02 Setembro 2026
“A perturbadora impossibilidade de uma sociedade estar à altura dos ideais que proclamamos pode ser dolorosa quando comparada às sociedades reais, que ficam tão aquém deles. É por isso que o sonho da utopia, ou do “lugar inexistente”, assombra os sonhos de muitos pensadores há tanto tempo que pode parecer mais um pesadelo. Diante da hipocrisia de um mundo onde a crueldade muitas vezes parece ser o próprio objetivo, que direito temos de supor que as coisas poderiam ser melhores? Como podem pessoas supostamente sábias e inteligentes sonhar com a utopia quando a sabedoria e a inteligência apontam para a sua impossibilidade?”.
A reflexão é de Matt McManus, em artigo publicado por Jacobin, 30-08-2026. A tradução é do Cepat.
Matt McManus é professor de Ciência Política no Whitman College, EUA, autor de The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth e coautor de Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson.
Eis o artigo.
A perturbadora impossibilidade de uma sociedade estar à altura dos ideais que proclamamos pode ser dolorosa quando comparada às sociedades reais, que ficam tão aquém deles. É por isso que o sonho da utopia, ou do “lugar inexistente”, assombra os sonhos de muitos pensadores há tanto tempo que pode parecer mais um pesadelo. Diante da hipocrisia de um mundo onde a crueldade muitas vezes parece ser o próprio objetivo, que direito temos de supor que as coisas poderiam ser melhores? Como podem pessoas supostamente sábias e inteligentes sonhar com a utopia quando a sabedoria e a inteligência apontam para a sua impossibilidade?
O novo livro de David Albertson e Jason Blakely, Utopia for Our Century: A Manifesto of Hope (Utopia para o Nosso Século: Um Manifesto de Esperança), Yale University Press, 2026, apresenta uma história ponderada dessas almas ousadas que sonharam com algo melhor. Mas, mais do que simplesmente apresentar uma história, o livro busca explorar o valor político e ideológico do pensamento utópico e refutar a ideia de que ele seja meramente uma construção ilusória. Albertson e Blakely encontram muito o que admirar nos autores utópicos, que eles consideram “sonhadores virtuosos que viveram realidades pelo menos tão sombrias e assustadoras quanto as nossas, mas o fizeram com uma esperança indestrutível”. Em sua melhor versão, os utopistas enfatizaram uma esperança sem garantias, uma postura sábia que traça um caminho intermediário entre o otimismo cego e a inércia resignada de um falso “realismo”.
Seu arquétipo é Thomas Morus, cujo livro Utopia, publicado no século XVI, deu nome ao conceito. Para Albertson e Blakely, Morus nos permite compreender a personalidade dos utopistas, que não são os otimistas ingênuos de suas caricaturas.
Longe de ser um pensador especulativo e etéreo, Morus é um dos poucos grandes filósofos que teve uma carreira política genuinamente pública, e durante um período singularmente difícil. Ele serviu como Lorde Chanceler da Inglaterra sob o reinado do amoral e cruel Henrique VIII. Foi uma época tumultuada para o país. Henrique rompeu com Roma e se declarou chefe da Igreja da Inglaterra para poder anular seu casamento e se casar com outra mulher. Isso gerou forte oposição, que Henrique enfrentou com violenta repressão. Essa repressão acabou atingindo Morus, um católico devoto, que foi julgado por se recusar a reconhecer a supremacia religiosa de Henrique. Morus se manteve inabalável em suas convicções, o que levou à sua execução em 1535.
Albertson e Blakely compreendem que a trágica imersão de Morus na realpolitik é parte do que inspirou sua guinada em direção ao utopismo. Sua irônica designação de “utopia” como “lugar inexistente” não visa meramente demonstrar a natureza especulativa do seu pensamento. Morus chama a atenção, de forma crítica, para o fato de que nenhum lugar na terra chega perto de incorporar a justiça, mesmo quando muitas das elites governantes que detêm o poder de mudar as coisas afirmem estar profundamente preocupadas com a justiça. Em uma passagem memorável, Morus descreve um diálogo entre Rafael Hitlodeu – o viajante para a Utopia – e um advogado não identificado. O advogado diz estar preocupado com a lei e a ordem e argumenta que a única maneira de preservá-las é por meio de punições brutais. Hitlodeu aponta que Utopia é um lugar muito mais seguro, principalmente porque é uma sociedade muito menos desigual, onde a propriedade é amplamente compartilhada e há pouca pobreza.
