Razão pública em disputa: quatro caminhos filosóficos para pensar a democracia. Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: Stephane Clergé | Pexels

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17 Setembro 2026

Ciclo de Estudos “Razão pública e democracia: limites, possibilidades, aberturas” promovido em parceria pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU e pelo PPG Filosofia da Unisinos reuniu em 16 e 17 de setembro pesquisadores para interrogar os fundamentos da vida democrática diante da crise da deliberação, dos novos autoritarismos e das transformações da esfera pública. “Em tempos nos quais a própria ideia de um mundo comum parece submetida a fortes tensões, talvez a tarefa da filosofia não seja oferecer uma fórmula para salvar a democracia, mas reabrir as perguntas que tornam a democracia pensável.”

A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.

Eis o artigo.

Há uma pergunta silenciosa por trás de muitas das crises políticas contemporâneas: o que ainda pode significar compartilhar um mundo quando já não compartilhamos sequer os critérios pelos quais decidimos o que é verdadeiro, razoável ou justo? A democracia depende de instituições, eleições, leis e procedimentos, mas sua existência não se esgota neles. Ela pressupõe também uma esfera pública na qual cidadãos possam apresentar razões, confrontar perspectivas, reconhecer diferenças e construir formas de convivência em meio ao desacordo.

É nesse terreno, simultaneamente político e filosófico, que se inscreve o Ciclo de Estudos "Razão pública e democracia: limites, possibilidades, aberturas", organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos. Realizado nos dias 16 e 17 de setembro, o Ciclo reuniu pesquisadores para examinar as transformações contemporâneas da esfera pública e os fundamentos normativos da democracia liberal, tomando como ponto de partida o diagnóstico de desgaste dos modelos tradicionais de deliberação racional e a emergência de novas configurações políticas e tecnológicas.

A noção de razão pública remete, em sentido amplo, à exigência de que normas e decisões que regulam a vida comum possam ser justificadas perante aqueles a quem se destinam. Na filosofia política contemporânea, essa problemática atravessa diferentes formulações, de Kant e Rousseau a Rawls e Habermas, envolvendo questões como legitimidade, liberdade, igualdade, justificação e participação. O evento deslocou essa discussão para um cenário marcado pela fragmentação da esfera pública, pela crise dos pressupostos deliberativos e pela ascensão de novas formas de autoritarismo.

Mais do que oferecer uma resposta única, as quatro conferências propostas compõem um percurso. A racionalidade é interrogada a partir da hermenêutica; a democracia é confrontada com o avanço de novos autoritarismos; as virtudes são recolocadas no horizonte da vida pública; e, por fim, Friedrich Hegel e Hannah Arendt são convocados para pensar as condições de uma racionalidade capaz de constituir um mundo comum.

Da interpretação à vida pública: a racionalidade hermenêutica

A primeira conferência, "Racionalidade Hermenêutica e Razão Pública", realizada em 16 de setembro, às 14h, reuniu Mario Ariel González Porta (PUC-SP) e Ernesto Giusti (Unicentro), com a mediação de Gabriel Ferreira (UFMG).

O ponto de partida é particularmente fecundo: que tipo de racionalidade pode sustentar a vida pública em uma sociedade atravessada por diferentes experiências, linguagens, tradições e interpretações do mundo? A hermenêutica introduz uma inflexão importante nessa questão. Em vez de imaginar a razão como uma instância exterior aos contextos históricos e linguísticos, a tradição hermenêutica chama atenção para o caráter interpretativo da experiência humana. Compreender não significa simplesmente aplicar uma regra universal a um objeto previamente constituído, mas envolve situar-se em um horizonte de sentido, interpretar, confrontar perspectivas e reconhecer que nossa relação com o mundo é mediada por linguagens e tradições.

Essa perspectiva possui consequências políticas. A própria Hannah Arendt, por exemplo, recorreu a elementos hermenêuticos em suas reflexões políticas, enquanto autores ligados à hermenêutica passaram a explorar temas como solidariedade, diálogo intercultural e racionalidade para além do objetivismo e do relativismo.

