10 Setembro 2026
Dos mosteiros de Chipre a um ato de misericórdia à beira da estrada, o Evangelho atravessa fronteiras como um convite ao encontro, enquanto a religião nacionalista transforma a fé em um marcador de pertencimento que divide.
O artigo é de James Gordon Reid Haveloch-Jones, publicado por Global Catholic, 08-09-2026.
James Gordon Reid Haveloch-Jones, MA, FRSA, é educador, especialista em ética e teólogo público, cujo trabalho explora a fé, a ética, a educação e a vida religiosa contemporânea. É membro honorário associado da St George's House, no Castelo de Windsor, e membro do conselho da Heythrop Association na Universidade de Londres. Concluiu seus estudos de pós-graduação em teologia na Universidade de Oxford e escreveu para publicações como The Tablet , Church Times , Premier Christianity e National Catholic Reporter . Também é colaborador contratado do projeto The God Who Speaks , iniciativa bíblica da Conferência dos Bispos Católicos da Inglaterra e do País de Gales. Além de seu trabalho teológico, dirige a consultoria educacional Achievers™ e é autor do best-seller da Amazon sobre técnicas de estudo, The Gold Standard: Coaching for Excellence .
Eis o artigo.
Em 2024, estive diante das águas deslumbrantes da costa cipriota, exatamente no local onde, segundo a tradição, São Paulo e São Barnabé teriam desembarcado pela primeira vez para levar o Evangelho aos gentios.
Ali, parado, foi impossível não sentir a verdade impressionante de que o Evangelho é, de fato, Boa Nova: que somos "formados de modo assombroso e maravilhoso" (Salmo 139,14), que "valemos mais do que muitos pardais" (Mateus 10,31) e que "fomos comprados por um preço" (1 Coríntios 6,20).
Na semana passada, ao folhear meu álbum de fotos com primos que estavam visitando da Austrália, me vi voltando a imagens de Chipre: o litoral, os mosteiros, os lugares silenciosos onde a oração parece se depositar nas pedras.
As fotografias me trouxeram de volta às lembranças de caminhar por aqueles espaços monásticos: lugares onde o silêncio se torna uma forma de verdade, e a oração, uma forma de paz.
Um mosteiro em particular permaneceu em minha mente. No Mosteiro de São Barnabé, perto de Famagusta, parei diante de um memorial a clérigos mortos durante o período otomano.
Do lado de fora, uma estátua, escura e reluzente como bronze à luz da tarde, prendeu meu olhar. Ela se erguia entre as ruas de paralelepípedos e os cafés como testemunho de uma verdade dolorosa: a violência que um grupo pode infligir a outro e as feridas que a história deixa para trás.
No entanto, o que me impressionou foi que o memorial não parecia exigir vingança. Parecia, em vez disso, convidar ao trabalho mais lento do perdão cultural, a uma forma de recordar que se recusa a se endurecer em ódio.
Naquele silêncio, lembrei-me de Efésios 2,14: "Pois é ele a nossa paz... destruindo o muro da separação que os dividia, a inimizade".
A humanidade antes da religião
Chipre, com suas histórias contestadas e sua paisagem dividida, me lembrou que há uma diferença entre lembrar uma ferida e permitir que essa ferida defina o que vem depois.
A dor pode ser reconhecida sem ser transformada em arma. A memória pode ser honrada sem ser afiada em ódio.
Mais tarde, nas colinas da Península de Karpaz, conheci um padre ortodoxo casado cuja pequena paróquia era adornada com ícones russos e lembranças de Putin. Suas opiniões eram ferozmente nacionalistas, formadas por um mundo no qual fé e identidade haviam se fundido numa única postura, frágil.
Ainda assim, acabamos sentados juntos num café local, compartilhando um café instantâneo, momento que minha mãe capturou numa fotografia hoje guardada em meu álbum. Conversamos abertamente sobre nossas vidas, nossas jornadas de fé e os mundos que nos formaram.