Além disso, suas punições para crimes como roubo são muito mais brandas do que na Inglaterra, o que expressa ainda mais seu compromisso humanista. Com “humor mordaz”, Hitlodeu observa que realistas como o advogado aprisionam os pobres em uma situação impossível, “primeiro transformando-os em ladrões e depois punindo-os por isso”. Em vez de empreender reformas para alcançar a paz e a justiça que o advogado alega desejar e em que acredita, ele se apega obstinadamente ao “sonho impossível” de que “a Inglaterra poderia resolver o problema da pobreza prendendo e executando (um truque que, infelizmente, ainda funciona maravilhosamente)”.
Nesse sentido, o utopismo não é uma fantasia sobre mundos que jamais poderiam existir, mas um espelho condenatório que reflete o quão pouco vivemos de acordo com os princípios em que afirmamos acreditar. Além disso, ao falharem em se comprometer com a justiça em nome do “realismo”, as elites dominantes são responsáveis por produzir a própria corrupção que alegam ser o maior obstáculo para a melhoria das coisas. Morus queria expor como esse apego ideológico ao status quo, com todas as suas falhas, era um dos principais obstáculos à melhoria.
“A Utopia de Morus submete gradualmente os seus contemporâneos europeus ao escrutínio do ‘e se’ e ao seu poder revelador”, como afirmam Albertson e Blakely. “As atitudes predominantes de sua época em relação ao encarceramento, à propriedade privada, à educação e à saúde são expostas, uma a uma, como inviáveis, insustentáveis e, de fato, irrealistas à luz das conquistas dos utópicos”.
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No entanto, em apenas alguns séculos, tudo isso mudou: “Quantas políticas que eram tidas como certas na Londres de Morus sobreviveram até o nosso século, seja a pena capital por roubo ou o direito divino dos reis? A resposta é clara: elas desapareceram”.
A pós-modernidade; ou, a lógica cultural das utopias monstruosas
Contrariando nossa reputação de idealistas, muitos dos pensadores de esquerda mais perspicazes expressaram profundo ceticismo em relação ao utopismo. Isso, é claro, começou com Karl Marx, que notoriamente repreendeu os socialistas com quem discordava, rotulando-os depreciativamente de “utópicos”. Em seus momentos mais duros, Marx ridicularizou o utopismo, considerando-o meramente como a escrita de livros de receitas para as cozinhas do futuro. Tais projetos não passavam de um capricho especulativo e ahistórico (embora um capricho ao qual o próprio Marx se entregasse frequentemente). Seguindo seus passos, muitos marxistas ortodoxos insistem que o socialismo deve ser “científico”, ou não é socialismo de forma alguma.
Os marxistas mais ponderados adotam uma abordagem diferente. Em sua influente obra Arqueologias do futuro: o desejo chamado Utopia e outras ficções científicas [Autêntica, 2021], o grande Fredric Jameson, já falecido, destaca como a ficção científica utópica tem sido frequentemente um gênero construtivo para que progressistas imaginem futuros melhores, com o objetivo de concretizá-los. O gênero, naturalmente, teve início com o próprio Morus, a quem Jameson descreve como um satirista progressista do poder que oferece um devastador “comentário ponto a ponto sobre os assuntos ingleses e a situação da Inglaterra”. A literatura utópica prosseguiu de diversas formas, na medida que autores que vão de Edward Bellamy a Ursula K. Le Guin utilizaram a ficção científica tanto para criticar o status quo como para especular sobre como poderia ser um futuro melhor.
Mas, em última análise, Jameson expressa reservas quanto ao poder transformador do gênero utópico e sugere que ele pode muito bem ter chegado ao fim no século XXI pós-moderno. Assinala como, hoje, o gênero utópico praticamente se evaporou, dando lugar a representações sombrias do futuro, nas quais é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Como um sinal revelador, mesmo obras que começam apresentando utopias muitas vezes acabam revelando que não são tão boas quanto pareciam. O mundo aparentemente idílico e cor-de-rosa de Barbie (2023) acaba se revelando um mundo repleto de angústia existencial reprimida e animosidade de gênero. Séries mais recentes do universo Star Trek, como Picard e Discovery, pegam o futuro cosmopolita e brilhante prometido pela Federação Unida de Planetas de Gene Roddenberry e mostram que ele secretamente dependia de manipulação secreta, de exploração dos marginalizados e muito mais.