Pensar a razão pública a partir da hermenêutica significa, assim, deslocar a pergunta: não apenas quais razões podem ser apresentadas publicamente, mas também como os sujeitos chegam a compreender o mundo no qual essas razões adquirem sentido. A esfera pública deixa de aparecer como espaço abstrato de troca de argumentos e passa a ser pensada também como lugar de interpretação, conflito de sentidos e possibilidade de compreensão recíproca.

Essa questão adquire particular relevância diante de uma esfera pública cada vez mais atravessada por diferentes regimes de produção, circulação e validação de discursos. O problema democrático não se reduz, portanto, à existência de opiniões divergentes. Está em jogo a possibilidade de construir condições nas quais a divergência possa permanecer politicamente produtiva sem converter-se em impossibilidade de comunicação.

O autoritarismo no interior da crise democrática

Na noite de 16 de setembro, a discussão deslocou-se para uma das fraturas mais incisivas do presente com a conferência "A ascendência de novos autoritarismos e a crise da democracia liberal", proferida por Castor M. M. Bartolomé Ruiz (Unisinos) e mediada por Márcia Rosane Junges (Unisinos). Aqui, a questão da razão pública encontra seu avesso: o que acontece com a democracia quando as condições sociais, políticas e discursivas que tornam possível a deliberação começam a se desfazer?

A proposta do ciclo situa a ascensão de novos autoritarismos não como fenômeno isolado, mas em relação às transformações estruturais da esfera pública e ao esgotamento de determinados pressupostos deliberativos da Modernidade. Isso significa olhar para além da imagem clássica do autoritarismo como simples suspensão das instituições democráticas. A questão filosófica consiste também em investigar os processos pelos quais práticas, discursos e formas de racionalidade podem corroer internamente as condições da convivência democrática.

A crise da democracia liberal, nesse sentido, não pode ser compreendida somente como crise institucional. Ela envolve também uma crise da mediação pública, isto é, dos espaços, linguagens e procedimentos pelos quais diferenças sociais podem transformar-se em questões comuns. Se a razão pública supõe que o exercício do poder possa ser justificado perante os cidadãos, sua erosão ocorre também quando o espaço compartilhado de argumentação se fragmenta e a política passa a ser organizada pela desconfiança, pela desqualificação do adversário, convertido em inimigo, ou pela recusa do próprio terreno comum sobre o qual o dissenso poderia se desenvolver.

É precisamente essa tensão que confere ao segundo encontro um lugar central no Ciclo: compreender os novos autoritarismos significa também perguntar quais condições precisam existir para que a democracia continue sendo uma forma de vida pública, e não apenas um conjunto de procedimentos institucionais capturados pela lógica belicista, calcada no medo, no ódio, na exceção e nas derivas aclamatórias que vemos grassar em nossos dias.

Virtudes para além das instituições

A programação de 17 de setembro, às 14h, deu um novo passo com a conferência "Racionalidade pública e virtudes: nexos democráticos possíveis", que reuniu Denis Coitinho (Unisinos) e Rogério A. Picoli (UFSJ) sob a condução de Inácio Helfer (Unisinos).

O deslocamento é significativo. Se a primeira conferência pergunta pelas condições interpretativas da racionalidade e a segunda investiga as fraturas autoritárias que atravessam a democracia, a terceira introduz uma pergunta sobre os próprios agentes da vida pública: que disposições, capacidades e formas de caráter são necessárias para que a racionalidade pública possa efetivamente existir?

A aproximação entre virtudes e política possui uma longa genealogia filosófica. Em Aristóteles, ética e política não aparecem como campos absolutamente separados: a investigação sobre a vida boa prolonga-se na reflexão sobre as formas de organização da comunidade política. A política diz respeito às condições sociais nas quais determinadas formas de vida podem realizar-se, enquanto a cidadania aparece vinculada à participação e à virtude.

No contexto contemporâneo, a questão reaparece sob outras coordenadas. Uma democracia pode dispor de instituições formalmente adequadas e, ainda assim, enfrentar dificuldades relacionadas à qualidade das relações públicas que as sustentam. A confiança, a disposição para ouvir, a responsabilidade diante dos outros, a capacidade de revisar posições e o compromisso com razões que possam ser apresentadas publicamente pertencem, nesse sentido, a uma dimensão da política que não se reduz à arquitetura institucional.

