um projeto de pesquisa internacional patrocinado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), que reúne mais de 30 teólogos da América Latina, América do Norte e Europa. Nossa equipe examina as variáveis institucionais do paradigma tradicional do seminário e elabora modelos alternativos de formação sacerdotal para implementar o relatório final do Grupo de Estudos 4.
Nossos resultados confirmam que o modelo do seminário como um internato isolado, dissociado da vida cotidiana das comunidades — especialmente dos pobres e excluídos — não é mais viável e que reforça uma falsa separação entre evangelização e compromisso com o desenvolvimento humano.
Dentre as reformas institucionais essenciais para uma autêntica conversão sinodal, a renovação dos seminários é vital. Se os futuros sacerdotes devem servir a uma Igreja sinodal, sua formação precisa se tornar mais sinodal.
Os seminaristas precisam ser formados não apenas dentro do seminário, mas também por meio de contato constante com as comunidades que um dia servirão. O relatório do Grupo de Estudos 4, por exemplo, propõe a alternância entre a formação residencial e períodos substanciais de vivência e ministério em paróquias, comunidades eclesiais de base e periferias sociais. Os futuros sacerdotes devem, portanto, descobrir sua identidade não isoladamente, mas por meio de relacionamentos e formação compartilhada com leigas, leigos, religiosos, famílias e a comunidade em geral.
Isso significa também dar às mulheres uma voz real desde os estágios iniciais de discernimento vocacional. Sua participação não pode ser reduzida a um papel simbólico ou a consultas ocasionais. Mulheres, famílias e outros leigos devem participar plenamente das equipes de formação, das faculdades acadêmicas e das avaliações formais que ocorrem antes da ordenação.
A aptidão de um candidato ao ministério pastoral não pode ser avaliada apenas dentro do seminário. Ela também deve ser discernida por meio da experiência e da participação ativa nas comunidades em que o candidato vive e serve.
Tal reforma resgataria uma antiga prática da Igreja. São Cipriano de Cartago, na Epístola 67, insistiu que a aptidão dos ministros deveria ser reconhecida perante toda a comunidade. O objetivo não era simplesmente obter aprovação, mas garantir que aqueles a quem o ministério era confiado tivessem a confiança e o reconhecimento do povo a quem eram chamados a servir.
A formação no seminário deve preparar os futuros sacerdotes para as exigências práticas da vida sinodal. Por exemplo, eles precisam aprender a escutar, discernir em conjunto, tomar decisões com os outros e exercer a autoridade com responsabilidade. Essas práticas não podem ser consideradas automáticas. Devem ser cultivadas intencionalmente ao longo de todo o processo de formação. Isso implica aprender que a autoridade pastoral deve escutar e levar a sério o discernimento da comunidade antes de tomar decisões e salvaguardar o bem comum.
Isso está em consonância com o antigo princípio citado no documento final do sínodo: Nihil sine consensu plebis — nada sem o consenso do povo. Isso implica, segundo o documento do sínodo, que quando os pastores chegam a uma decisão que diverge da opinião expressa pela comunidade, não devem simplesmente impor sua vontade. Devem explicar as razões de sua decisão e prestar contas ao povo que servem.
A formação no seminário deve, portanto, preparar os futuros sacerdotes para entender a autoridade não como poder exercido isoladamente, mas como um ministério de escuta, discernimento, responsabilidade e serviço em todo o povo de Deus.
A reforma da formação sacerdotal não é uma questão periférica. É o campo de prova decisivo para a credibilidade e a conversão institucional da Igreja hoje. Sem uma profunda reforma espiritual, relacional e estrutural do seminário, a visão de um povo de Deus missionário e sinodal permanecerá uma promessa conciliar não realizada.
A Igreja hoje não precisa de administradores do sagrado, mas de pastores-servos que caminhem com os fiéis, escutem o Espírito que fala por meio deles e compreendam seu ministério como um serviço de comunhão no meio do mundo, especialmente em solidariedade com os pobres e excluídos.
A coragem histórica e profética de traduzir a memória conciliar em reformas institucionais concretas determinará, em última análise, a vitalidade do ministério ordenado e da vida católica nas próximas décadas.
Leia mais
- Secretaria do Sínodo publica diretrizes para a formação sacerdotal (e o papel das mulheres terá especial importância)
- Sínodo, um grande canteiro de obra aberto. E dez grupos de estudo estão começando
- O papel da mulher na Igreja continua sendo uma questão delicada que o Vaticano não consegue resolver. Artigo de Christine Schenk
- A hierarquia eclesiástica permanece determinada a não ouvir o Espírito. Artigo de Consuelo Veléz
- Masculinidade e o "significado nupcial da salvação". Os estágios magistrais de uma intemperança paramagisterial. Artigo de Andrea Grillo
- Atraso na ordenação de mulheres é um problema cultural, constata Linda Pocher, teóloga
- Às vezes, eles voltam. Em relação à carta da Presidente da Segunda Comissão sobre o Diaconato e as Mulheres. Artigo de Linda Pocher
- “Trabalho junto com o Papa Francisco para desmasculinizar a Igreja. Jesus ensina a igualdade perante Deus”. Entrevista com Linda Pocher
- Mulheres diáconas: Francisco abriu debate e comissão do Vaticano fechou-o (por ora)
- Diaconato feminino: uma questão de gênero? Artigo de Giuseppe Lorizio
- A reserva masculina preserva a ordem divina? Artigo de Andrea Grillo