Tornou-se, inesperadamente, um exercício de acompanhamento: permitir que outra pessoa fosse radicalmente honesta sobre si mesma e suas crenças, e ouvir sem a necessidade de reduzi-la a essas crenças. Naquela troca simples, a humanidade falou com a humanidade.
E então, no topo de uma colina onde o oxigênio rareava, e minha mãe desmaiou de repente, a humanidade falou novamente.
Sem cobertura de celular e sem língua em comum, ajoelhei-me ao lado dela, impotente. Um homem muçulmano, não um padre, teólogo ou especialista em sinodalidade, parou seu carro, ajudou-me a colocá-la gentilmente no banco de trás e nos levou até onde estávamos hospedados. Sua compaixão foi imediata, instintiva e sem hesitação.
O Bom Samaritano chegou de uma forma que eu não esperava. Ele não perguntou no que eu acreditava ou de onde eu vinha; simplesmente viu alguém em necessidade e se tornou um próximo. Esse momento ressoa profundamente porque expôs algo que os argumentos teológicos e políticos podem facilmente obscurecer: antes de sermos membros de nações, tribos, igrejas, partidos ou culturas, somos seres humanos diante uns dos outros.
E esta, talvez, seja uma das grandes tensões que o cristianismo enfrenta em nossa época. O Evangelho atravessa fronteiras. O nacionalismo as constrói. A fé cristã começa com um convite. Seguir a Cristo, tornar-se um próximo, ver a dignidade da pessoa diante de nós.
Mas, cada vez mais, em partes do imaginário político, pede-se ao cristianismo que se torne outra coisa: um marcador de pertencimento cultural, uma defesa da identidade nacional, uma fronteira que separa "nós" de "eles".
Trump, Milei e Modi
O perigo não é que os cristãos amem suas nações. Não há nada inerentemente anticristão em amar o lugar, o povo e a cultura de onde viemos. Tenho orgulho de minha cidade, minha comunidade e minha herança familiar. O perigo começa quando o cristianismo deixa de ser uma forma de encontrar o mundo e passa a ser uma forma de decidir quem pertence a ele.
Foi precisamente nesses encontros, claustros, cafés e misericórdia à beira da estrada, que comecei a ver um padrão preocupante se desenrolando muito além de Chipre.
Donald Trump, Javier Milei e Narendra Modi representam mundos políticos e religiosos muito diferentes: Trump dentro de um contexto político americano cada vez mais nacional-cristão; Modi por meio da visão hindu-nacionalista do Hindutva; e Milei por meio de uma política populista cada vez mais entrelaçada com simbolismo e identidade religiosos.
Suas diferenças importam, e não devem ser reduzidas a um único fenômeno. Ainda assim, apontam para uma tentação mais ampla: transformar a fé, de um chamado à transcendência, numa linguagem de pertencimento, e, de um convite universal, numa posse cultural.
Enquanto o mosteiro nos ensina a carregar a dor com humildade, a religião nacionalista pode nos ensinar a empunhar a dor como fonte de identidade. Enquanto o Evangelho convida ao encontro, a política nacionalista pode fazer a divisão parecer uma virtude. Enquanto o cristianismo nos chama para além de nós mesmos, o nacionalismo pode nos tentar a fazer da nação o objeto supremo de lealdade.
O Evangelho, porém, não é uma nação; é um convite! Um convite que começou quando Paulo e Barnabé pisaram numa praia estrangeira. Um convite que nos pede para lembrar sem ódio, encontrar sem medo, e reconhecer nosso próximo mesmo quando ele chega numa forma que nossa política nos ensinou a não esperar.
Talvez seja por isso que, entre todas as fotografias de Chipre, a que recordo com mais clareza não é nem a costa nem os mosteiros. É a imagem, na minha memória, de minha mãe com um estranho muçulmano que parou seu carro. Pois, naquele momento, o muro de separação caiu, e o Evangelho pareceu menos uma fronteira do que um caminho.
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