O próprio conceito contemporâneo de razão pública envolve uma exigência dirigida aos cidadãos e agentes públicos: decisões que pretendem regular a vida comum precisam ser justificáveis perante aqueles sobre os quais incidem. A discussão sobre virtudes introduz, então, uma questão decisiva: que tipo de formação moral e epistêmica torna possível essa disposição para justificar, ouvir, argumentar e reconhecer o outro como participante da esfera pública? A pergunta desloca o debate sobre democracia de suas estruturas para suas práticas cotidianas. Afinal, uma esfera pública não existe independentemente dos sujeitos que a constituem.

Hegel e Arendt: o mundo comum como questão política

Encerrando o Ciclo, a conferência "Hegel e Arendt: contribuições para a racionalidade pública", em 17 de setembro, às 19h, contou com as reflexões de Inácio Helfer (Unisinos) e Adriano Correia da Silva (UFG), com Celso Candido de Azambuja (Unisinos) como mediador.

A escolha de Hegel e Arendt permite colocar em tensão duas tradições filosóficas distintas e, ao mesmo tempo, profundamente interessadas na relação entre liberdade, mundo comum, instituições e ação política. Em Hegel, a racionalidade da vida política não se encontra simplesmente na consciência individual. Ela se realiza em formas institucionais e sociais nas quais liberdade subjetiva e universalidade podem adquirir existência concreta. Sua concepção de vida ética (Sittlichkeit) articula subjetividade e instituições, passando pela família, pela sociedade civil e pelo Estado. A racionalidade política, nesse quadro, não é apenas uma propriedade abstrata da razão: encontra-se encarnada em práticas e instituições sociais.

Arendt, por sua vez, recoloca a política a partir da experiência da pluralidade humana, da ação e da existência de um espaço público no qual os seres humanos podem aparecer uns diante dos outros por meio da palavra e da ação. Sua compreensão da esfera pública envolve tanto o "espaço de aparição", no qual cidadãos agem conjuntamente, quanto o "mundo comum", constituído por instituições, objetos e referências compartilhadas que conferem alguma permanência à vida coletiva.

O diálogo entre Hegel e Arendt abre, assim, uma questão decisiva para o conjunto do ciclo: como pensar uma racionalidade pública que não seja reduzida nem à consciência individual nem à mera eficiência institucional? A pergunta ganha força justamente porque democracia significa mais do que administrar diferenças. Ela requer a existência de um mundo no qual diferenças possam aparecer, confrontar-se e permanecer vinculadas a alguma experiência de comum. Nesse sentido, a racionalidade pública não é apenas racionalidade sobre a política. Ela é também uma racionalidade da convivência política.

Entre limites, possibilidades e aberturas

As quatro conferências formam um percurso que vai da interpretação às instituições, das virtudes às experiências concretas de pluralidade. O que as aproxima não é a defesa de uma concepção única de razão pública, mas a investigação de suas condições de possibilidade e de suas fraturas diante das transformações contemporâneas.

A proposta do Ciclo parte justamente dessa tensão: investigar os fundamentos da racionalidade prática e sua passagem para o espaço discursivo público, compreender as raízes filosóficas e sociopolíticas dos novos autoritarismos, discutir a relação entre virtudes e justificação política e colocar em diálogo diferentes tradições filosóficas em torno da questão democrática.

Há, portanto, uma espécie de fio subterrâneo atravessando os dois dias de reflexão: a democracia precisa de mais do que instituições democráticas para existir. Precisa de sujeitos capazes de participar de um espaço comum, de linguagens que permitam a compreensão recíproca, de instituições que deem forma pública à liberdade e de condições políticas nas quais o conflito não destrua a possibilidade de convivência. É nesse sentido que o complemento do título do Ciclo "limites, possibilidades, aberturas" adquire densidade filosófica. Os limites indicam as fraturas que atravessam a razão pública. As possibilidades remetem às formas pelas quais a racionalidade, a virtude e as instituições ainda podem sustentar a vida democrática. Finalmente, as aberturas apontam para aquilo que permanece por pensar.

Em tempos nos quais a própria ideia de um mundo comum parece submetida a fortes tensões, talvez a tarefa da filosofia não seja oferecer uma fórmula para salvar a democracia, mas reabrir as perguntas que tornam a democracia pensável.

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