Ao contrário de Jameson, Albertson e Blakely acreditam que o gênero utópico está bem vivo, embora não em boa forma. Isso representa um problema sério, dada a necessidade urgente de utopias “construtivas”. Albertson e Blakely são bastante críticos do populismo de direita e dos danos que ele causa, mas sustentam que grande parte disso decorre das próprias aspirações utópicas da direita (frequentemente negadas). Entre elas está o sonho nacionalista de um ethnos [povo em grego] unificado, que Albertson e Blakely descrevem como uma “espécie peculiar de utopia fracassada”. Os nacionalistas invocam um “espírito imaginado da nação que cria uma ilusão de unidade cultural” – um espírito que pretende basear-se na história real, mesmo quando minimizam constantemente, ou resistem militantemente, os fatos históricos que não se encaixam nos mitos patrióticos que desejam disseminar. Albertson e Blakely observam, ironicamente, que os nacionalistas devem sustentar constantemente “a óbvia falsidade de que o geist [espírito nacional] imaginado permanece puro, livre de sobreposições com culturas constituintes ou vizinhas, e de que nunca muda ao longo do tempo”.
Eles também veem muitas das mesmas fantasias em ação na “esperança utópica mais febril” da direita: que um dia possamos alcançar a “visão mais pura, geométrica e sem atritos do ‘livre mercado’. Gerações inteiras de estadunidenses viveram como se o mercado fosse a única utopia tolerável”. Albertson e Blakely criticam mordazmente essa visão, e com razão, chamando-a de “utopia monstruosa” por exigir pouco das pessoas e dar ainda menos em troca, enquanto tratam o sistema monetário como uma “deidade menor”.
Eu iria ainda mais longe do que Albertson e Blakely e sugeriria que a concepção meritocrática do capitalismo – segundo a qual todos serão recompensados de acordo com seus méritos – não é simplesmente uma visão utópica ruim, mas a visão utópica mais ridícula já concebida. Os filósofos da antiguidade tiveram a sabedoria de aceitar que somente a mão bem visível e omnisciente de Deus poderia recompensar as pessoas de acordo com seus méritos, e somente em um reino perfeito além deste. Apenas os conservadores estadunidenses foram tão longe a ponto de imaginar um mundo tão fantasioso em que a mão invisível e carente de espírito do mercado recompensaria as pessoas de acordo com seus méritos, e nesta vida. Comparado ao capitalismo meritocrático, até o comunista mais iludido parece um realista lúcido, pois apenas imaginou que era possível dar às pessoas o que elas precisavam, deixando em aberto a questão do que elas mereciam.
Será que a utopia é possível hoje em dia?
Albertson e Blakely, por outro lado, mostram-se mais compreensivos com as utopias da esquerda, embora as considerem ainda limitadas por certas restrições fundamentais. Expressam certa simpatia pelo liberalismo, ao mesmo tempo que destacam como o “liberalismo do pós-guerra estagnou” devido a uma regressão em direção ao “libertarianismo de direita, por vezes chamado de neoliberalismo”. Essa regressão ao neoliberalismo “traiu os ideais originais da tradição [liberal]” de alcançar a liberdade, a igualdade e a solidariedade para todos. Albertson e Blakely também criticam a tradição marxista por não reconhecer que as verdadeiras revoluções nunca começam na esfera econômica. Em vez disso, argumentam que precisamos de uma transição de valores, orientada para padrões éticos mais elevados. Eles não detalham o que isso implicaria, mas suas referências elogiosas a cristãos humanistas e de esquerda, como o próprio Morus, Martin Luther King Jr. e o falecido Alasdair MacIntyre, oferecem muitas pistas.
O que torna a posição de Albertson e Blakely interessante é a extensão em que defendem uma visão utópica que seja simultaneamente liberal, anticapitalista e profundamente espiritual. Escusado será dizer que esta é uma combinação difícil de alcançar, embora se possa questionar a utilidade de uma visão utópica pouco ambiciosa. Infelizmente, os autores não se esforçam muito para elaborar este ponto com precisão, embora ofereçam vários exemplos comoventes das vidas de Morus e King. É aqui que os meus próprios instintos marxistas entram em jogo, levando-me a suspeitar que atos individuais de benevolência simplesmente não serão suficientes. A falta de uma teoria clara do poder – algo que complemente as suas fervorosas condenações da injustiça e as críticas às restrições ideológicas – constitui uma limitação real da sua visão.
Mas, apesar de tudo, Albertson e Blakely merecem reconhecimento pela força e audácia de sua visão, até mesmo por sua ousadia. Certamente, eles têm razão ao argumentar que um certo tipo de utopismo pode ser mais realista do que a adesão acrítica a um status quo que não funciona. Afinal, fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes não é sabedoria. É loucura.
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